Han Solo - Uma História Star Wars

Leia a nossa crítica do mais novo derivado da saga!

Deadpool 2

Continuação tenta manter a subversão do original enquanto se rende às convenções hollywoodianas

Desejo de Matar

Eli Roth aterroriza ação do remake e não deixa os temas caírem na ingenuidade

Nos Cinemas #1

Nossos comentários sobre O Dia Depois, Submersão e Com Amor, Simon

Jogador N° 1

Spielberg faz seu comentário sobre o próprio legado em Hollywood sem esquecer do espetáculo no processo

Mostrando postagens com marcador Irmãos Dardenne. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Irmãos Dardenne. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Crítica: A Garota Desconhecida

Irmãos Dardenne usam suspense para esticar mais uma história sobre comunidades.

Por Pedro Strazza.

Diretores que são conhecidos por trabalhar o cotidiano em seus filmes e donos de um cinema mais cru na abordagem, os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne vem mantendo em seus últimos trabalhos um foco maior sobre populações mais regionalistas, imbuídas de um senso comunitário forte. A Garota Desconhecida não foge a essa regra, mas como nos filmes anteriores da dupla ele trabalha esse senso de “cuidar um do outro” à base da desconstrução.

Na trama, acompanhamos uma jovem médica (Adèle Haenel) que trabalha numa pequena clínica, mas aspira chegar ao setor privado – e portanto mais rico – da profissão. Certa noite, após brigar com o estagiário e na pressa para chegar a uma festa do novo emprego, ela recusa um paciente por ter chegado uma hora depois do fim de seu expediente, mas no dia seguinte descobre que a pessoa, uma garota sem identificação, foi encontrada morta pouco depois de bater à sua porta. Sentindo-se culpada pelo fato, ela então parte numa busca para saber quem é a mulher ao qual recusou acolhimento e tratamento.

Os Dardenne aqui flertam bastante com elementos dos suspenses hitchcockianos, trabalhando em seus planos longos a tensão de uma história cuja investigação central é um macguffin clássico, situado em um mundo comum de pessoas comuns. Não interessa aos irmãos saber o que de fato aconteceu com a menina morta, mas sim as relações que a protagonista tem com a comunidade ao qual se insere enquanto procura saber a verdade.

É nesse momento que A Garota Desconhecida encontra muitas semelhanças com o filme anterior dos diretores, o épico cotidiano Dois Dias, Uma Noite estrelado por Marion Cottilard. Além de ambos serem protagonizados por mulheres, os dois longas no fundo se estabelecem dentro de um campo de evidenciação da falsidade das relações comunitárias, de forma a revelar o quão egoístas as pessoas presentes nesse âmbito podem se revelar em momentos de crise. 

A diferença é que enquanto o último realiza esse processo por uma situação de mais puro enfrentamento - a personagem de Cottilard tem de ir de em porta em porta perguntar aos colegas de trabalho se irão ajudá-la a manter o emprego ou ficar com o bônus do salário – este novo trabalho diagnostica o fracasso dessas relações por uma narrativa de trajetórias opostas. Se a médica sai de uma situação de egoísmo puro para encontrar sua real vocação auxiliando os outros, estes últimos mostram-se mais dispostos a manter a privacidade de suas vidas que de ajudar a médica a encontrar um nome para a garota do título. O suspense injetado pelos Dardenne potencializa esse clima cai-não-cai, ainda que não seja lidado com o maior dos interesses pelos irmãos.

Esse cenário desenhado pelos diretores não esconde também algumas das precariedades do roteiro. Não apenas pela resolução simples e um pouco preguiçosa (soa como se as ações da protagonista não importassem no fim das contas), o longa deixa a impressão inicial de ser um curta esticado em mais dois atos, já que seu primeiro terço se resolve por si só. É como se os Dardenne tivessem resolvido fazer um filme mais pautado pelo gênero – algo atípico em suas carreiras – apenas para dar ao projeto mais tempo para desenvolver suas questões, algo que se por um lado se prova uma ótima decisão (o mistério intriga e o suspense é bem construído) também revela a linha tênue em que a produção se equilibra.

Nota: 7/10

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Crítica: Dois Dias, Uma Noite

Os 16 desafios de Marion Cotillard

Por Pedro Strazza

O cotidiano sempre oferece histórias interessantes, e o cinema é muito consciente disto. Em meio às suas biografias glorificantes e seus épicos estrondosos, a indústria cultural e seus envolvidos encontram no dia-a-dia da sociedade tramas repletas de intrigas, reviravoltas, momentos cômicos e dramáticos e (principalmente) de personagens profundos, às quais transmite ao grande público por meio de suas grandes telas e seus exageros artísticos - pois afinal, quem gostaria de assistir a um filme que não tenha um pouco da famosa "fantasia do cinema"?

A resposta são os irmãos belgas Luc e Jean-Pierre Dardenne, que preferem não se utilizar desses excessos para contar suas histórias ambientadas na dura realidade e provam isso mais uma vez com este Dois Dias, Uma Noite. Com roteiro e direção da dupla, o longa acompanha Sandra (Marion Cotillard), uma operária que certo dia descobre que está prestes a ser demitida do lugar onde trabalha após uma votação entre seus 16 colegas sobre escolher, em tempos de recessão econômica, entre ou o bônus de final de ano ou o emprego dela. Conseguindo um novo sufrágio, ela e seu marido Manu (Fabrizio Rongione) tem então dois dias (e a uma noite do título) para conseguir convencer a maioria dos trabalhadores a mudar o voto e desta maneira manter a sua vaga no trabalho.

Com uma estrutura narrativa simplória - e que nunca deixa de negar esta condição - em mãos, os irmãos Dardenne realizam um curioso estudo em cima de sua protagonista. De frágil condição psicológica, Sandra, através de suas crises de choro e dos comprimidos que toma repetidas vezes, demonstra uma instabilidade latente a cada pessoa contatada e resposta recebida, mas por precisar de seu emprego ela é obrigada a sempre ter de encontrar forças para continuar na luta por ele. Para isso, os diretores (também autores do roteiro da produção) filmam Sandra e suas ações em longos planos, optando sempre por não mostrar diretamente seus momentos de maior vulnerabilidade quando estes acontecem - só reparar, por exemplo, na maneira como vemos ela se medicar ao longo da projeção.

Ainda sob esse aspecto, a atuação de Cotillard é decisiva para o filme, pois incorpora todas as dores sentidas à seu movimento e postura para evidenciar o quão alquebrada é a delicada personagem. A atriz também é muito eficiente ao mostrar de forma clara que Sandra, em meio à sua fragilidade, de fato se importa com seus colegas de trabalho e seus problemas econômicos, mesmo estes sendo responsáveis por decidir o rumo da vida dela e de sua família.

A abordagem narrativa dos outros funcionários é outro ponto forte da obra. De diferentes origens sócioeconômicas, mas ainda assim carregados de problemas muito parecidos, os operários procurados pela protagonista tem seus entraves e deficiências financeiras evidenciados para o espectador por elementos visuais claros como filhos e casas. As crianças, por sinal, ganham na visão dos Dardenne uma atribuição levemente negativa, simbolizando um motivo a mais para seus pais estarem em uma situação mais complicada para pagar as contas.

Centrado em uma protagonista de personalidade profundamente fragmentada e que vive em uma sociedade prejudicada pela economica, Dois Dias, Uma Noite é mais um trabalho interessante dos irmãos Dardenne focado no drama real do cotidiano. Para os cineastas, não importa se o ser humano é frágil ou forte, mas sim se este é capaz de sobreviver aos desafios da rotina.

Nota: 8/10

Crítica parte da cobertura da 38° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (2014)