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sábado, 4 de junho de 2016

Do Baú: Sin City - Balas, Garotas e Bebidas

Contos servem de frontispício para maculada cidade de Frank Miller.

Por Marina Ammar.

Reunindo onze contos escritos e desenhados por Miller, Balas, Garotas e Bebidas é o ideal abrir de cortinas para o universo de Sin City.

Os contos são curtos, altamente climáticos e de temas e personagens variados, alguns decerto melhores do que outros, mas no todo uma leitura tão empolgante quanto angustiante, o que Sin City algum não pode deixar de ser. O desenho de Miller, primoroso no contraste entre preto e branco e no uso de luz e sombra, entrega os segredos e violências da cidade de forma explícita ou sutil quando necessário, casando bem com a narrativa de pegada noir e retornando com personagens dos volumes principais, como Marv, Nancy, Gale, Dwight e até mesmo a dupla de assassinos Fat Man e Little Boy. 

Além das costumeiras violência e sensualidade, Balas, Garotas e Bebidas também traz humor consigo, de forma ocasional e passageira, às vezes bem-vindo e outras nem tanto. Apesar disso, a atmosfera geral se mantém sólida ao longo de cada conto, – principalmente sustentada pelos desenhos de Miller, muitas vezes surpreendentes na escolha de enquadramento e sequencialidade – e a Sin City conhecida de volumes anteriores se mantém a velha e nem tão boa cidade de sempre. 

Em suma, é uma das leituras mais leves que se pode ter dentro do universo de Sin City, tanto porque, em histórias curtas, não há tempo para que se forme um apego a qualquer causa ou personagem. Mas é também justamente pela duração das histórias que, apesar de possuírem momentos chave de tensão, não permitem que a angústia permaneça. Para os leitores acostumados e fãs de outras histórias da cidade (ou mesmo dos filmes) o volume é uma adição interessante ao universo de Sin City, um reencontro em leitura confortável com os personagens já conhecidos e os apresentados pela primeira vez.

E para os novos leitores, é um abrir portas para um universo envolvente e personagens bastante cativantes em sua quase geral condição de anti-heróis, um convite sucinto para que o leitor volte a visitar a cidade de Sin City, apesar dos riscos. 

Nota: 6/10

Na seção "Do Baú", a equipe do site analisa e indica histórias em quadrinhos que já foram lançadas no exterior há algum tempo e que recentemente foram republicadas no Brasil, seja o motivo de sua reimpressão a sua chegada tardia nas bancas e livrarias do país, a mudança de seus direitos de publicação para outra editora ou que ela ganhou uma nova e melhorada edição.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Primeiras Impressões: Cavaleiro das Trevas III - A Raça Superior

Frank Miller retoma história com velhos e novos valores.

Por Pedro Strazza.

Há um quê de paradoxal na maneira pela qual Frank Miller e seu co-roteirista Brian Azzarello trabalham as imagens de seus heróis na primeira edição deste Cavaleiro das Trevas III - A Raça Superior. Se por um lado a dupla dedica este capítulo inaugural a reapresentar suas peças centrais no tabuleiro como ídolos adormecidos - de forma literal no caso de Superman, encontrado congelado e sentado em seu trono na Fortaleza da Solidão por sua filha com a Mulher-Maravilha, Lara -, é sensível na HQ um ar de completa desesperança quanto à presença destes, subentendida em pequenas coisas como a postura cansada da comissária Yindel quando de frente a um maciço bat-sinal.

É deste sentimento confuso da sociedade perante tais figuras, praticamente consagradas como mitológicas neste e nos outros dois Cavaleiro das Trevas, que Miller parece retomar aqui com maior contenção, mas ainda inclinado a continuar o mesmo debate com igual intensidade. Porque se, a princípio, A Raça Superior tem a propensão de reduzir o espectro e focar as atenções apenas no trio principal de super-heróis e suas relações mais imediatas (apesar de maneira não excludente, como bem prova a história secundária protagonizada pelo Átomo), é evidente que a série quer se mostrar progressiva no desenvolvimento das figuras centrais de seu palco.

Ainda não dá para saber como o quadrinho irá encaminhar essa discussão só por esse primeiro capítulo, é óbvio, mas os roteiristas já dão vislumbres da forma pela qual irão trabalhar o tema. Pelo traço de um Andy Kubert que começa a dar passos na tentativa de incorporar o estilo da arte mais direta de Miller e auxiliado por Klaus Janson no cumprimento desta tarefa, a primeira edição tem bastante interesse de reestabelecer ao leitor os espaços em que estes personagens atuam, da Gotham City banhada pelo vermelho sangrento a uma Fortaleza da Solidão que lembra um santuário perdido (além de abandonado, dessa vez). O truque é manter em perspectiva o caráter de formação que eles imprimem a estes ambientes, e a passagem pelo cenário selvagem ao qual a Mulher-Maravilha está inserida, incluindo seu confronto com um gigantesco minotauro, serve muito bem para pontuar isso.

A série Cavaleiro das Trevas, entretanto, não vive somente dessas características atemporais como também se alimenta do que é contemporâneo à sua criação, e nesse início do terceiro episódio o quadrinho permanece empenhado em manter-se conectado com sua realidade cronológica. Da presença do apresentador Jon Stewart às inserções de mensagens de texto no início da edição, fica claro que Miller tem a intenção de manter o quarto poder na pauta de sua história e de tratar de suas transformações desde sua última incursão por esse universo, em 2002. Resta se perguntar se o tema manterá o mesmo papel das outras vezes e, se não, qual será sua nova situação neste panorama.

Mas o mais curioso deste primeiro capítulo ainda continua a ser esse clima de desesperança no qual a história parece de início estar se equilibrando em cima. Se nas outras duas ocasiões esse elemento era apenas consequência do que Miller trabalhava, em A Raça Superior está implícito de que será ela que dará o tom à cadeia de eventos e à abordagem do autor, do começo (disfarçado de motivação no agourento "Uma boa morte? Isso não existe!" e combinado à visão de um glorificado uniforme do Batman) ao fim (a última frase e seu significado único e imediato). Há a dúvida se isso parte de uma evolução natural da trama ou da influência dos tempos que vivemos no raciocínio do autor, mas ela definitivamente está lá como motor central da vez.

sábado, 27 de setembro de 2014

Crítica: Sin City - A Dama Fatal

Em baixa, Frank Miller e Robert Rodriguez repetem fórmula na continuação sem a mesma criatividade

Por Pedro Strazza

De visual arrojado e com um elenco estrelado, Sin City - A Cidade do Pecado foi um filme que atraiu muitas atenções quando lançado. A adaptação das graphic novels de mesmo nome pelas mãos do diretor Robert Rodriguez, afinal, serviu tanto como uma bela homenagem às antigas produções noir quanto para mostrar a Hollywood que o consagrado quadrinista Frank Miller, co-diretor da obra, poderia também comandar um longa de grande orçamento, mesmo com os fracassos que foram Robocop 2 e 3 em sua bagagem. E ainda que tenha tido um resultado ameno nas bilheterias, uma continuação foi logo anunciada pela dupla.
Mas o tempo passou, as coisas mudaram e o segundo capítulo custou a aparecer. Enquanto a produção enrolava-se em boatos de escalação de elenco e datas de estréia no esforço de deixar aquecido o interesse do público pelo filme, Rodriguez se enveredou no trash com seu amigo de longa data Quentin Tarantino pelo projeto Grindhouse, e Miller, encantado pelos holofotes de Hollywood, arriscou-se sozinho na direção de The Spirit - O Filme, sua horrorosa homenagem ao falecido mestre Will Eisner (que acabou por conseguinte com toda a sua reputação conquistada com seu trabalho anterior), e envolveu-se em polêmicas suficientes para reforçar ao mundo sua tendência ao conservadorismo extremo.
Assim, quase dez anos depois do primeiro filme, o segundo Sin City chega às telas já desmoralizado. Longe do auge de sucesso e brilhantismo, Miller e Rodriguez voltam para os contos violentos e eróticos da cidade de Basin City dispostos a tentar voltar à ribalta da indústria cinematográfica com tudo, e para isto dispõem do mesmo elenco talentoso (com algumas mudanças) e as graphic novels do autor de O Cavaleiro das Trevas.
Seus planos, porém, são sabotados por seus próprios vícios e arrogâncias, e o tão esperado Sin City - A Dama Fatal mostra-se ser nada mais que uma repetição de tudo o que foi mostrado em 2005. Estão presentes aqui todos os temas e ideias visuais e narrativas apresentadas por ambos no primeiro longa, como a reverência ao noir e o fatalismo das mulheres - ainda mais sexualizadas nesta continuação graças à bela adição da desinibida Eva Green ao sensual elenco feminino como a "dama fatal" do título -, e isso pode servir de grande agrado para a maioria dos fãs.
O defeito maior da continuação não ocorre por causa desse repeteco, mas sim pelos erros cometidos por dois diretores que visivelmente mostram um desgaste de seus talentos. Rodriguez, por exemplo, não apresenta o mesmo vigor para compor em A Dama Fatal planos e cenas tão estonteantes quanto os do primeiro filme, característica esta de extrema importância visto o teor adaptativo da produção. Salva-se no longa apenas detalhes como o da cor dos olhos da personagem de Green quando esta revela sua real faceta à Dwight (Josh Brolin, substituindo Clive Owen no papel), minimalismos que de forma relativa contribuem para a identidade imagética da sequência.
Miller, por outro lado, evidencia o abismo que separa o seu eu antigo do novo no roteiro. Dividido em três contos, o filme traz adaptado para as telas apenas uma das cultuadas graphic novels do autor (justamente a que dá o título à obra) para mostrar nas outras duas histórias o material inédito escrito pelo próprio. Estas duas novas tramas - intituladas "The Long Bad Night" e "Nancy's Last Dance" - não mostram porém a mesma qualidade e coerência narrativa que "A Dama Fatal", abusando no processo de personagens e temas clichês.
Desgastado pelo tempo de espera e o crescimento negativo de seus diretores, Sin City - A Dama Fatal possui muito pouco da qualidade atingida por seu antecessor em 2005, mesmo repetindo sem dó a fórmula deste e usando de todos os seus elementos. O que faltou à sequência no final não foram as suas características, mas sim a técnica para aplicá-las com sucesso.

Nota: 6/10