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sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Crítica: O Plano de Maggie

Rebecca Miller realiza exercício de combinação em comédia que prioriza o mais fácil.

Por Pedro Strazza.

Desde que estreou no festival de Toronto do ano passado, O Plano de Maggie vem acumulando comparações da crítica com os filmes de Woody Allen, seja na forma de elogios ou críticas. É verdade que o longa de Rebecca Miller não hesita em copiar os moldes consagrados pelo diretor nova iorquino, preservando no processo (de alguma maneira) suas discussões sobre a veracidade da magia do amor, mas a cineasta não deixa de adicionar elementos próprios à fórmula.

O filme conta a história de Maggie (Greta Gerwig), uma professora de uma universidade de design que quer se tornar uma mãe solteira. Para isso, ela resolve fazer uma inseminação artificial por conta própria, usando o esperma cedido por um empreendedor de picles local (Travis Fimmel) que ela não deseja. Sua ideia, porém, é abandonada quando ela conhece e se apaixona por  John (Ethan Hawke), um antropólogo casado com outra antropóloga (Julianne Moore), pai de dois filhos e que tem uma vida infeliz.

Miller alia aqui as comédias de tipos clássicas de Allen com as do gênero screwball que caracterizam uma porção da produção independente dos Estados Unidos, e no geral não sai muito desse esquema. É uma decisão correta, ainda que preguiçosa como o longa bem comprova em alguns momentos:  se o segundo subgênero gera uma zona de conforto à cineasta e seu elenco - com Gerwig, Hawke e os coadjuvantes Bill Hader e Maya Rudolph bastante à vontade para repetir seus papéis de sempre, enquanto Moore se diverte como a mulher divorciada e ressentida – o primeiro é um território onde a diretora e roteirista pode experimentar algumas novas ideias sem arriscar a estrutura geral da obra, injetando no filme uma problematização de uma temática conhecida ao público.

E qual temática seria essa? Essa é uma questão que Miller aos poucos revela em seu longa, que no fundo se faz em uma história em dois atos (a repetição da cena do jantar, mesmo que rápida, é fundamental para entender isso) e preza por enxergar uma rotatividade nas relações amorosas. É para isso dar certo que Miller realiza esse exercício de combinação de gêneros, misturando os trejeitos e manias imutáveis dos personagens tipificados com a escalada de confusão ao qual o screwball se define como tal.

De certa forma, isso acaba por funcionar muito bem ao Plano de Maggie, que com isso ganha um fio condutor mínimo. O filme talvez se perca demais nas complicações que realiza na trama e aos seus personagens (há uns bons vinte minutos ali no meio que são improdutivos) e no fim ele pode soar um pouco sem ponto, mas seu esforço de ressignificação do gênero - e mesmo de questionamento do amor como fim - oferece um charme inegável à produção, ainda que bem disfarçado na estética mecânica de um trabalho de Woody Allen.

Nota: 6/10

sábado, 24 de setembro de 2016

Crítica: Sete Homens e um Destino

Refilmagem se disfarça de boas intenções, mas se contradiz com o próprio conteúdo.

Por Pedro Strazza.

Assim como Os Setes Samurais, épico samurai máximo do diretor Akira Kurosawa do qual aproveita a trama para ambientá-la no Velho Oeste, o primeiro Sete Homens e um Destino traz em seu âmago uma narrativa que engloba noções de público e privado. Os sete pistoleiros do título, afinal, aceitam de início defender um pobre vilarejo mexicano dos assaltos de uma gangue de 40 bandidos por mera ambição ou necessidade pessoal (a promessa vazia por riquezas, o desafio do combate, o pagamento de dívidas e etc), mas pouco a pouco se envolvem com a população ao qual foram contratados para proteger. A morte de grande parte do grupo no fim da história é a comprovação final do processo, um sacrifício que envolve não só suas vidas como também de seus desejos em prol de um bem maior.

A nova versão do filme, entretanto, não reconhece essa linha de raciocínio. Nas tantas mudanças feitas pelos roteiristas Nic Pizzolatto e Richard Wenk em cima do roteiro do original, se destaca no remake a dissolução da relação intrínseca entre heróis e vítimas, substituída por uma que privilegie os primeiros e relegue os últimos ao segundo plano. Se no longas de Kurosawa e John Sturges a questão principal é o encontro de figuras icônicas com pessoas comuns - o primeiro em forma de enfrentamento, o outro pelo deslumbramento conhecido dos faroestes da época -, a refilmagem dirigida por Antoine Fuqua prefere o espetáculo do duelo de seus mocinhos com o vilanesco industrialista Bartholomew Bogue (Peter Sarsgaard), que quer assaltar a cidadezinha de Rose Creek pelo roubo das terras.

É uma mudança de eixo simples e feita por uma boa causa, mas que traz imensos prejuízos à estrutura da história. Pizzolatto e Wenk buscam aqui expandir e realçar o conflito entre brancos e negros que caracteriza o cinema de Fuqua, contrapondo o elenco multiétnico e em pleno equilíbrio de figuras do Velho Oeste que protagoniza a trama - o delegado negro de Denzel Washington, o branco boa-pinta de Chris Pratt, o confederado traumatizado de Ethan Hawke, o ermitão de Vincent D'Onofrio, o bandido mexicano de Manuel Garcia-Rulfo, o estrangeiro de Byung-hun Lee e o indígena de Martin Sensmeier, todos interpretados com canastrice e sotaques bastante forçados pelos atores - com o vilão capitalista e diabólico, porém nunca conseguem sair da linha maniqueísta e da estereotipação desses personagens. Não existe no filme um esforço de humanização de tipos mas sim um reforço destes, conforme os contatos promovidos entre elementos tão opostos provam-se ineficazes na construção de uma relação mínima entre eles.

Isso porque este Sete Homens e um Destino encontra-se contaminado por uma sede individualista que não se justifica, gerada justamente pelo abandono do alicerce primordial do encontro dos pistoleiros com a cidade. Enquanto os heróis liderados por Yul Brynner e Steve McQueen no longa de 1960 eram aos poucos guiados pela salvação da população, os comandados por Washington e Pratt nunca chegam a se desvincular do propósito único de derrotar os poderosos para se concentrar nos que foram contratados para salvar, como se estivessem lá apenas para se tornarem lendas por derrotar uma força maior. Nos poucos momentos de encontro entre os cidadãos e os pistoleiros, inclusive, a câmera de Fuqua gosta de ressaltar (e não de desconstruir) a hierarquia entre quem protege e quem está sendo protegido, colocando os heróis sempre acima do povo como forma de legitimar seu caráter "lendário".

Para piorar, Fuqua parece estar perdido mesmo em seus propósitos. Se falta equilíbrio nas cenas em que precisa estruturar uma mínima ligação entre os protagonistas, na ação seu descontrole é total, já que promove uma escalada de eventos que repete situações e se interessa em apresentar uma novidade de impacto a cada minuto para prender a atenção do espectador. Clímax do filme, o combate final entre as forças de Bogue e os sete homens do título é confuso e desatento, sendo incapaz até de acompanhar o movimento dos personagens - que não sejam os de Denzel Washington ou Chris Pratt - e manter suas aparições em equilíbrio. Mesmo alguns duelos soam subaproveitados, como o travado entre os dois índios da trama ou o final com o vilão.

Na comparação entre Os Sete Samurais e o Sete Homens e um Destino original, o último saía perdendo por não conseguir dar cabo da tarefa de transportar para seus pistoleiros a sensação inequívoca do longa de Kurosawa de que o sacrifício dos samurais no fundo representava também o fim de seu valor para a sociedade, um sacrifício simbólico que repercutia em sua queda final como figura fundamental do imaginário japonês. O remake não apenas vai na contramão disso e busca consagrar seus protagonistas pelos mesmos caminhos, mas também demonstra um orgulho muito burro de abandonar esse viés.

Nota: 2/10

sábado, 1 de novembro de 2014

Crítica: Boyhood - Da Infância à Juventude

Novo trabalho de Richard Linklater encanta pela abordagem sensível e sutil de tema complicado

Por Pedro Strazza

O tempo é uma entidade poderosa em nossa existência. É ele que presencia todas as histórias criadas e desenvolvidas, acompanhando o nascimento, o crescimento e o fim de cada uma das vidas humanas. Seu maior poder, entretanto, é a sua continuidade eterna, que por não parar oferece a nós, seres humanos, poucas oportunidades de olhar para trás e compreender o quão rápido nos modificamos em um curto período de... tempo. Pois afinal, quem não mudou seu perfil, mesmo que levemente, após um ano (ou um mês, ou uma semana, ou um dia...) de existência?
Esta reflexão existencial nada discreta deve ter sido um dos motivos para o diretor e roteirista Richard Linklater ter começado, no fim da década de 90, a produção de Boyhood - Da Infância à Juventude. De início com um pequeno elenco, o cineasta filmou nesses últimos doze anos a história sobre a infância e adolescência de Mason Jr. (Ellar Coltrane), assistindo em consequência o crescimento e envelhecimento natural de seus atores e atrizes. O resultado final de tal experiência cinematográfica é uma epopeia cotidiana sobre o tempo e seus efeitos, que são tratados por Linklater com cuidado e sutileza impecáveis.
Para alcançar tal graciosidade, o cineasta se utiliza de estruturas narrativas leves e muitas vezes clichê, mas se guia no processo somente pelo protagonista e as histórias que o cercam. Isso porque o filme, assim como a vida, é uma sequência de arcos intercalados e simultâneos: Grandes ou pequenos, eles são muitas vezes apresentados a Mason Jr. (e o espectador, com isso) em segundo plano, e ganham destaque e maior relevância a cada ano passado. E isso se observa principalmente em coadjuvantes como o professor Bill Welbrock (Marco Perella), cujo casamento com Olivia (Patricia Arquette) e o problema com a bebida vão do auto-controle feliz ao desastre completo em questão de minutos no longa.
O grande destaque de Boyhood, porém, são os arcos desenvolvidos por Mason Jr. e sua família, construídos psicologicamente por Linklater com tanta eficácia. Sem nenhum alarde, o filme evidencia o perfil do protagonista e seus membros familiares mais próximos pelos pequenos atos e detalhes, como o carro que o pai Mason (Ethan Hawke) usa na grande maioria do longa, as desastrosas escolhas de marido feitas pela mãe Olivia após o primeiro casamento ou até o comportamento mais rebelde da irmã Samantha (Lorelei Linklater) quando criança. É destes minimalismos que o diretor guia o espectador na passagem do tempo e suas mudanças, e o faz aceitar com naturalidade as escolhas tomadas pelos personagens.
Mas a compreensão do caminho tomado é bem mais fortalecida no protagonista, interpretado com excelência por Ellar Coltrane. Sendo a pessoa que mais sofre alterações físicas e emocionais, a trilha percorrida por Mason Jr. é captada pela obra com sensibilidade suficiente para que o público se envolva com ele e sinta suas dores e vitórias conforme cresce. O acerto maior da produção, entretanto, é a capacidade de manter no personagem, da infância à juventude, o mesmo perfil doce e calmo, tornando-a uma constante em toda a metamorfose temporal realizada.
A maneira como o filme faz passar o tempo é outro ponto muito bem elaborado. Sem precisar pontuar de forma clara através de uma legenda ou coisa do gênero, Linklater torna perceptível a mudança de ano por meio da própria mudança física das pessoas que acompanha (o cabelo de Mason Jr., por exemplo) ou de diálogos, objetos e eventos bastante temporais, como músicas, videogames, lançamentos de livros e campanhas políticas - e inclui, em um clássico papo pai-e-filho, até uma não planejada ironia bem humorada com o futuro de Star Wars.
Com discussões sobre assuntos universais e uma narrativa leve e tocante, Boyhood - Da Infância à Juventude é uma experiência cinematográfica fascinante, capaz de discursar sobre o tempo e a humanidade com sensibilidade. Com uma história do cotidiano e sem nenhuma grande reviravolta, Linklater traz à tona uma obra-prima que aborda com delicadeza do tempo, um tema tratado tantas vezes com peso pelo cinema. E a prova maior do sucesso da produção é o próprio espectador, que termina o filme com a sensação de querer ver mais da vida de Mason Jr. e sua família.

Nota: 10/10