Han Solo - Uma História Star Wars

Leia a nossa crítica do mais novo derivado da saga!

Deadpool 2

Continuação tenta manter a subversão do original enquanto se rende às convenções hollywoodianas

Desejo de Matar

Eli Roth aterroriza ação do remake e não deixa os temas caírem na ingenuidade

Nos Cinemas #1

Nossos comentários sobre O Dia Depois, Submersão e Com Amor, Simon

Jogador N° 1

Spielberg faz seu comentário sobre o próprio legado em Hollywood sem esquecer do espetáculo no processo

Mostrando postagens com marcador Eric Heisserer. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Eric Heisserer. Mostrar todas as postagens

sábado, 26 de novembro de 2016

Crítica: A Chegada

Villeneuve aposta no emocional em ficção-científica intimista.

Por Pedro Strazza.

É muito por causa do gênero ao qual ambas as produções se inserem, mas é inevitável comparar A Chegada - o novo longa do canadense Denis Villeneuve - com o Interestelar de Christopher Nolan. Os dois filmes, afinal, são a primeira incursão pela ficção-científica de dois cineastas acostumados com a materialidade da realidade (Os Suspeitos, Incêndios, a trilogia O Cavaleiro das Trevas) e as tramas labirínticas dos dilemas psicológicos (O Homem Duplicado, A Origem), que usam tramas aparentemente complexas para disfarçar estruturas lúdicas bastante simples. Villeneuve e Nolan são diretores apreciados pelo público e a crítica por saberem transitar muito bem entre esferas de narrativa básicas e intrincadas, mas também coletam posições contrárias às suas obras por não mostrarem o mesmo talento na hora de trabalhar o lado emocional da coisa.

O curioso é que é justo na ficção-científica - gênero habituado a trabalhar as emoções humanas da forma mais racional possível - que os dois vejam seu cinema entrar em um ponto semelhante de crise. Pois o foco inesperado que ambos os diretores dão a uma trama sentimental e na maneira como eles optam por trabalhar seus temas a partir desta base, tanto em seus erros quanto em seus acertos, é a maior semelhança que os dois trabalhos compartilham.

Escrito por Eric Heisserer, o filme acompanha a chegada de doze espaçonaves alienígenas a diversos pontos da Terra e as reações de diversos governos e indivíduos frente a este evento extraordinário. A protagonista da história é a doutora Louise Banks (Amy Adams), linguista que é chamada pelos militares estadunidenses para junto do físico Ian Donnelly (Jeremy Renner) tentar decifrar a linguagem e se comunicar com os alienígenas que habitam o estranho casulo localizado na região central do país. Quanto mais eles demoram para quebrar o código, porém, mais tensas ficam as relações entre as nações sobre a questão.

Não convém aqui dissecar a estrutura do longa e o formato ao qual a narrativa aos poucos adquire porque a grande surpresa da obra está justo nestas, mas é válido dizer que como ficção-científica A Chegada é um bom drama intimista. O arco de luto ao qual a personagem de Adams é submetida é o maior ponto de interesse do diretor no filme, com o resto da produção dedicado a alimentar e avançar no desenvolvimento de suas angústias.

Essa afirmação, entretanto, soa quase paradoxal ao gênero, que prescinde os conflitos interiores do indivíduo não para torná-los ainda mais interiorizados, mas sim de extrapolá-los ao campo do dilema existencial coletivo. É aí que Villeneuve se aproxima de Nolan: assim como Interestelar, A Chegada tem em mãos uma trama de relações ao qual busca firmar na ficção-científica, mas não exatamente almeja usá-la a seu favor, relegando-a no processo à função de um mecanismo que movimenta a história. Se a odisseia espacial de Matthew McConaughey aproveitava o lado racional apenas para chegar a um propósito fantasioso que não compreendia o lado lógico (é bom recordar, toda a situação no buraco negro se apoia no sentimentalismo barato), a história de Banks flerta a todo instante com o cenário político e o mistério em cima dos alienígenas para no fim somente usá-los para mover a trama. À obra só interessa mesmo a parte interior, a emoção em seu estado mais primário.

É um viés que se percebe aos poucos no roteiro, mas que ocorre justo nos momentos onde o longa mais tem chances de decolar e não o faz. Cenas como do clímax ou do primeiro encontro de Banks e Donnelly com os extraterrestres - a narrativa vai em uma escalada para privilegiar essa situação e no fim a suprime sem grandes retornos, algo infelizmente repetido em todos os momentos de contato da dupla com os aliens - e elementos como discursos políticos e últimas palavras antes da morte - usados mais para alimentar alguma tensão ocasional - servem como reforço da dedicação exclusiva do filme com a situação emocional de sua protagonista, que nunca chega a ser extravasada ou contamina o ambiente ao seu redor.

E esse sentimentalismo, no fim, também é usado por Villeneuve como artifício. Pois A Chegada, afinal, também é mais um filme do diretor em que a trama é mero dispositivo lúdico e onde a reviravolta é a grande arma para arrebatar o espectador. Mas se em outros trabalhos essa estrutura tinha uma justificativa (mesmo Sicario conseguia encaixar isso em seus sets de suspense), aqui ela apenas esvazia a proposta da história e torna seu lado emocional mais brega - um fim curiosamente parecido com o da ficção-científica de Nolan.

Nota: 5/10

domingo, 21 de agosto de 2016

Crítica: Quando as Luzes se Apagam

Interessado em seu viés lúdico, terror perde força na repetição.

Por Pedro Strazza.

Quandos as Luzes se Apagam surge de uma proposta interessante: como no curta de 3 minutos que serviu de base para o projeto (e que você pode conferir aqui), o longa busca criar terror a partir do medo do escuro, uma sensação bastante comum na infância e que reflete no temor do ser humano pelo desconhecido. A alternância simples do interruptor entre luz e total escuridão é um dispositivo para trabalhar uma tensão existente dentro até de ambientes familiares (e claustrofóbicos) ao indivíduo, algo por si só um ponto de partida ideal para uma história disposta a trabalhar e exorcizar qualquer tipo de drama de relações íntimas pelo susto.

Não chega a ser supresa, então, que o roteiro de Eric Heisserer opte por uma crise familiar para fazer a transição do curta (regido apenas pelo mecanismo do gênero, muito por causa do tempo de duração) e também dar o pontapé inicial à trama, que aproveita para mudar alguns aspectos da criatura a ser enfrentada pelos personagens. Gerada pela morte do patriarca, essa crise foi responsável por afastar no passado a rebelde Rebecca (Teresa Palmer) do irmão Martin (Gabriel Bateman) e a mãe Sophie (Maria Bello) por causa dos surtos da última, e volta a aflorar quando o padrasto Paul (Billy Burke) morre de maneira misteriosa e um estranho ser começa a aterrorizar os três membros remanescentes. 

Daí em diante, Heisserer e o diretor David F. Sandberg (autor do curta) buscam estabelecer na narrativa diferentes dramas - um de relações abusivas, outro de abandono, um terceiro de depressão - que deem a sustentação necessária para seus propósitos lúdicos com o terror de ambiente, óbvio interesse maior da produção aqui. Essa opção pelo entretenimento mais puro talvez justifique a escancarada fragilidade temática da obra, conforme o conflito entre mãe e filha logo se revele presente somente para movimentar a trama de um espaço a outro e a relação de Sophie com a assombração, central aos eventos do filme, seja muito mal explicada em flashbacks dispersos e que trazem ainda mais dúvidas - sem contar os furos de roteiro ocasionais, como a assistência social que é chamada para atender um menino que dormiu na aula em (inacreditáveis!) três dias da semana. 

O que não faz sentido mesmo em Quando as Luzes se Apagam, entretanto, é como Sandberg parece ter dificuldades em lidar com o próprio suspense que esboça. Se no curta o diretor se beneficiava do tempo pequeno para empreender sustos constantes a partir de um único eixo, no longa essa vantagem se transforma em uma maldição imediatista, já que seus sets de horror não conseguem aproveitar os elementos introduzidos (os manequins, as lanternas escondidas, tudo soa como potencial não aproveitado) e recaem na repetição pura e simples. Os ambientes utilizados não se distinguem, e até o advento da luz negra e de velas no terceiro ato da trama não surte qualquer mudança no formato exaustivamente esgotado de "apagar e acender a luz" da narrativa. 

E sem a apresentação desses novos conceitos, tão necessários a qualquer produção do gênero nos dias de hoje, o terror do filme progressivamente se apaga, perdido em um meio termo de sustos previsíveis e a burocracia de temas que com certeza não está disposto a lidar.

Nota: 4/10