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segunda-feira, 14 de março de 2016

Review: House of Cards - 4° Temporada

Política americana, novela mexicana, fórmula reiniciada.

Por Pedro Strazza.

Conforme o tempo passa e novas temporadas se somam às já existentes, fica cada vez mais claro que House of Cards se tornou uma série incapaz de traçar novos caminhos para a jornada de seu protagonista. Afinal, após chegar ao topo da pirâmide do poder da nação mais poderosa do mundo em meras duas temporadas, o vilanesco e corrupto político Frank Underwood (Kevin Spacey) parece não assumir de fato o poder para si e exercê-lo ao bel prazer para se preocupar com a questão de como mantê-lo, e o seriado soa como se estivesse dando voltas em um círculo eterno.

Só isso para explicar as decisões tomadas pelo showrunner Beau Willimon (que inclusive está de saída do programa) e seu time de roteiristas nesta quarta temporada, que antes de mais nada trata de reiniciar a fórmula criada no distante primeiro ano em chave muito mais caricatural do que antes. Como bem diz o próprio presidente Underwood em dado momento destes novos treze episódios, a política deixou de ser teatro para se tornar em puro entretenimento, e a série trata de seguir tal lema pela repetição de raciocínios anteriores. Próximo passo natural na estrutura do seriado, a problematização do poder em seu exercício é mais uma vez ignorada, em prol do retorno da temática da busca por este, mais imediata, atraente e dessa vez literal graças às eleições presidenciais.

Isso fica bastante claro nesta temporada pelos próprios esforços dos roteiristas em substituir as peças originais do seriado e ao mesmo tempo manter aquecida as engrenagens que tornam House of Cards no programa querido pelos fãs. Das disputas políticas ao triângulo amoroso, passando pelo impacto das ações dos poderosos no indivíduo comum - dessa vez o jornalista Tom Hammerschimdt (Boris McGiver) -, todas as estruturas são mantidas de alguma forma, sem receber qualquer acréscimo que dure mais de três episódios. O que soa de diferente no quarto ano mesmo são as constantes resvaladas - mas nunca abordadas de forma concreta - da história em temas socialmente relevantes, como o preconceito racial, o machismo inerente da sociedade e a rivalidade entre a elite e o povo (materializada no trabalho de Ellen Burstyn como Elizabeth Hale, a mãe de Claire), e a própria Claire, que é promovida de fato ao posto de protagonista e aqui em destaque por ter o maior arco de personagem - apesar de no fundo ser apenas mais um de provação ao marido.

Mas como realizar tal tarefa e impedir que a trama esfrie numa estratégia tão sem sal? Para a série, vale a tática da reviravolta, ferramenta recorrente do formato e nestes treze episódios utilizada tantas vezes a ponto do programa lembrar a dinâmica de uma típica novela mexicana, ainda mais com a crise no casamento dos Underwood na primeira metade da temporada e os delírios que tomam Frank após sua hospitalização (e que nada funcionam para os intentos do seriado, visto a inegável disparidade com sua proposta "realista"). Tentativa de assassinato, golpe político, sequestro e consequente negociação... os plot-twists são variados e de diferentes tamanhos, prontos para acontecer com frequência vigorosa e manter o público interessado na sucessão exaustiva de eventos.

O que salva House of Cards do desastre que (por enquanto) se forma no horizonte, porém, não é a necessidade constante de uma nova guinada, mas a eficiência dos roteiristas nestas trocas de peças no tabuleiro político. Pois se personagens como o chefe de segurança Edward Meechum (Nathan Darrow) - que há tempos dá sinais de ser mero acúmulo narrativo - tem seu papel minimizado ou limado em definitivo, a trama ganha acréscimos tão funcionais como o escritor Thomas Yates (Paul Sparks), apresentado no terceiro ano e com maior espaço neste quarto, ou a consultora política Leann Harvey (Neve Campbell), que oferece uma gama maior de possibilidades ao futuro da série mesmo não sendo aproveitada no momento.

Neste campo de substituições pontuais, a mais simbólica de todas talvez esteja representada em Will Conway (Joel Kinnaman), jovem candidato republicano à presidência e maior antagonista dos Underwoods na metade final da temporada. Figura de reposição ao presidente russo Petrov (Lars Mikkelsen) - que mantém o posto de melhor coadjuvante por ser o único a tentar projetar o tema do programa para frente -, ele a esposa Hannah (Dominique McElligott) servem de contraponto interessante aos protagonistas, tanto em sua proposta de serem versões Millennials do casal, dispostos a documentar cada instante de suas vidas nas redes sociais e assim ganhar a tão cobiçada simpatia do povo, como na inversão de valores na comparação de perfil dos dois candidatos - Will servindo como um republicano aos moldes do democrata John F. Kennedy, Frank um democrata de feições e atos similares ao do republicano Nixon. Os melhores momentos desta temporada, respectivamente a "reunião" para decidir o que fazer com uma facção terrorista e o penúltimo episódio inteiro, só acontecem graças a suas presenças.

Mas por mais bem feito que sejam, essas trocas não escondem do espectador o caráter rotativo que tomou a série de sobressalto. Enquanto ruma para o que parece ser uma grande crítica à guerra ao terror de outros governos (principalmente ao do mandato Bush, responsável pela criação do termo), House of Cards parece decidida neste quarto ano a abandonar de vez a realidade fantasiosa e a crítica política calcada na atualidade para mergulhar de vez no novelesco, de maneira tão caricatural quanto a elasticidade e a maquiagem no rosto de Kevin Spacey e a assepsia de seus cenários permite. Se o seriado não sair da inércia temática logo, entretanto, tal decisão pode vir a ser bastante danosa a seus próprios caminhos.

Nota: 6/10

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Crítica: A Incrível História de Adaline

Juventude eterna e aborrecida.

Por Pedro Strazza.

A imortalidade e suas inevitáveis consequências são um tema bastante recorrente no cinema, principalmente quando o indivíduo envolvido é jovem. Dos arroubos poéticos do primeiro Highlander aos vampiros de questionamentos filosóficos como os de Amantes Eternos, o dom muitas vezes sobrenatural de não conseguir morrer se faz interessante pela gama de possibilidades que traz às suas histórias, sejam estas tramas melodramáticas, existenciais ou mesmo cômicas, como bem lembra o Feitiço do Tempo de Harold Ramis.
No caso de A Incrível História de Adaline, a opção é pelo primeiro caminho. Dirigido por Lee Toland Krieger, o filme conta a história de Adaline (Blake Lively), uma típica mãe dona-de-casa do início da década de XX que certo noite acaba sofrendo um acidente de carro e é atirada com o veículo para uma lagoa próxima. O que era pra ser uma trágica morte, porém, acaba por dar à moça de 29 anos a inexplicável condição de não conseguir mais envelhecer fisicamente, mantendo-a com a mesma aparência para sempre.
Daí em diante, o longa escrito por J. Mills Goodloe e Salvador Paskowitz opta por caminhos fáceis e usa das estruturas narrativas mais simples para estabelecê-la, o que chega a ser uma pena se considerarmos a rara posição na qual a protagonista se localiza. Presa no visual ao passado e incapaz de acompanhar os amigos e familiares, Adaline tem em mãos um problema denso de adequação ao mundo, mas ao primeiro sinal de perigo (representado pelo agente de autoridade mais óbvio e ao mesmo tempo mais incoerente possível, o FBI) ela opta por fugir de sua realidade e ganhar uma nova identidade - que, claro, não difere em nada da outra e só serve para seus fins mais rasos. Várias repetições desse processo depois, surge sem rodeios o interesse amoroso para chocar escapismo com coração, originando o conhecido conflito emocional dos filmes românticos.
A grande verdade é que o filme parece desaperceber o potencial da história que conta ou de sua personagem central, e essa situação piora quando se introduz o personagem interpretado por Harrison Ford, cuja complexidade relacional com Adaline é subaproveitada para fins simples. E isso não seria tão problemático se não fosse tão claro: Do triângulo formado entre Adaline, seu namorado e o papel do ator veterano se aproveita apenas o lado romântico, que busca unir dois personagens depois de uma tensão criada por um terceiro, e deixa-se para trás toda uma teia complexa e até edipiana às avessas de relações.
De resto, A Incrível História de Adaline funciona aos trancos e barrancos. De poucas atuações interessantes - Lively, coitada, tem todo o potencial da transformação gradual da protagonista reduzido aos cortes de cabelo - e com um final desenvolvido com pressa, o filme faz bem aquilo que busca, mas se perde por ter objetivos tão pequenos. Não à toa, a sensação que se dá é que a história seria muito mais intrigante se contada pelo lado de um coadjuvante, e não de sua protagonista.

Nota: 4/10