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domingo, 26 de fevereiro de 2017

Top 9: Oscar de Melhor Filme 2017

Por Pedro Strazza.

Pois é, o ano passou, filmes vieram e foram, o mundo mudou (bastante), a temporada de premiações passou voando e agora vai chegando a hora de mais uma entrega do Oscar. Mantendo a tradição dos últimos três anos, reorganizo os nove indicados ao prêmio de Melhor Filme em um ranking pessoal, indo do pior nomeado àquele que, se tivesse a oportunidade, colocaria no topo da minha cartela de votação. Também fiz uma lista com todos os indicados que assisti (dos 62, vi 52 antes da cerimônia), ao qual você pode conferir aqui.

Sobre a edição deste ano, admito que desta vez nenhum dos indicados ao prêmio de Melhor Filme foi para mim aquilo que muitos classificam como "O filme do ano", mas isso não quer dizer que a qualidade das nove produções lembradas pelos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas foi baixo. Tanto que, dos nove longa-metragens selecionados, pelo menos três eu considerei como ótimos e sete foram classificados aqui como bons trabalhos, restando a apenas dois indicados o que alguns consideram ser notas baixas.

O bom é que nenhum dos filmes foi um O Regresso, então está tudo bem (risos).

Enfim, vamos à lista. Antes, é bom lembrar que TODOS os nove indicados ao principal prêmio da noite ganharam críticas no site, às quais você pode conferir clicando em seus nomes abaixo.

Os indicados são:

9) Um Limite Entre Nós

Dentre os nove, o que eu achei o mais fraco de todos foi definitivamente a adaptação cinematográfica da peça de August Wilson pelas mãos de Denzel Washington. Adaptação que na verdade está mais para transposição: de tanto respeitar o ótimo material em mãos, Washington acabou por realizar um filme que tenta a todo custo se comportar como uma peça de teatro, algo que tem lá sua força mas também traz consequências irremediáveis à produção. Pelo menos o ótimo elenco mantém as coisas funcionando.

8) A Chegada

Gosto de Denis Villeneuve (seu Os Suspeitos inclusive marcou presença em um dos Melhores do Ano), mas seus últimos trabalhos tem me frustrado. Se Sicario acabou se revelando um filme desconjuntado em meio aos bons sets de ação que promove, este A Chegada almeja unir o lado alegórico da ficção-científica com o bom drama intimista de sua protagonista para no fim revelar o primeiro como um mecanismo submetido ao segundo. O longa vira então um exercício frustrado, cuja única grande força acaba por residir no trabalho de Amy Adams - que sequer chegou a ser a lembrada pela Academia, mesmo o filme ganhando inacreditáveis oito nomeações.

7) Estrelas Além do Tempo

Talvez a grande força de Estrelas Além do Tempo resida no fim na potência natural de sua história e no perfil de suas três protagonistas, mas é fato que Theodore Melfi foi competente o suficiente para executar o filme e sua mensagem. Separando a História dos Estados Unidos em duas, o longa consegue evidenciar muito bem a forma como o processo histórico do país funciona, fazendo o diagnóstico do racismo no país que já é típico de produções do gênero. Somado ao bom trabalho de seu elenco, isso me parece bastar.

6) Lion - Uma Jornada Para Casa

É o melodrama bem executado, ainda que a canção da Sia ali no fim quase estrague. Garth Davis é capaz de alinhar as duas partes de seu filme sem que algo se perca na transição, além de saber usar o ótimo elenco em mãos. Lion talvez me frustre um pouco por não perseguir o belo filme de espaços que tem em mãos, mas só de saber realizar o arroz e feijão sem pesar o sal ele já sai no saldo positivo comigo.

5) Moonlight - Sob a Luz do Luar

Bastante querido por muitos, Moonlight foi pra mim um filme que soube muito bem evidenciar o quão frágil a masculinidade (e sua formação) pode ser. Com elenco afiado, Barry Jenkins soube traduzir a jornada de Chiron em uma experiência intimista intrigante e nova, apesar de ali e aqui se render a figuras e elementos genéricos que prejudicam seu conto. De qualquer forma, é uma produção que se destaca.

4) Até o Último Homem

Apesar do tom inicial de Forrest Gump versão ridícula, o retorno de Mel Gibson a Hollywood se provou um filme dos mais intensos e curiosos da temporada. Reformulando o ideal patriótico dos Estados Unidos sob um ideal de fé cristã, o cineasta faz de Até o Último Homem uma obra de provações sem pesar o sofrimento (alô, A Paixão de Cristo...), conseguindo arrancar ótimas atuações de atores como Sam Worthington e Luke Bracey e fazendo da figura franzina de Andrew Garfield um herói de força descomunal. Alguns erros básicos, mas no geral ele é extremamente feliz na execução de sua proposta.

3) Manchester à Beira-Mar

Ficou com a medalha de bronze o drama de dor e sofrimento de Kenneth Lonergan, que com toques de humor negro e alta melancolia trata de uma história de arrependimento das mais pesadas. Guiando o ótimo elenco com perspicácia e com momentos que são verdadeiros socos no estômago (a cena do desmonte da personagem de Michelle Williams quase me leva junto nas lágrimas), Manchester à Beira-Mar é uma experiência das mais tristes e recompensadoras nestes termos, sabendo se valer muito bem da figura de "anjo da morte" que Casey Affleck parece incorporar com tanta tranquilidade.

2) La La Land - Cantando Estações

Item mais polêmico e grande favorito ao prêmio principal da noite, o musical de Damien Chazelle me foi uma experiência das mais fascinantes por conseguir reiniciar a crença no inalcançável sonho americano. Em tempos difíceis e de individualismo extremo, La La Land soube como poucos atualizar e manter acesa a esperança no sucesso e estrelato, algo que fica a cargo principalmente do magnífico trabalho de Emma Stone. Há quem chame o filme de ingênuo e uma "grande ameaça à credibilidade do Oscar" quando este precisa reafirmar sua posição no cenário, mas o longa está longe de ser um O Artista ou O Discurso do Rei para destruir a premiação em qualquer uma destas frentes.

Mas o melhor filme da categoria de Melhor Filme em 2017 é...

1) A Qualquer Custo

A América do ódio, do preconceito, da ganância e da vingança, tudo isso em plena atualidade. A missão de A Qualquer Custo parece ser muito fácil, mas com certeza não o é. Transpor o Velho Oeste para a realidade de hoje e reafirmar a validade de suas leis enquanto se presta a executar o gênero é um fruto valiosíssimo, gerado a partir de um roteiro afiado de Taylor Sheridan e a direção eficiente de David Mackenzie. Some isso a um trabalho de elenco formidável (Jeff Bridges, Ben Foster, Chris Pine e Gil Birmingham estão altamente sintonizados entre si) e temos um filme que é ao mesmo tempo um retrato exato do momento atual do país e também um faroeste para não botar defeito, por si só um verdadeiro espetáculo.

ESPECIAL: Oscar 2017

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Crítica: A Qualquer Custo

David Mackenzie materializa o "novo" Velho Oeste do egoísmo do roteirista Taylor Sheridan.

Por Pedro Strazza.

"Três tours para o Iraque, mas nenhum resgate para nós" diz uma pichação avistada em uma parede próxima do banco assaltado pelos irmãos Tanner (Ben Foster) e Toby Howard (Chris Pine) logo no primeiro plano de A Qualquer Custo. São palavras que nutrem forte contraste com o cenário à sua volta (aparentemente cotidiano e tranquilo, digno da realidade de qualquer subúrbio estadunidense), cujo significado já serve como um prenúncio rápido e claro do clima de reminiscências e insatisfação expresso nas entrelinhas no qual o novo longa do diretor David Mackenzie irá se estabelecer. 

Esta questão da maior presença do cenário, a bem da verdade, vem da parte de Taylor Sheridan, roteirista emerso em Hollywood com Sicario que repete aqui seu faroeste contemporâneo localizado nos Estados Unidos sulista e de inclinação à análise do país. O que muda é o enfoque: se no filme de Denis Villeneuve o texto era direcionado à questão da imigração e das disputas territoriais, em A Qualquer Custo Sheridan está mais interessado nas ramificações do pós-crise e das instabilidades políticas causadas pela época eleitoral, principalmente em sobre como estes dois elementos afetam o ambiente exposto.

O longa, afinal, gira em torno do dinheiro e do legado a ser deixado, algo que seus dois protagonistas perseguem por meio de seus crimes. Preocupado em pagar a hipoteca da fazenda onde mora antes que ela expire e seja devolvida ao banco e de deixar um futuro melhor para os dois filhos e a ex-esposa, Toby começa a assaltar bancos com a ajuda do irmão amalucado e ex-prisioneiro Tanner, visando cumprir um esquema complexo que visa dar o troco nos engravatados responsáveis pela dívida acumulada. O plano de Toby, porém, não necessariamente deixa ele e o irmão a salvo da polícia, que coloca os oficiais Marcus Hamilton (Jeff Bridges) - este em vias de se aposentar do cargo - e Alberto Parker (Gil Birmingham) no encalço dos dois.

O jogo de gato e rato logo formado entre as duas duplas - que só vão se encontrar só mais para o fim do filme - também se transforma em um veículo para Mackenzie e Sheridan construírem o cenário hostil que aos poucos se impõe ao redor dos personagens. Uma hostilidade formada pelo egoísmo antes de tudo: da garçonete que se irrita com os policiais por ter a gorda gorjeta tirada de suas mãos à grossa dona do restaurante que só serve um tipo de refeição (um dos momentos mais divertidos do longa, vale dizer), passando pela ex-esposa de Toby e os racismos e impropérios ditos por Marcus a seu colega descendente de indígenas, o roteiro não se resguarda na hora de mostrar ao espectador um Estados Unidos movido pelo ódio e o interesse privado, dominado por relações movidas à base do dinheiro (as terras da contemporaneidade) e dos laços familiares.

A violência então torna-se mais uma vez no único meio de diálogo possível dentro do roteiro de Sheridan, mas diferente de Villeneuve - que preferia manter o peso deste ato presente em toda narrativa - Mackenzie trata tais relações com alguma dose de humor sem tirar a seriedade da situação. A ação, por exemplo, sempre se manifesta com um sarcasmo meio implícito, seja pelas medidas pouco ortodoxas dos envolvidos (a inabilidade dos irmãos para lidar com alguns movimentos do assalto, a cena de Tanner atirando com uma metralhadora nos caipiras que o perseguem ou de Toby espancando o motorista privilegiado no posto de gasolina), ao passo que as ótimas atuações de Foster e Bridges parecem focadas em dar à produção uma atitude sarcástica de quem conhece as hipocrisias dos cenários que habitam.

É uma medida que o diretor impõe para acentuar ainda mais a postura auto-consciente da produção, que como grande parte dos faroestes contemporâneos busca ao máximo evidenciar seu próprio processo de construção do "novo Velho Oeste". O que dá o diferencial a A Qualquer Custo é ele conseguir carregar esta percepção de posição sem excluir a execução do gênero pura ao qual se submete Sheridan, roteirista que neste início de carreira demonstra querer cada vez mais materializar nas telas a permanência desta relação intrínseca entre Estados Unidos e faroeste no mundo de hoje. Mackenzie sabe muito bem destas intenções do texto, e conforme seus personagens rumam ao inevitável enfrentamento final resta a ele apenas ressaltar a mudança histórica dos elementos desta equação e validar a própria em seu peso e atuação sobre o cenário e os personagens - e os campos de trigo que surgem em destaque no fim não poderiam ser mais claros neste propósito.

Nota: 9/10