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sábado, 20 de junho de 2015

Crítica: Lava

Curta erra a mão no sentimentalismo e soa piegas.

Por Pedro Strazza.

Chega a ser curioso que a Pixar alcance tanto o auge quanto o fundo do poço em uma mesma projeção de Divertida Mente. Enquanto o longa-metragem de Pete Docter brilha com suas ideias criativas dentro da consciência de uma criança, o curta Lava, que antecede a exibição do filme, se perde em meio ao show água com açúcar que propõe e entrega uma das piores experiências propostas pelo estúdio em seus quase 30 anos de existência.
Dirigido pelo estreante James Ford Murphy, o filme conta a história de Uku (Kuana Torres Kahele), um vulcão havaiano que vive solitário em uma ilha onde todos os casais animais se encontram para se apaixonar. Apesar de levar uma vida tranquila e ficar feliz de servir para um propósito tão bonito, Uku se sente triste em nunca encontrar um par para si. Mas tudo muda quando uma "vulcoa" chamada Lele (Napua Greig) começa a nascer no fundo do oceano.
Contado em milhares de anos, Lava soa do começo ao fim piegas. A canção que dá título ao curta e entoada pelos dois personagens é genérica a ponto de em muitos momentos lembrar a versão em ukelele de "Somewhere Over the Rainbow", arrancando do instrumento havaiano todo e qualquer tipo de sentimentalismo barato. Para piorar, o conto não traz nada muito criativo, pois se restringe a emular clichês do gênero para dar tom à concepção fofinha da produção.
Embora seja bastante parecido em objetivo e execução a O Guarda-Chuva Azul, curta que antecedeu as exibições de Universidade Monstros, Lava se sai muito pior à história de amor entre guarda-chuvas por querer criar algo dez vezes mais meloso. A Pixar já provou que sabe contar histórias sobre quaisquer tipos de objetos e seres, mas aqui demonstra que nem tudo pode se tornar interessante em suas mãos.

Nota: 3/10

Crítica: Divertida Mente

Imaginário torna-se realidade em novo filme da Pixar.

Por Pedro Strazza.

Assim como em todas as outras as artes, o cinema é feito de simbolismos. Em suas histórias, sejam estas as mais rasas ou as mais complexas, sempre se traz disfarçado por meio de situações e personagens uma carga interior, uma mensagem que os responsáveis pela obra cinematográfica buscam passar para seu público. É um processo que na maioria das vezes é realizado de maneira silenciosa, sendo desenvolvido no plano subjetivo para tornar esse processo de compreensão muito mais fácil e acessível para qualquer espectador.

No caso da Pixar, porém, o procedimento se faz ao contrário. A maioria dos contos infantis do estúdio (e de seus vários cineastas, em consequência) se fazem de uma simbologia física e propositalmente escancarada, sem medo de soarem fáceis por saberem que a representação não precisa se limitar ao abstrato para alcançar seus objetivos. Caso máximo dessa tendência adotada pela empresa é Divertida Mente, filme que leva ao limite do imaginável essa relação objeto-representação.

Porque se até então os filmes do estúdio haviam empregado ratos para representar a marginalização do indivíduo ou robôs para provar o prejudicial isolamento populacional, aqui o diretor e roteirista Pete Docter (responsável também por Up - Altas Aventuras e Monstros S.A.) se usa de uma efígie muito mais próxima do ser humano para abordar uma temática diretamente implícita a ela: seus sentimentos. Protagonistas do longa, as emoções da garota Riley (Kaitlyn Dias) são retratadas desde o início do longa como figuras reais, habitantes da consciência da menina de 11 anos com gostos, sonhos e objetivos pessoais - todos, claro, relacionados em prol da menina.

Dessa maneira, o espectador é com velocidade introduzido a dois planos de trama em Divertida Mente. No primeiro, ele acompanha o cotidiano de Riley, cuja rotina é virada de cabeça para baixo quando seus pais (Diane Lane e Kyle MacLachlan) se mudam com ela do estado de Minnesota para a cidade de São Francisco; no segundo, o das emoções da garota, que liderados por Alegria (Amy Poehler) controlam suas reações ao mundo em uma sala de controle visando o melhor para ela e precisam agora auxiliar a garota nesse processo de adaptação. Mas quando Tristeza (Phyllis Smith) e a própria Alegria acabam fora da central após uma sucessão incomum de eventos, torna-se vital que as duas voltem para seus lugares antes que a menina cometa um erro sem volta sob o controle de Raiva (Lewis Black), Nojinho (Mindy Kaling) e Medo (Bill Hader).

Adotando do princípio essa estrutura narrativa, o longa passa então a construir a personagem de Riley, que passa por um arco universal a todos os seres humanos. A aceitação da mudança, transfigurada na trama em seu formato mais literal possível, é também usado por Docter em conjunto dos roteiristas Meg LeFauve e Josh Cooley como metáfora da própria passagem do tempo e da entrada na puberdade, sendo realizados com transparência ao longo da história e sem maiores complexidades.

O caráter simples de tal ritual, porém, torna-se intricado quando se é abordado pelo ponto de vista da consciência de Riley, e é aí que o filme encontra sua genialidade. Antropomorfizadas, os sentimentos protagonizam crises e situações que de forma direta ou indireta circulam sobre o momento vivido pela menina, e com isso se transformam em figuras complexas fascinantes. Principalmente Alegria e Tristeza, personagens centrais que trazem em sua relação um profundo drama de aceitação (seja a do próximo ou a de si mesmo) que encontra perfeita sincronia com o tema do longa e das próprias produções da Pixar - para efeitos imediatos de comparação, um momento similar pode ser encontrado no flashback trágico vivido por Jessie em Toy Story 2.

E enquanto tudo isso se desenrola, o filme ainda encontra espaço suficiente para criar um universo extremamente criativo e colorido para povoar a mente de uma criança. Levando ao pé da letra conceitos da psicologia (a localização do subconsciente é um de meus preferidos), Divertida Mente concebe representações físicas para explicar diversos traços da cabeça do ser humano, e vai de concepções racionais a irracionais em um passo. Amigos imaginários, lembranças, sonhos... nada escapa aos olhos da produção, que ainda dá toques de humor em sua abordagem.

É justo nesta mistura que Divertida Mente se faz de fato. Dramático e cômico, simples e ao mesmo tempo complexo, o 15° longa-metragem da Pixar é uma confluência de ideias bem executadas e que conversam muito com as outras produções do estúdio, e juntas do tempero emocional certo fazem desta uma obra única. E que grande ironia, toda esta grandiosidade acontece na cabeça de uma menina de 11 anos de idade.

Nota: 10/10

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Crítica: Jurassic World - O Mundo dos Dinossauros

Reinício da franquia refaz os passos do original em tom de homenagem.

Por Pedro Strazza.

É preciso conhecer um pouco da história que se passa por trás da trama Jurassic Park e de suas duas primeiras sequências antes de buscar entender os erros e acertos de Jurassic World - O Mundo dos Dinossauros. Não apenas querendo traçar verossimilhanças com o filme de 1993 para reintroduzir a franquia às novas gerações, o quarto capítulo da série sobre dinossauros aposta na repetição da estrutura simbológica do consagrado longa baseado na obra de Michael Crichton, pois acredita que este é o único caminho possível para realizar os mesmos feitos do original.
Suas crenças não são infundadas. Ainda que seu sucesso imediato seja fruto de uma combinação de fatores, Jurassic Park marcou sua época por trazer em seu cerne uma discussão muito bem trabalhada sobre os riscos do avanço da humanidade, travestido na história sob a forma de um conto de deslumbramento com o horror. O retorno dos dinossauros ao planeta pelas mãos da ciência e seu uso para fins mesquinhos, afinal, trazem no fundo uma identificação natural com as descobertas da humanidade, e o posterior descontrole do parque para as forças naturais solidifica o teor da mensagem passada por Spielberg no filme - coisa que as duas continuações seguintes infelizmente não conseguiram levar adiante por estarem muito mais interessadas em dar prosseguimento à trama com ênfase no destino de seus personagens.
Consciente disso, Jurassic World segue pelo caminho mais óbvio: aproveitar de seu caráter de recomeço da série e traçar os mesmo caminhos do original. Estão lá os personagens símbolo e marcados pelo estereótipo, as reviravoltas de cunho de terror, a formação da família em meio ao caos... o longa dirigido por Colin Trevorrow - alguém que já provou saber fazer bem o arroz-feijão de gênero no fraco Sem Segurança Nenhuma - guia-se bastante na adaptação do livro de Crichton, e aqui e ali atualiza alguns de seus elementos mais temporais e insere mudanças com resultados distintos.
Na trama, o parque dos dinossauros finalmente foi aberto ao público e garantiu sucesso absoluto em seus primeiros anos de funcionamento. Atrás de novas maneiras de aumentar a renda e o interesse dos pagantes (agora muito mais acostumados com a presença dos animais), a equipe de pesquisa liderada pela administradora do parque Claire (Bryce Dallas Howard) e o doutor Henry Wu (B.D. Wong) criam o Indominus rex, primeiro dinossauro que é fruto da combinação genética de várias criaturas jurássicas. Mas o ser escapa de seu cativeiro, e começa a criar um rastro de destruição e morte por onde passa na ilha.
É logo nesse prenúncio que se percebe a principal adição feita por Trevorrow à franquia. Agora, além de servirem como símbolo das forças naturais, os dinossauros também são representação do próprio ser humano na figura do grande e letal antagonista, que por onde passa só gera a matança e a perturbação na ordem natural das coisas. A alegoria é básica, mas funciona no roteiro escrito a quatro mãos, que consegue conduzir seu crescimento até um explosivo e extremamente satisfatório clímax no terceiro ato.
Mas se nas atrações há novidades, nos humanos as regras do primeiro longa prevalecem. Culpa em parte da própria estratégia de repetição, Jurassic World não se arrisca em trazer novos temas em seus personagens, que se bastam em refazer as discussões do filme de 93 e cumprir seus papéis representativos, seja este o do olhar infantil sobre a criação ou do poder destrutivo da cobiça. As únicas mudanças que o diretor faz aqui são circunstanciais, como denotar mais a quebra da família nos tempos modernos (os pais das crianças estão se separando), dar força masculinizante de liderança ao teorista do caos - o Owen Grady de Chris Pratt é no fundo uma repetição do Ian Malcolm de Jeff Goldblum - ou mudar o gênero do personagem em fuga de seu relógio biológico - algo que se com um homem passava pouco desapercebido, com uma mulher definitivamente emite um machismo involuntário.
De resto, Jurassic World é um filme bastante reverencialista, inserindo desde a fotografia aos cenários os mais variados tipos referências à franquia e seus elementos mais marcantes - Pessoalmente, o que mais interessou foi a presença do livro de Malcolm na mesa do personagem de Jake Johnson. Uma atitude honesta, vale dizer, já que estar consciente da importância do original e respeitar suas fundações é um bom começo para quem busca o reinício da franquia como uma criança em visita às ruínas de um parque abandonado pelo tempo.

Nota: 8/10

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Crítica: A Espiã que Sabia de Menos

Filme questiona machismo sem esquecer de divertir.

Por Pedro Strazza.

O humor funciona muito bem como elemento questionador de valores presentes nas histórias mais tradicionais, e os filmes de espionagem parecem ter voltado com tudo à pauta deste processo de desconstrução. Depois de Kingsman realizar sua homenagem paródica aos clássicos, é a vez de Paul Feig empregar a sua filosofia do "girl power da chacota" para demolir de vez em A Espiã que Sabia de Menos os pilares que sustentam o mundo dos espiões cinematográficos.

Mas enquanto o longa de Matthew Vaughn se basta em reverenciar com um sorriso o espião do passado, Feig não demonstra o mesmo respeito e vai na jugular do machismo inerente a essas histórias, característica presente no subgênero desde sua gênese. Nas aventuras vividas por James Bond e outros agentes secretos, afinal, há uma glorificação quase exagerada da figura masculina e uma consequente depreciação da feminina, relegada quase sempre à posição de bela secretária ou interesse amoroso superficial.

Assim, não chega a ser surpresa que A Espiã que Sabia de Menos apresente como protagonista uma antítese desse perfil, a pouco atraente e invisível Susan Cooper (Melissa McCarthy). Agente da CIA que trabalha atrás das mesas, ela cumpre sua função de "olhos e ouvidos" do galante e bem sucedido espião Bradley Fine (Jude Law) quase de maneira submissa, auxiliando-o em suas missões e resolvendo seus problemas domésticos sem pedir nada em troca. Mas quando Fine é morto na tentativa de resgate de uma ogiva nuclear e nenhum agente de campo pode cumprir a tarefa, é Cooper que assume o trabalho e sai de sua condição de inexistência para salvar o dia, tendo que enfrentar na mesma medida perigosos criminosos e a resistência de seus colegas.

É justamente desse choque com o sistema que o filme tira o humor da produção. Dos combates e perseguições às humilhações vividas por Susan, o longa usa do arco de crescimento vivido pela personagem para debochar das presunções do subgênero e da própria sociedade, retratando como imbecis rasos os agentes idealizados - papéis de Law e Jason Statham, este último acertadamente caricato para compor seu herói das lendas nunca vistas - e passando o protagonismo verdadeiro às mulheres. E essa mudança de papéis não é feita sem o prazer da descoberta, como bem indica as sucessivas surpresas do tipo "Uau, eu também posso fazer isso?" que as personagens femininas de McCarthy, Mirand Hart e Rose Byrne descobrem ao longo da história.

A comédia que o diretor e roteirista propõe fazer, porém, encontra problemas na própria escatologia. Ainda que esteja controlado, o humor gráfico de Feig ainda não encaixa como deveria na sua proposta, e soa por vezes artificial na sua execução - especialmente nos combates, onde surge para encerrar a cena apenas para dar maior ênfase cômica às situações apresentadas.

Nos dois primeiros trabalhos de sua parceria (Missão Madrinha de Casamento e As Bem Armadas), Feig e McCarthy ainda não entendiam muito bem como alinhar a sua história de viés feminista com a comédia por equivocadamente acreditar que o humor de tipos - o gordo é engraçado pela sua fisiologia, a mulher solteira é ranzinza, etc. - seria o caminho certo. Em A Espiã que Sabia de Menos, a dupla parece ter achado um rumo mais certo, pois encontra no subgênero ao qual ri tão descaradamente um material mais amplo e espaçoso para trabalhar sua questionadora inversão de gêneros, sem esquecer de entregar um bom entretenimento no processo.

Nota: 7/10

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Não Perda!: Maio/2015

Homens detestáveis, ganhadores de festivais curiosos e peixes fora d'água na praça.

Por Pedro Strazza.

O mês acabou, e está na hora de ver aqueles lançamentos legais que ninguém viu porque "Não deu tempo..." ou "Não quis arriscar minha grana suada com isso!"... mas deveria ter visto. No Não Perda! de maio de 2015, também conhecido como "O mês que nos fez amar Mad Max - Estrada da Fúria", temos:

  • Cala a Boca Philip

Acompanhar personagens detestáveis em filmes não é uma tarefa fácil, mas pode trazer recompensas extremamente prazerosas, e este Cala a Boca Philip se faz como prova contundente desta afirmação. O novo longa do diretor Alex Ross Perry, ainda um cineasta a ser descoberto, trabalha com a figura detestável de Philip, um escritor que nas vésperas de publicação de seu segundo livro resolve realizar algumas mudanças em sua vida. Mas os efeitos dessas decisões, assim como a própria trajetória do protagonista na história, não são exploradas na maioria do tempo pelo seu ponto de vista e sim pelo das pessoas que o cercam, abrindo espaço para que Ross Perry trabalhe o egoísmo de nossas relações com maiores possibilidades.  

Filme de Segunda Guerra Mundial brasileiro, A Estrada 47 é um filme que encanta por dois caminhos. No primeiro, temos a inevitável recriação histórica, que apresenta ao espectador a participação brasileira no conflito armado; no segundo, mérito do diretor Vicente Ferraz, é o questionamento da entrada do país em uma guerra que não lhe diz nome, ressaltando a própria incoerência dos pracinhas em um território tão distinto. Existe uma previsibilidade em meio a isso, mas nada que prejudique a força de uma produção tão bem cuidada.

  • Últimas Conversas

Eduardo Coutinho foi um dos maiores documentaristas da História do cinema brasileiro, e estava trabalhando em um novo filme quando faleceu no início de 2014. A obra inacabada, lançada pouco mais de um ano depois de sua morte, é uma série de entrevistas feitas com jovens estudantes cariocas de classe C e D, que entre outras coisa contam a Coutinho suas duras histórias de vida, seus maiores medos e sonhos. É um choque duro de realidade que Últimas Conversas proporciona a seu espectador, e serve como mais um atestado da genialidade de um homem que partiu de maneira tão abrupta.

Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2014, o novo filme do sueco Roy Andersson continua a desenvolver o peculiar método de humor de seu cineasta. Questões existencialistas se delineiam na sucessão de esquetes apresentados, que filmados de maneira quase teatral pelo diretor apresentam situações inusitadas e divertidas por essência. É um filme que nos faz pensar, mesmo que do jeito menos normal o possível.

Se Andersson reflete rindo, o turco Nuri Bilge Ceylan o faz de maneira mais tradicional. Com longas e arrastadas três horas de duração, o vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2014 é uma análise de um personagem pouco amável, um depressivo dono de um hotel localizado na fria Anatólia. No inverno rigoroso, ele enfrenta algumas situações difíceis, que vão dos negócios ao próprio casamento infeliz. E nos longos diálogos travados para salvar sua situação atual, ele submete o espectador a uma dura noção de uma realidade complicada que a humanidade, seja nas regiões mais inóspitas do mundo, é obrigado a encarar.

Não Perda Também!: Fevereiro - Março - Abril

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Crítica: Trocando os Pés

Conto fantástico fracassa sobre indecisão entre comédia e drama.

Por Pedro Strazza.

Mesmo que tenha sido vendido desde o início como mais uma das comédias indies que Adam Sandler protagoniza ora ou outra, Trocando os Pés acaba por se assemelhar mais com um trabalho típico da Happy Madison Productions do ator. O humor raso e pouco eficaz de tais produções certamente está ausente no longa escrito e dirigido por Thomas McCarthy, mas de resto tudo soa a comédias como Um Faz de Conta que Acontece ou Click.
Na trama, Sandler vive Max, dono de uma pequena sapataria em Nova York que está insatisfeito com a vida que leva. Obrigado a assumir o negócio da família desde jovem por causa do desaparecimento do pai (ele é a quarta geração, lembra em conversas), o sapateiro diariamente precisa lidar com os calçados e desaforos de outros para cuidar de sua mãe doente (Lynn Cohen) e manter de pé o estabelecimento. Um dia, porém, Max descobre no porão uma máquina de costura que dá aos sapatos remendados por ela a capacidade de assumir a identidade do dono por quem calçá-los, e começa a usar em seu favor o poder mágico que tem em mãos.
A base de realismo fantástico tem potencial, mas não chega a ser alcançada de fato em nenhum ponto do filme. Isso porque Trocando os Pés várias vezes mostra indecisão entre qual caminho narrativo seguir, e por fim segue por nenhum: Enquanto o drama cotidiano encarado pelo protagonista e aqueles que o cercam ganha aprofundamentos em questões mais imediatas (o último desejo, a derrota dos malvados) e nunca chega a grandes questionamentos, o lado mais cômico se mostra contido como a atuação de Sandler, ganhando destaque somente nas transformações de caráter vivida pelas pessoas que Max se passa por - mérito talvez exclusivo da atuação de Method Man, único que tem a chance de mostrar os dois perfis na película.
Para piorar, há na produção a questão do moralismo, tema que persegue Sandler mesmo em seus trabalhos mais "autorais" e cujo peso interfere demais na fluidez da narrativa estabelecida por McCarthy. Embora seja um filme sobre aceitar o papel imposto pela sociedade, contribuir com a sociedade e viver da melhor maneira possível com as condições apresentadas, o longa se delonga demais no tema por meio dos coadjuvantes, insistindo em se repetir por personagens como Jimmy (Steve Buscemi) e Carmen (Melonie Diaz). Tal estratégia faz a história ser contada num ritmo arrastado, prejudicial ao conto fantástico ao qual se propõe a realizar.
E se não fosse o bastante toda a estrutura frágil elaborada, esta ainda se fragmenta no péssimo terceiro ato, que abandona a lógica desenvolvida para trazer personagens e situações inadequadas por completo à trama do filme. Assim, o real fantástico torna-se irreal para o espectador quando este é obrigado a assistir um arco de redenção mal elaborado e recheado de vigilantismo, feito à base de revelações e reviravoltas sem sentido como a real identidade de certos personagens, golpes muito mal explicados e até uma sociedade secreta presente desde o início dos tempos - mas não do filme.
Com alguns bons momentos aqui e ali para tentar compensar todos os erros cometidos, Trocando os Pés é um desperdício de uma boa ideia por infelizmente não saber o que fazer com esta. Sua execução, entretanto, não é péssima o suficiente para despertar o ódio do público, mas tão pouco é razoável para tornar sua experiência minimamente interessante, tornando sua passagem nula para quem quer que opte por vê-lo.

Nota: 4/10

domingo, 31 de maio de 2015

Crítica: Terremoto - A Falha de San Andreas

Filme de desastre espetaculariza desastre, mas ignora problemas vitais.

Por Pedro Strazza.

Logo na introdução, Terremoto - A Falha de San Andreas já mostra a que veio com uma cena ao mesmo tempo peculiar e típica de resgate. Na situação, temos uma jovem presa dentro de seu carro, que se encontra instável na beira de um penhasco após ela cometer o pecado mortal de dirigir olhando o celular; uma equipe de socorro composta basicamente por homens musculosos e movidos à testosterona, prontos para acudir a garota; e uma equipe de jornal, que documenta os esforços e sacrifícios heroicos do time para salvar a vítima de seu fim precoce prontos para eternizá-los.
Como bem exemplifica a descrição acima, os clichês e lugares comuns do subgênero reinam no filme de desastre dirigido por Brad Peyton. Da família em crise que se reúne graças às forças da natureza ao "dramático" momento de morre-não-morre no fim do clímax, a história do longa se guia pelos caminhos mais óbvios possíveis sem no mínimo se preocupar em esconder isso. Não há aqui um drama que você já não tenha visto pelo menos outras três vezes na telona, e com menos de cinco minutos já se consegue prever aonde tudo aquilo vai.
E isso seria um problema gravíssimo se não fosse feito de maneira tão divertida pelo roteirista Carlton Cuse, que assume as trivialidades da trama para compor um filme honesto de entretenimento raso.
Para tal, Cuse facilita todas as dramas de sua história para reforçar o lado mais espetáculo do desastre que dá nome ao longa. Assim, enquanto prédios desabam como dominós e a terra racha e cria abismos gigantescos para matar milhões de figurantes aos quais vemos uma ou duas vezes em destaque, a família formada pelos personagens interpretados por Dwayne Johnson, Carla Gugino e Alexandra Daddario lutam para se reunir em meio ao caos, reformando uma instituição familiar que apesar de estar em crise não encontra tanto obstáculos para voltar a funcionar - os maiores opositores, o novo interesse romântico da esposa (papel de Ioan Gruffudd, no caso) e os erros do passado, são resolvidos antes de chegarmos à metade da trama.
O mérito maior do texto de Cuse, porém, é o de conseguir conceber situações criativas para seus personagens sobreviverem ao terremoto, e levá-los a estas com naturalidade. Seja nas manobras de um helicóptero para fugir de edifícios que desabam ou no "afogamento" progressivo de um prédio em construção, Terremoto sabe brincar bem com os efeitos da devastação que oferece ao fazê-lo um playground de destruição. E se ficamos confusos com a maneira como os personagens escapam da morte nestas ou na forma que chegam a elas, o filme se prontifica com explicações mínimas como "Meu guia tem tudo que a gente precisa", "Eu aprendi isso com meu pai" ou no núcleo liderado pelo especialista vivido por Paul Giamatti e a jornalista de Archie Panjabi.
Mas se nessa execução de gênero o longa se sai bem, de resto as rachaduras são evidentes. Muito em parte do próprio acúmulo dos clichês citados anteriormente, mas também do trabalho de Peyton na direção, que além de não saber trabalhar a claustrofobia dos ambientes (a cena da garagem é confusa do início ao fim) não tem habilidade suficiente para disfarçar os absurdos cometidos por Cuse em sua espetacularização do desastre - e aqui é impossível não citar o fato do personagem de Johnson ser um homicida tão grande quanto o Superman de O Homem de Aço ao abandonar o trabalho no momento mais vital somente para salvar sua família - e inclusão de simbologias desastrosas como a gigantesca bandeira estadunidense no fim da produção. Para piorar, Peyton se prova ineficaz em tirar da ação criada mais que o padrão, se bastando em fazer no segundo ato um inesperado porém pouco interessante falso plano-sequência.
Dessa maneira, Terremoto - A Falha de San Andreas entra em um desequilíbrio estável. Se cumpre bem com aquilo que se propõe a fazer, é inegável suas falhas no resto, acumuladas por defeitos abraçados desde o início. Alguns julgarão ser insuficiente; para outros, bastará as bases à beira do colapso e o heroísmo canastrão do núcleo principal.

Nota: 6/10

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Crítica: Crimes Ocultos

Thriller de época soa tão falso quanto o seu inglês de sotaque russo.

Por Pedro Strazza.

Embora seja vendido como uma história de mistério travestida de filme de época, Crimes Ocultos mostra desde o início uma propensão maior ao novelesco. Baseado no primeiro de uma série de livros policiais escritos por Tom Rob Smith, o longa dirigido por Daniel Espinosa usa muito de sua trama de investigação como mote, mas em muitos momentos parece querer deixar o gênero para trabalhar os dramas vividos por seus personagens enquanto estes se dedicam a solucionar o enigma que tem em mãos. E isso não seria uma má ideia se não fosse tão mal executada.
Estamos na União Soviética do pós-Segunda Guerra, uma nação que busca viver em uma espécie de utopia mesmo esta não existindo - "Não há assassinos no paraíso", repetem os oficiais do governo como um mantra a ser seguido às cegas, e ai de quem for de encontro a esta ordem. Neste contexto, o respeitado agente da MGB Leo Demidov (Tom Hardy) encontra sua desolação ao questionar a sanidade do sistema e investigar a fundo o caso do assassinato do filho de um de seus colegas, e como consequência acaba rebaixado sem honras na hierarquia militar soviética e transferido para uma cidade pequena do interior do país. Esse choque com a moral de sua nação o faz entrar em uma espiral descendente, e o força a revisitar o passado funesto que tanto renega.
Há nesta história toda uma lógica que no papel parece ser bastante profunda, mas na realidade prova ser o contrário. O roteiro escrito por Richard Price parte de muitos pressupostos para construir seus personagens, e assume maniqueísmos que desde o início provam ser infundados, como o de o sistema ser ruim por naturalmente ser ruim, e logo todos os subordinados a ele serem pessoas más - algo que de imediato esvazia dos antagonistas qualquer significado maior. O pior, porém, é que Crimes Ocultos busca tirar disso um desenvolvimento maior e moralista, e sem uma base sólida sua argumentação colapsa de maneira vergonhosa.
Um exemplo claro desse vazio pretensioso são os próprios personagens, elaborados sem inspiração e com o maior número de clichês possíveis, incluindo aí os próprios protagonistas. Ainda que soem complexos e cheios de facetas, Demidov e sua esposa Raisa (Noomi Rapace) são figuras caricaturais de personas típicas do suspense, e os conflitos e diálogos que realizam entre si chegam ao cúmulo da previsibilidade - "Você é um monstro", profere ela ao marido em determinada altura da trama, realçando algo que estava claro desde o princípio. O direcionamento do próprio Demidov, de certa forma, passa por esse mesmo crivo de obviedades: É a jornada de descoberta do próprio mal, feita da maneira mais enfadonha possível.
E se nos principais a condição é enferma, nos coadjuvantes o quadro se acentua. Enquanto o sargento interpretado por Gary Oldman se restringe ao papel de falsa autoridade moral e em crise, o oficial Vasili de Joel Kinnaman é atribuído à figura de vilão apenas por ser o representante imediato da corrupção do sistema, e suas motivações param nessa simbologia básica. E para o longa, basta uma explicação das mais rasas (a responsabilidade da bandeira, esse símbolo máximo do nacionalismo exacerbado) para o porquê de seus sucessivos embates com o protagonista.
O que resta então a Crimes Ocultos? Em casos como esse, o melhor a se fazer é se deixar levar pela proposta maniqueísta e se prender ao mistério que conduz a trama, torcendo para que as propostas de vigilantismo e justiça com as próprias mãos façam um mínimo de sentido. Uma pena que, nesse caso específico, essa redenção superficial não chegue a tempo de entregar essa pequena recompensa.

Nota: 3/10