Han Solo - Uma História Star Wars

Leia a nossa crítica do mais novo derivado da saga!

Deadpool 2

Continuação tenta manter a subversão do original enquanto se rende às convenções hollywoodianas

Desejo de Matar

Eli Roth aterroriza ação do remake e não deixa os temas caírem na ingenuidade

Nos Cinemas #1

Nossos comentários sobre O Dia Depois, Submersão e Com Amor, Simon

Jogador N° 1

Spielberg faz seu comentário sobre o próprio legado em Hollywood sem esquecer do espetáculo no processo

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Crítica: A Espiã que Sabia de Menos

Filme questiona machismo sem esquecer de divertir.

Por Pedro Strazza.

O humor funciona muito bem como elemento questionador de valores presentes nas histórias mais tradicionais, e os filmes de espionagem parecem ter voltado com tudo à pauta deste processo de desconstrução. Depois de Kingsman realizar sua homenagem paródica aos clássicos, é a vez de Paul Feig empregar a sua filosofia do "girl power da chacota" para demolir de vez em A Espiã que Sabia de Menos os pilares que sustentam o mundo dos espiões cinematográficos.

Mas enquanto o longa de Matthew Vaughn se basta em reverenciar com um sorriso o espião do passado, Feig não demonstra o mesmo respeito e vai na jugular do machismo inerente a essas histórias, característica presente no subgênero desde sua gênese. Nas aventuras vividas por James Bond e outros agentes secretos, afinal, há uma glorificação quase exagerada da figura masculina e uma consequente depreciação da feminina, relegada quase sempre à posição de bela secretária ou interesse amoroso superficial.

Assim, não chega a ser surpresa que A Espiã que Sabia de Menos apresente como protagonista uma antítese desse perfil, a pouco atraente e invisível Susan Cooper (Melissa McCarthy). Agente da CIA que trabalha atrás das mesas, ela cumpre sua função de "olhos e ouvidos" do galante e bem sucedido espião Bradley Fine (Jude Law) quase de maneira submissa, auxiliando-o em suas missões e resolvendo seus problemas domésticos sem pedir nada em troca. Mas quando Fine é morto na tentativa de resgate de uma ogiva nuclear e nenhum agente de campo pode cumprir a tarefa, é Cooper que assume o trabalho e sai de sua condição de inexistência para salvar o dia, tendo que enfrentar na mesma medida perigosos criminosos e a resistência de seus colegas.

É justamente desse choque com o sistema que o filme tira o humor da produção. Dos combates e perseguições às humilhações vividas por Susan, o longa usa do arco de crescimento vivido pela personagem para debochar das presunções do subgênero e da própria sociedade, retratando como imbecis rasos os agentes idealizados - papéis de Law e Jason Statham, este último acertadamente caricato para compor seu herói das lendas nunca vistas - e passando o protagonismo verdadeiro às mulheres. E essa mudança de papéis não é feita sem o prazer da descoberta, como bem indica as sucessivas surpresas do tipo "Uau, eu também posso fazer isso?" que as personagens femininas de McCarthy, Mirand Hart e Rose Byrne descobrem ao longo da história.

A comédia que o diretor e roteirista propõe fazer, porém, encontra problemas na própria escatologia. Ainda que esteja controlado, o humor gráfico de Feig ainda não encaixa como deveria na sua proposta, e soa por vezes artificial na sua execução - especialmente nos combates, onde surge para encerrar a cena apenas para dar maior ênfase cômica às situações apresentadas.

Nos dois primeiros trabalhos de sua parceria (Missão Madrinha de Casamento e As Bem Armadas), Feig e McCarthy ainda não entendiam muito bem como alinhar a sua história de viés feminista com a comédia por equivocadamente acreditar que o humor de tipos - o gordo é engraçado pela sua fisiologia, a mulher solteira é ranzinza, etc. - seria o caminho certo. Em A Espiã que Sabia de Menos, a dupla parece ter achado um rumo mais certo, pois encontra no subgênero ao qual ri tão descaradamente um material mais amplo e espaçoso para trabalhar sua questionadora inversão de gêneros, sem esquecer de entregar um bom entretenimento no processo.

Nota: 7/10

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Não Perda!: Maio/2015

Homens detestáveis, ganhadores de festivais curiosos e peixes fora d'água na praça.

Por Pedro Strazza.

O mês acabou, e está na hora de ver aqueles lançamentos legais que ninguém viu porque "Não deu tempo..." ou "Não quis arriscar minha grana suada com isso!"... mas deveria ter visto. No Não Perda! de maio de 2015, também conhecido como "O mês que nos fez amar Mad Max - Estrada da Fúria", temos:

  • Cala a Boca Philip

Acompanhar personagens detestáveis em filmes não é uma tarefa fácil, mas pode trazer recompensas extremamente prazerosas, e este Cala a Boca Philip se faz como prova contundente desta afirmação. O novo longa do diretor Alex Ross Perry, ainda um cineasta a ser descoberto, trabalha com a figura detestável de Philip, um escritor que nas vésperas de publicação de seu segundo livro resolve realizar algumas mudanças em sua vida. Mas os efeitos dessas decisões, assim como a própria trajetória do protagonista na história, não são exploradas na maioria do tempo pelo seu ponto de vista e sim pelo das pessoas que o cercam, abrindo espaço para que Ross Perry trabalhe o egoísmo de nossas relações com maiores possibilidades.  

Filme de Segunda Guerra Mundial brasileiro, A Estrada 47 é um filme que encanta por dois caminhos. No primeiro, temos a inevitável recriação histórica, que apresenta ao espectador a participação brasileira no conflito armado; no segundo, mérito do diretor Vicente Ferraz, é o questionamento da entrada do país em uma guerra que não lhe diz nome, ressaltando a própria incoerência dos pracinhas em um território tão distinto. Existe uma previsibilidade em meio a isso, mas nada que prejudique a força de uma produção tão bem cuidada.

  • Últimas Conversas

Eduardo Coutinho foi um dos maiores documentaristas da História do cinema brasileiro, e estava trabalhando em um novo filme quando faleceu no início de 2014. A obra inacabada, lançada pouco mais de um ano depois de sua morte, é uma série de entrevistas feitas com jovens estudantes cariocas de classe C e D, que entre outras coisa contam a Coutinho suas duras histórias de vida, seus maiores medos e sonhos. É um choque duro de realidade que Últimas Conversas proporciona a seu espectador, e serve como mais um atestado da genialidade de um homem que partiu de maneira tão abrupta.

Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2014, o novo filme do sueco Roy Andersson continua a desenvolver o peculiar método de humor de seu cineasta. Questões existencialistas se delineiam na sucessão de esquetes apresentados, que filmados de maneira quase teatral pelo diretor apresentam situações inusitadas e divertidas por essência. É um filme que nos faz pensar, mesmo que do jeito menos normal o possível.

Se Andersson reflete rindo, o turco Nuri Bilge Ceylan o faz de maneira mais tradicional. Com longas e arrastadas três horas de duração, o vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2014 é uma análise de um personagem pouco amável, um depressivo dono de um hotel localizado na fria Anatólia. No inverno rigoroso, ele enfrenta algumas situações difíceis, que vão dos negócios ao próprio casamento infeliz. E nos longos diálogos travados para salvar sua situação atual, ele submete o espectador a uma dura noção de uma realidade complicada que a humanidade, seja nas regiões mais inóspitas do mundo, é obrigado a encarar.

Não Perda Também!: Fevereiro - Março - Abril

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Crítica: Trocando os Pés

Conto fantástico fracassa sobre indecisão entre comédia e drama.

Por Pedro Strazza.

Mesmo que tenha sido vendido desde o início como mais uma das comédias indies que Adam Sandler protagoniza ora ou outra, Trocando os Pés acaba por se assemelhar mais com um trabalho típico da Happy Madison Productions do ator. O humor raso e pouco eficaz de tais produções certamente está ausente no longa escrito e dirigido por Thomas McCarthy, mas de resto tudo soa a comédias como Um Faz de Conta que Acontece ou Click.
Na trama, Sandler vive Max, dono de uma pequena sapataria em Nova York que está insatisfeito com a vida que leva. Obrigado a assumir o negócio da família desde jovem por causa do desaparecimento do pai (ele é a quarta geração, lembra em conversas), o sapateiro diariamente precisa lidar com os calçados e desaforos de outros para cuidar de sua mãe doente (Lynn Cohen) e manter de pé o estabelecimento. Um dia, porém, Max descobre no porão uma máquina de costura que dá aos sapatos remendados por ela a capacidade de assumir a identidade do dono por quem calçá-los, e começa a usar em seu favor o poder mágico que tem em mãos.
A base de realismo fantástico tem potencial, mas não chega a ser alcançada de fato em nenhum ponto do filme. Isso porque Trocando os Pés várias vezes mostra indecisão entre qual caminho narrativo seguir, e por fim segue por nenhum: Enquanto o drama cotidiano encarado pelo protagonista e aqueles que o cercam ganha aprofundamentos em questões mais imediatas (o último desejo, a derrota dos malvados) e nunca chega a grandes questionamentos, o lado mais cômico se mostra contido como a atuação de Sandler, ganhando destaque somente nas transformações de caráter vivida pelas pessoas que Max se passa por - mérito talvez exclusivo da atuação de Method Man, único que tem a chance de mostrar os dois perfis na película.
Para piorar, há na produção a questão do moralismo, tema que persegue Sandler mesmo em seus trabalhos mais "autorais" e cujo peso interfere demais na fluidez da narrativa estabelecida por McCarthy. Embora seja um filme sobre aceitar o papel imposto pela sociedade, contribuir com a sociedade e viver da melhor maneira possível com as condições apresentadas, o longa se delonga demais no tema por meio dos coadjuvantes, insistindo em se repetir por personagens como Jimmy (Steve Buscemi) e Carmen (Melonie Diaz). Tal estratégia faz a história ser contada num ritmo arrastado, prejudicial ao conto fantástico ao qual se propõe a realizar.
E se não fosse o bastante toda a estrutura frágil elaborada, esta ainda se fragmenta no péssimo terceiro ato, que abandona a lógica desenvolvida para trazer personagens e situações inadequadas por completo à trama do filme. Assim, o real fantástico torna-se irreal para o espectador quando este é obrigado a assistir um arco de redenção mal elaborado e recheado de vigilantismo, feito à base de revelações e reviravoltas sem sentido como a real identidade de certos personagens, golpes muito mal explicados e até uma sociedade secreta presente desde o início dos tempos - mas não do filme.
Com alguns bons momentos aqui e ali para tentar compensar todos os erros cometidos, Trocando os Pés é um desperdício de uma boa ideia por infelizmente não saber o que fazer com esta. Sua execução, entretanto, não é péssima o suficiente para despertar o ódio do público, mas tão pouco é razoável para tornar sua experiência minimamente interessante, tornando sua passagem nula para quem quer que opte por vê-lo.

Nota: 4/10

domingo, 31 de maio de 2015

Crítica: Terremoto - A Falha de San Andreas

Filme de desastre espetaculariza desastre, mas ignora problemas vitais.

Por Pedro Strazza.

Logo na introdução, Terremoto - A Falha de San Andreas já mostra a que veio com uma cena ao mesmo tempo peculiar e típica de resgate. Na situação, temos uma jovem presa dentro de seu carro, que se encontra instável na beira de um penhasco após ela cometer o pecado mortal de dirigir olhando o celular; uma equipe de socorro composta basicamente por homens musculosos e movidos à testosterona, prontos para acudir a garota; e uma equipe de jornal, que documenta os esforços e sacrifícios heroicos do time para salvar a vítima de seu fim precoce prontos para eternizá-los.
Como bem exemplifica a descrição acima, os clichês e lugares comuns do subgênero reinam no filme de desastre dirigido por Brad Peyton. Da família em crise que se reúne graças às forças da natureza ao "dramático" momento de morre-não-morre no fim do clímax, a história do longa se guia pelos caminhos mais óbvios possíveis sem no mínimo se preocupar em esconder isso. Não há aqui um drama que você já não tenha visto pelo menos outras três vezes na telona, e com menos de cinco minutos já se consegue prever aonde tudo aquilo vai.
E isso seria um problema gravíssimo se não fosse feito de maneira tão divertida pelo roteirista Carlton Cuse, que assume as trivialidades da trama para compor um filme honesto de entretenimento raso.
Para tal, Cuse facilita todas as dramas de sua história para reforçar o lado mais espetáculo do desastre que dá nome ao longa. Assim, enquanto prédios desabam como dominós e a terra racha e cria abismos gigantescos para matar milhões de figurantes aos quais vemos uma ou duas vezes em destaque, a família formada pelos personagens interpretados por Dwayne Johnson, Carla Gugino e Alexandra Daddario lutam para se reunir em meio ao caos, reformando uma instituição familiar que apesar de estar em crise não encontra tanto obstáculos para voltar a funcionar - os maiores opositores, o novo interesse romântico da esposa (papel de Ioan Gruffudd, no caso) e os erros do passado, são resolvidos antes de chegarmos à metade da trama.
O mérito maior do texto de Cuse, porém, é o de conseguir conceber situações criativas para seus personagens sobreviverem ao terremoto, e levá-los a estas com naturalidade. Seja nas manobras de um helicóptero para fugir de edifícios que desabam ou no "afogamento" progressivo de um prédio em construção, Terremoto sabe brincar bem com os efeitos da devastação que oferece ao fazê-lo um playground de destruição. E se ficamos confusos com a maneira como os personagens escapam da morte nestas ou na forma que chegam a elas, o filme se prontifica com explicações mínimas como "Meu guia tem tudo que a gente precisa", "Eu aprendi isso com meu pai" ou no núcleo liderado pelo especialista vivido por Paul Giamatti e a jornalista de Archie Panjabi.
Mas se nessa execução de gênero o longa se sai bem, de resto as rachaduras são evidentes. Muito em parte do próprio acúmulo dos clichês citados anteriormente, mas também do trabalho de Peyton na direção, que além de não saber trabalhar a claustrofobia dos ambientes (a cena da garagem é confusa do início ao fim) não tem habilidade suficiente para disfarçar os absurdos cometidos por Cuse em sua espetacularização do desastre - e aqui é impossível não citar o fato do personagem de Johnson ser um homicida tão grande quanto o Superman de O Homem de Aço ao abandonar o trabalho no momento mais vital somente para salvar sua família - e inclusão de simbologias desastrosas como a gigantesca bandeira estadunidense no fim da produção. Para piorar, Peyton se prova ineficaz em tirar da ação criada mais que o padrão, se bastando em fazer no segundo ato um inesperado porém pouco interessante falso plano-sequência.
Dessa maneira, Terremoto - A Falha de San Andreas entra em um desequilíbrio estável. Se cumpre bem com aquilo que se propõe a fazer, é inegável suas falhas no resto, acumuladas por defeitos abraçados desde o início. Alguns julgarão ser insuficiente; para outros, bastará as bases à beira do colapso e o heroísmo canastrão do núcleo principal.

Nota: 6/10

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Crítica: Crimes Ocultos

Thriller de época soa tão falso quanto o seu inglês de sotaque russo.

Por Pedro Strazza.

Embora seja vendido como uma história de mistério travestida de filme de época, Crimes Ocultos mostra desde o início uma propensão maior ao novelesco. Baseado no primeiro de uma série de livros policiais escritos por Tom Rob Smith, o longa dirigido por Daniel Espinosa usa muito de sua trama de investigação como mote, mas em muitos momentos parece querer deixar o gênero para trabalhar os dramas vividos por seus personagens enquanto estes se dedicam a solucionar o enigma que tem em mãos. E isso não seria uma má ideia se não fosse tão mal executada.
Estamos na União Soviética do pós-Segunda Guerra, uma nação que busca viver em uma espécie de utopia mesmo esta não existindo - "Não há assassinos no paraíso", repetem os oficiais do governo como um mantra a ser seguido às cegas, e ai de quem for de encontro a esta ordem. Neste contexto, o respeitado agente da MGB Leo Demidov (Tom Hardy) encontra sua desolação ao questionar a sanidade do sistema e investigar a fundo o caso do assassinato do filho de um de seus colegas, e como consequência acaba rebaixado sem honras na hierarquia militar soviética e transferido para uma cidade pequena do interior do país. Esse choque com a moral de sua nação o faz entrar em uma espiral descendente, e o força a revisitar o passado funesto que tanto renega.
Há nesta história toda uma lógica que no papel parece ser bastante profunda, mas na realidade prova ser o contrário. O roteiro escrito por Richard Price parte de muitos pressupostos para construir seus personagens, e assume maniqueísmos que desde o início provam ser infundados, como o de o sistema ser ruim por naturalmente ser ruim, e logo todos os subordinados a ele serem pessoas más - algo que de imediato esvazia dos antagonistas qualquer significado maior. O pior, porém, é que Crimes Ocultos busca tirar disso um desenvolvimento maior e moralista, e sem uma base sólida sua argumentação colapsa de maneira vergonhosa.
Um exemplo claro desse vazio pretensioso são os próprios personagens, elaborados sem inspiração e com o maior número de clichês possíveis, incluindo aí os próprios protagonistas. Ainda que soem complexos e cheios de facetas, Demidov e sua esposa Raisa (Noomi Rapace) são figuras caricaturais de personas típicas do suspense, e os conflitos e diálogos que realizam entre si chegam ao cúmulo da previsibilidade - "Você é um monstro", profere ela ao marido em determinada altura da trama, realçando algo que estava claro desde o princípio. O direcionamento do próprio Demidov, de certa forma, passa por esse mesmo crivo de obviedades: É a jornada de descoberta do próprio mal, feita da maneira mais enfadonha possível.
E se nos principais a condição é enferma, nos coadjuvantes o quadro se acentua. Enquanto o sargento interpretado por Gary Oldman se restringe ao papel de falsa autoridade moral e em crise, o oficial Vasili de Joel Kinnaman é atribuído à figura de vilão apenas por ser o representante imediato da corrupção do sistema, e suas motivações param nessa simbologia básica. E para o longa, basta uma explicação das mais rasas (a responsabilidade da bandeira, esse símbolo máximo do nacionalismo exacerbado) para o porquê de seus sucessivos embates com o protagonista.
O que resta então a Crimes Ocultos? Em casos como esse, o melhor a se fazer é se deixar levar pela proposta maniqueísta e se prender ao mistério que conduz a trama, torcendo para que as propostas de vigilantismo e justiça com as próprias mãos façam um mínimo de sentido. Uma pena que, nesse caso específico, essa redenção superficial não chegue a tempo de entregar essa pequena recompensa.

Nota: 3/10

domingo, 24 de maio de 2015

Crítica: Poltergeist - O Fenômeno

Refilmagem funciona como entretenimento simples, mas não vai muito além disso.

Por Pedro Strazza.

O primeiro Poltergeist é um filme que conseguiu se destacar por um conjunto de fatores. Além da suposta maldição acontecida nos bastidores e de ser lançado praticamente no início da explosão dos blockbusters, o longa escrito e produzido por Steven Spielberg chama a atenção por realizar bem seu papel como comédia de horror e ao mesmo tempo fazer uma crítica severa ao "american way of life" e o cinema que tão bem o propagandeava nas telonas e telinhas. Do conto sobrenatural vivido pela família Freeling em um conjunto imobiliário em plena expansão, Spielberg e o diretor Tobe Hopper expõem ao espectador as diversas hipocrisias da América típica dos anos 50, que tentou retornar como modelo de consumo durante os mandatos do presidente Reagan nos anos 80.
A força criativa de Poltergeist, portanto, tem muita base no momento histórico vivido, cujas características são tão únicas a ponto de dificilmente serem repetidas. Dessa maneira, uma refilmagem do filme já sai perdendo em comparação com outras por ter de lidar com uma variável que não lhe ocorrerá, e logo tem que se fazer funcionar por outros caminhos.
Esse é o grande desafio do diretor Gil Kenan, que inicia a versão 2015 de O Fenômeno já distanciando seus protagonistas dos do longa de 1982 não só em suas identidades e perfis, mas também em sua situação econômica. Os Estados Unidos, afinal, ainda vivem os efeitos da crise econômica de 2008, e os Bowen são a típica representação da família afetada por ela: Temos o pai e a mãe desempregados (Sam Rockwell e Rosemarie DeWitt), a filha adolescente rebelde e apegada em tecnologia (Saxon Sharbino) e as crianças alheias a tudo ao seu redor (Kyle Catlett e Kennedi Clements). Todos em busca de um lugar que os abrigue durante os tempos difíceis, e que os força a se realocar no subúrbio destruído pela quebra do sistema imobiliário.
Não há então algum tipo de otimismo cego que cegue os personagens do mundo neste contexto tão pessimista, e isso esvazia a produção de qualquer conteúdo real. Quando o personagem de Rockwell olha pelo retrovisor do carro e vê um estacionamento abandonado às moscas, percebe-se em sua aparência todo o desencanto com os caminhos tomados em sua vida - e, consequentemente, pelos EUA até aquele ponto. E depois de estabelecer uma posição tão desesperançosa, a aparição dos fantasmas do passado, no original vitais para dar contraponto a todo o falso sentimento de segurança, não tem motivos para existir nesta nova versão, soando como mais um lembrete gratuito dessa época de recessão.
Sem o parâmetro social-econômico, resta então a esse novo Poltergeist se comportar como filme de gênero purista, e Kenan erra na mesma medida que acerta. Se por um lado o responsável pelo bom A Casa Monstro consegue equilibrar o humor com o suspense sem deixar transparecer demais um ou outro, sua abordagem de desenvolvimento de personagens soa limitada quando a faz apenas nos momentos cômicos da narrativa. Separar nitidamente o riso do susto em uma estrutura de comédia de horror é uma opção difícil de ser executada e exige muito da produção, coisa que Kenan não consegue alcançar de fato aqui.
Por outro lado, o diretor é feliz ao realçar na refilmagem o lado de entretenimento simples que o original tão bem carregava. Ainda que se repita demais no processo de viajar pela casa com a câmera, Kenan consegue arrancar das cenas de tensão sustos que facilmente se encaixariam nas atrações de terror de um parque de diversão decadente.
E no final é essa analogia que melhor descreve o novo Poltergeist. Embora esteja obviamente deslocado de seu tempo e não funcione tão bem como antes, ele consegue ainda entregar aqui e ali bons momentos para seus pagantes, desde que estes entrem conscientes de sua condição. O cheiro de mofo incomoda? Sim. As engrenagens poderiam servir de algum reparo? Claro. As atrações precisam ser substituídas? Com certeza.
Mas está tudo bem, desde que alguém se divirta no processo.

Nota: 6/10

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Crítica: A Incrível História de Adaline

Juventude eterna e aborrecida.

Por Pedro Strazza.

A imortalidade e suas inevitáveis consequências são um tema bastante recorrente no cinema, principalmente quando o indivíduo envolvido é jovem. Dos arroubos poéticos do primeiro Highlander aos vampiros de questionamentos filosóficos como os de Amantes Eternos, o dom muitas vezes sobrenatural de não conseguir morrer se faz interessante pela gama de possibilidades que traz às suas histórias, sejam estas tramas melodramáticas, existenciais ou mesmo cômicas, como bem lembra o Feitiço do Tempo de Harold Ramis.
No caso de A Incrível História de Adaline, a opção é pelo primeiro caminho. Dirigido por Lee Toland Krieger, o filme conta a história de Adaline (Blake Lively), uma típica mãe dona-de-casa do início da década de XX que certo noite acaba sofrendo um acidente de carro e é atirada com o veículo para uma lagoa próxima. O que era pra ser uma trágica morte, porém, acaba por dar à moça de 29 anos a inexplicável condição de não conseguir mais envelhecer fisicamente, mantendo-a com a mesma aparência para sempre.
Daí em diante, o longa escrito por J. Mills Goodloe e Salvador Paskowitz opta por caminhos fáceis e usa das estruturas narrativas mais simples para estabelecê-la, o que chega a ser uma pena se considerarmos a rara posição na qual a protagonista se localiza. Presa no visual ao passado e incapaz de acompanhar os amigos e familiares, Adaline tem em mãos um problema denso de adequação ao mundo, mas ao primeiro sinal de perigo (representado pelo agente de autoridade mais óbvio e ao mesmo tempo mais incoerente possível, o FBI) ela opta por fugir de sua realidade e ganhar uma nova identidade - que, claro, não difere em nada da outra e só serve para seus fins mais rasos. Várias repetições desse processo depois, surge sem rodeios o interesse amoroso para chocar escapismo com coração, originando o conhecido conflito emocional dos filmes românticos.
A grande verdade é que o filme parece desaperceber o potencial da história que conta ou de sua personagem central, e essa situação piora quando se introduz o personagem interpretado por Harrison Ford, cuja complexidade relacional com Adaline é subaproveitada para fins simples. E isso não seria tão problemático se não fosse tão claro: Do triângulo formado entre Adaline, seu namorado e o papel do ator veterano se aproveita apenas o lado romântico, que busca unir dois personagens depois de uma tensão criada por um terceiro, e deixa-se para trás toda uma teia complexa e até edipiana às avessas de relações.
De resto, A Incrível História de Adaline funciona aos trancos e barrancos. De poucas atuações interessantes - Lively, coitada, tem todo o potencial da transformação gradual da protagonista reduzido aos cortes de cabelo - e com um final desenvolvido com pressa, o filme faz bem aquilo que busca, mas se perde por ter objetivos tão pequenos. Não à toa, a sensação que se dá é que a história seria muito mais intrigante se contada pelo lado de um coadjuvante, e não de sua protagonista.

Nota: 4/10

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Crítica: Mad Max - Estrada da Fúria

Fúria narrativa e roteiro questionador lideram épico de ação de George Miller.

Por Pedro Strazza.

Desde seu primeiro filme, a trilogia Mad Max estabeleceu com sucesso novas maneiras de se fazer ação no mesmo ritmo que construiu a escalada para o absurdo de seu universo pós-apocalíptico. Na jornada de formação do cavaleiro solitário que é seu protagonista, o diretor George Miller inovou o cinema em diversas vertentes, trazendo a este ideias e conceitos que seriam repetidos à exaustão por outras histórias em décadas posteriores, além de sagrar-se bastião do ascendente cinema australiano da época.
Realizar uma nova continuação para uma franquia tão fundamental após tantos anos, portanto, seria uma loucura em quaisquer medidas, e envolveria uma alta responsabilidade de qualquer um que o tomasse como tarefa. Para a sorte do cinema, essa responsabilidade foi levada em conta, pois Mad Max - Estrada da Fúria mostra desde o primeiro minuto uma inclinação visível à progressão - seja esta de sua franquia, gênero ou da História.
Em desenvolvimento desde 2011 e contando com o retorno de Miller à direção e roteiro (escrito junto dos estreantes Brendan McCarthy e Nick Lathouris), o quarto capítulo usa da jornada de travessia - um tipo de história típico do faroeste - como premissa de sua trama simples. A carga a ser transportada aqui são as jovens esposas do líder religioso e industrial Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne), que fogem de seus domínios lideradas por Imperator Furiosa (Charlize Theron) em busca de um lugar seguro. Atrás de seus futuros herdeiros na barriga das mulheres e com um exército de homens e automóveis em seu controle, Joe inicia uma caçada pelo veículo dirigido pelo grupo, que terá o auxílio de Max Rockatansky (Tom Hardy) para sobreviver ao caminho perigoso.
De certa forma, a história de Estrada da Fúria não escapa do que foi visto nos três primeiros Mad Max, mas acrescenta a elas mecanismos importantes. Max continua a agir como o justiceiro vindo de longe que se envolve e resolve auxiliar a jornada das vítimas da região, mas desta vez as vítimas estão mais preparadas para sobreviver ao inimigo opressor. Em muitos momentos, Furiosa assume no longa a posição de personagem principal nas ações ocorridas e relega a Rockatansky um papel secundário, e com isso põe-se em conflito o próprio papel do protagonista e seu papel de cavaleiro solitário, algo que acaba por repercutir de maneira interessante por todo o roteiro e sua estrutura de gênero.
Cientes dessa elaboração narrativa, Theron e Hardy a incorporam e fazem seus papéis em cima desta. A atriz imprime os efeitos de um mundo tão duro na figura de autoridade e decisiva de sua Furiosa, enquanto o novo intérprete de Max constrói o herói da maneira mais animalesca possível, distanciando-se como pode do trabalho de Mel Gibson no personagem e colaborando para estabelecer o tom da produção.
Por outro lado, a construção do universo pós-apocalíptico concebido por Miller contribui efusivamente para a escalada de loucura da franquia. Feito em simbolismos escancarados (o volante virar um instrumento de culto e veneração, por exemplo), uniões constantes entre elementos mitológicos clássicos e cultura contemporânea (o "mcbanquete nos portões do Valhalla" é o grande objetivo dos "kamicrazys", para se ter dois exemplos) e um deserto monocromático berrante, o mundo estabelecido neste quarto filme é exageradíssimo, mas ainda assim orgânico e bastante funcional, capaz de fazer o espectador compreender seus mecanismos pelos movimentos expositivos mais discretos em uma narrativa que se atrela quase que por completo ao visual.
E é justamente no jeito de contar sua história que o diretor mais acerta nesta nova incursão. Acelerado ao extremo, Estrada da Fúria é ágil e ordenado em construir os personagens e as situações ao mesmo tempo em que combina o lado técnico com os elementos da trama. O ápice, claro, é o carro sonoro conduzido por um guitarrista, que simultaneamente se envereda pela trilha sonora de Junkie XL e constrói a figura arrogante de Immortan Joe - afinal, quem diabos seria capaz de construir um veículo do tipo apenas para dar um acompanhamento musical às ações de seu exército?
Toda a estrutura elaborada é feita para culminar sempre em cenas de ação, orquestradas com precisão milimétrica pelo cineasta australiano. Miller inclusive rejeita a tendência recente do cinema em filmar a ação por closes e planos que inserem o espectador na ação, e opta por planos fixos para explicitar a magnitude e brutalidade das perseguições, que ganham mais peso nas colisões reais protagonizadas pelos veículos montados. O mundo aqui sobreviveu ao fim e sua sanidade desapareceu, e o longa incorpora isso da melhor maneira possível.
Com identidade oitentista e execução contemporânea, Mad Max - Estrada da Fúria é na raiz uma experiência intensa, capaz de inserir o espectador na loucura de sua história sem se perder no caminho. Acima de tudo, porém, o filme respeita suas origens e continua a construir o protagonista em sua jornada pós-apocalíptica, que, se tudo der certo, continuará a ser feita no futuro.

Nota: 10/10

Gostou? Assista Também: