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terça-feira, 12 de maio de 2015

Crítica: Wilder Mind (Mumford and Sons)

Após 6 anos, quarteto britânico aposenta os banjos e veste a costumeira emoção com guitarras e sintetizadores.

Por Guilherme Umeda.

"This is never gonna go our way if i'm gonna have to guess what's on your mind..."
Quando o Mumford and Sons surgiu, foi um refresco. Era o que de maior qualidade havia surgido até então para representar esse eixo do novo folk rock (vertente do indie? Talvez?): usava dedos rápidos no banjo, e batidas às vezes mais comedidas, às vezes em compasso menos espaçado, porém sempre firmes e mais fortes em momentos quase sempre inesperados, mas toda vez milimetricamente calculados para agarrar o ouvinte pelo colarinho e fazê-lo ouvir uma música atrás da outra na esperança de sentir os pelos da nuca arrepiar. E, deve-se dizer, essa esperança era quase sempre atendida.
Depois de seguir esse script para lançar com sucesso estrondoso Sigh no More (2009) e Babel (2012), seria muito fácil e conveniente para os caras simplesmente fazer mais do mesmo e lançar um terceiro disco de folk rock guiado pelo banjo, violino, sanfona... Levando em conta o talento para a composição que fica claro nos primeiros álbuns, pode-se dizer que o disco seria um sucesso.
Mas, para a alegria da nação (e, principalmente, deste rapaz que vos fala), "Believe", primeira faixa do novo disco, Wilder Mind (WM), a ser divulgada, anunciou que não seria bem assim. Os instrumentos foram trocados: banjo, violino e sanfona deram lugar às guitarras e sintetizadores.
Por que a alegria? Porque, ao arriscar e reconhecer que era hora de mudar de fase, o Mumford and Sons provou - pelo menos por enquanto - que não será uma maravilha efêmera.
Se fizesse mais do mesmo no novo álbum, faria sucesso por mais algum tempo, mas logo cairia no esquecimento. E isso, dado, por exemplo, a capacidade que o grupo tem de escrever músicas com um clímax longo e que emocionam, seria uma pena.
Felizmente, Marcus Mumford (vocalista) e seus amigos nos deram, ainda antes do lançamento do álbum, mais um motivo para aumentar o otimismo e alimentar as expectativas em relação a WM. O segundo single “The Wolf” veio para cumprir muito bem a tarefa de consolidar nas mentes dos fãs que a mudança de sonoridade não foi feita de qualquer jeito e não estava presente só em uma faixa. De forma curiosa, “The Wolf”, apesar de ter em segundos a mesma duração de “Believe”, parece ser mais conciso, se arrastar menos e, até por isso, acaba sendo mais eficiente na missão de apresentar as novas nuances da banda.
Ambas as faixas vieram para serem os carros chefe de WM, e não pense aqui, caro leitor, que estou subjugando uma à outra. As duas seguem uma mesma receita, porém de formas diferentes. A “fórmula” consiste em momentos de serenidade seguidos de um estouro para surpreender o ouvinte. O toque final da “fórmula” é o toque especial do chef: a capacidade que a Mumford & Sons sempre mostrou de fazer com que aquele arregalar de olhos vindo da surpresa se mantenha por muito tempo dentro da música (suspiros – másculos – de admiração). Jon Nolan, da Rolling Stone, definiu bem: "Mesmo em meio a toda essa nova sonoridade em Wilder Mind, o fervor apaixonado que fez Mumford & Sons brilhar ainda é a sua força motora".
Mas, enfim... onde estávamos mesmo? Ah, sim! Comparando “Believe” e “The Wolf”.
A receita, como dito antes, é a mesma para as duas. No entanto, elas diferem no tempo que o “estouro” leva para aparecer e também na intensidade dos momentos mais serenos. “Believe” é levada desde o começo apenas pelo vocal de Marcus enquadrado ao fundo pelo som de sintetizadores e guarda seu ponto alto para o final; enquanto que “The Wolf” já começa com um curto período de “barulheira”, seguido pela parte mais serena. Nesta segunda faixa, porém, mesmo as partes mais serenas têm ao seu fundo uma marcação leve da bateria e – talvez esse seja o fator mais determinante no diferencial das duas – há mais de um estouro na música.
O leitor mais crítico (pra não dizer chato) deve estar nesse momento dizendo: “P#$@, Guilherme! Achei que você fosse falar do álbum todo! Já li um monte e até agora só li sobre duas músicas! Seu lixo!”. Meu querido amigo, tente se acalmar. Concordo que, quiçá, as palavras que dediquei até agora a “Believe” e “The Wolf” tenham sido demasiadas, porém, de forma alguma foram levianas. Estas duas foram tão dissecadas justamente por serem as duas faixas de mais peso no álbum, acompanhadas de talvez mais duas outras canções (sobre as quais falarei a seguir).
Respire fundo, meu caro. Chegou a hora. Vamos ao álbum todo.
A escolha de “Tompkins Square Park” para primeira faixa foi, em parte inteligente, em parte nem tanto. O começo da música é cativante, com ecos de guitarra que, tranquilamente, se encaixariam em qualquer música de El Pintor (2014), brilhante álbum do Interpol. Essa empolgação se mantem, mais ou menos, até os 3:20 min. A partir daí, até o final dos 5:11 min (é a faixa mais longa do álbum), a música não vai a lugar algum. Talvez o erro tenha sido justamente alongar tanto. Se acabasse nos 3:20, essa desorientação poderia não acontecer. “Tompkins” cozinha e cozinha o galo, mas não come.
Sobre as segunda e terceira faixas (“Believe” e “The Wolf”) eu não falarei mais, pois temo pela minha vida. Sigamos em frente.
Vem então a faixa que dá nome ao disco. “Wilder Mind” é uma das boas músicas do álbum, porém, não é nada demais. De forma alguma é ruim, mas nem de longe é tão marcante quanto o quarteto de ferro do álbum – ao qual chegaremos em breve. O início de “Wilder” soa até um pouco estranho para o perfil da banda (uma batidinha talvez um pouco animada demais), mas logo o dedilhar da guitarra e o baixo vêm para conferir mais sobriedade ao som. O melhor momento nesta talvez seja o solo de guitarra no meio: curto, porém interessante.
Senhoras e senhores, eu lhes apresento a terceira integrante do quarteto de ferro de WM: “Just Smoke”. Quinta faixa do álbum, talvez seja o momento em que as sonoridades antiga e nova da banda melhor se fundem. O verso é quase que falado por Marcus, relembrando os melhores momentos de Babel, e seguido por um pré-refrão e refrão ambos marcados pela harmonia de vozes em alto registro (também marca dos primeiros álbuns). Porém, isso tudo enquadrado por uma batida, que apesar de comedida é marcante, e por um dedilhar de guitarra tão marcante quanto. É como se tivessem feito uma versão “plugged” de uma das faixas dos primeiros álbuns.
Neste momento de benevolência, caro leitor, vou quebrar a linearidade da sequencia das faixas e ir a o que interessa: o quarto e último membro do quarteto.
Décima faixa do álbum, “Ditmas” é algo diferente. A letra vai agradar aos que curtem uma “broken hearted song”, não só pela temática, mas também pela forma como é contada. O simples fato de, nos momentos mais calmos e quase falados da música, Marcus incluir um “oh, love” entre os versos, dá um tom de pessoalidade tão grande. É o tipo de música com a qual quase todos que já sofreram por amor se identificam de alguma forma.
Mas não é só isso que há em “Ditmas”. A sonoridade é algo de sensacional, de certa forma hipnotizante e com um final surpreendente. Ficar descrevendo esse aspecto da faixa seria uma crueldade com você, caro leitor. Não quero estragar nenhuma surpresa. Apenas ouça e tire suas conclusões. Porém, algo merece ser dito: “Ditmas” tem tudo para ser o hit com maior longevidade de WM.
Conforme nos encaminhamos para o final do texto, um último destaque merece ser feito. A seção “nostalgia” de WM.
Ainda que a mudança de sonoridade tenha feito muito bem à banda e seja um aspecto fundamental para manter o Mumford & Sons relevante, há fãs e críticos que não tenham gostado dessa metamorfose. Sendo assim, Marcus Mumford e seus amigos, muito inteligentes que são, incluíram em WM duas faixas que tem o estilo “old Mumford”. “Broad-Shouldered Beasts” e “Only Love” (a primeira mais do que a segunda) vão agradar mesmo às viúvas dos banjos que marcaram a fase inicial da banda. Espertos esses meninos...

Wilder Mind, de forma alguma, vem com uma mentalidade como a que dominou a primeira fase do modernismo no Brasil (destruir o velho, dizer que este não presta). Pelo contrário: o álbum mantem vivos os melhores traços da primeira fase da banda e dá ao som uma roupagem nova. Tem falhas (não muitas), mas tem mais acertos do que erros.

Nota: 8/10

domingo, 10 de maio de 2015

Crítica: A Estrada 47

Filme de guerra brasileiro busca debater papel do país na Segunda Guerra.

Por Pedro Strazza.

Não é mistério para ninguém que o Brasil foi um coadjuvante bastante discreto na Segunda Guerra Mundial. Foi um conflito que pouco envolveu a América do Sul e Central, mas a batalha dos Aliados contra o Eixo contou com uma leve participação brasileira na Itália, onde o pequeno contingente de voluntários reunidos pela Força Expedicionária Brasileira (cerca de 25.000 soldados) auxiliou os estadunidenses no avanço pelo Sul em direção à Alemanha nazista.
Tão poucos em um confronto tão grande e que pouco lhes cabia responsabilidade, é fácil imaginar os pracinhas muitas vezes se sentindo deslocados nos fronts de batalha estrangeiros ao qual eram mandados para combater o inimigo, uma sensação que o diretor Vicente Ferraz busca reproduzir com fidelidade em A Estrada 47. O Brasil não deveria estar na guerra, como bem diz um coronel alemão a certa altura do filme, e sua presença no inverno italiano é quase desnecessária.
Como contar uma história de Segunda Guerra com brasileiros como protagonistas é então o grande desafio de Ferraz, e sua solução no roteiro para o problema em mãos tanto funciona quanto prejudica. Ao invés de tentar encaixar as tropas tupiniquins no contexto geral, o diretor e roteirista do longa foca suas atenções em uma missão pequena e pouco importante para o conflito, mas fundamental para as pessoas localizadas na região: liberar a estrada 47, única conexão para uma cidade chave no comando de uma área e que se encontra minada por bombas antitanque nazistas. Com o clima rigoroso e o recuo das tropas estadunidenses, resta a um grupo de quatro soldados e um jornalista brasileiros abrir caminho, mesmo que isso signifique a entrega de suas vidas.
A premissa é ideal para tornar os coadjuvantes em protagonistas na narrativa elaborada, mas encontra dificuldades em conciliar isso com a crítica à guerra típica do gênero. Isso porque Ferraz, como bem esclarece na fala dita pelo alemão interpretado por Richard Sammel, busca muitas vezes expor a sensação de deslocamento vivido pelos protagonistas, mas ao mesmo tempo quer tornar os mesmos em heróis. E mesmo esse heroísmo sendo não proposital, os soldados vividos por Daniel de Oliveira, Thogun Teixeira, Francisco Gaspar e Júlio Andrade não conseguem absorver duas figuras tão opostas.
A culpa de tal problemática, porém, não recai nos ombros do elenco, que entrega aqui atuações convincentes e bem preparadas, mas sim da própria configuração de seus personagens, resumidos a tipos conhecidos dos filmes de guerra - o indivíduo enlouquecido pelo combate (Gaspar), o amargurado pelos erros do passado (Oliveira), o líder despreparado (Andrade), o explosivo (Teixeira) - que por natureza não conseguem elaborar a profundidade necessária para tal conflito. Até mesmo o jornalista de Ivo Canelas, cuja participação se resume à de testemunha dos esforços da tropa, é obrigado a passar por tal crivo unidimensional.
Ainda eficaz em sua recriação histórica e equivocado na narração em off (a exposição dos conflitos emocionais dos pracinhas é desnecessária quando a estamos testemunhando), A Estrada 47 surge como um filme de gênero peculiar na produção nacional, graças à própria raridade do tema em terras brasileiras. Sua execução, entretanto, carece de sutileza maior em definir exatamente qual o papel de seus protagonistas na situação única ao qual se situam, e a restrição imposta por seu realizador acaba por dar cabo de uma profundidade quase necessária à produção.

Nota: 7/10

terça-feira, 5 de maio de 2015

Não Perda!: Abril/2015

Filmes de máfia, de superação e de loucura se destacam no mês que prenuncia a temporada de blockbusters.

Por Pedro Strazza.

O mês acabou, e está na hora de ver aqueles lançamentos legais que ninguém viu (mas deveria ver) porque "Não deu tempo..." ou "Não quis arriscar minha grana suada com isso!". No Não Perda! de abril de 2015 - ou "O mês que teve Vingadores - A Era de Ultron e Velozes e Furiosos 7" - temos:

O que acontece quando um indivíduo tem que lidar sozinho com todo um sistema em decadência para deixar viva sua família e sua empresa? Terceiro longa-metragem dirigido por J.C. Chandor, O Ano Mais Violento é um filme de máfia que não se comporta como tal, empregando um olhar diferente sobre o subgênero e o crime dos dias de hoje. Sua ausência no Oscar 2015 foi sentida.

  • Cake - Uma Razão Para Viver

Outro que não deu as caras na cerimônia de premiação dos Academy Awards foi Jennifer Aniston, que entregou com Cake uma atuação diferente das de seus trabalhos habituais. Ainda que exiba nos fundos os mesmos trejeitos de patricinha mimada, a atriz deu um passo importante na tentativa de se distanciar da Rachel de Friends neste filme que se faz interessante pela sua abordagem na depressão. E mesmo que em alguns momentos caia nos trilhos da auto-ajuda superficial, Cake - Uma Razão Para Viver já se faz notado por encarar de frente um distúrbio tão pesado.

Enquanto Cake conversa sobre depressão, Entre Abelhas fala sobre solidão. A doença vivida pelo protagonista do filme dirigido por Ian Sbf, que consiste basicamente nele não conseguir mais enxergar as pessoas, funciona bem como retrato da individualização crescente da sociedade, cada vez mais uma multidão solitária. Sua maior força, porém, reside no humor, graças à influência do Porta dos Fundos que o diretor e seu elenco carrega para a produção.

Das situações inusitadas que estrearam nesse mês, entretanto, a mais esquisita com certeza é a do filme que coloca Michael Fassbender numa cabeça gigante de papelão. Encantador com uma trama simples, Frank faz o típico caminho trilhado por bandas na época contemporânea, onde os artistas se veem em conflito constante entre a fama comercial e o sucesso profissional. Poucas ousadias, mas bastante efetivo.

Não Perda Também!: Janeiro - Fevereiro - Março

domingo, 3 de maio de 2015

Crítica: Noite Sem Fim

Patriarcas em conflito com a realidade.

Por Pedro Strazza.

Nos filmes de máfia, é comum assumir logo de início que na família quem comanda é o pai. Quase uma característica básica do gênero, essa identificação patriarcal dos negócios tem origem no desenvolvimento histórico da sociedade, e presume o homem como mais capacitado que sua mulher e seus filhos para proteger esses e outros parentes próximos dos "perigos de fora". É um viés machista e ultrapassado, que vem sendo combatido já há décadas com a revolução das relações familiares e sua consequente desconstrução em novas maneiras de liderança e organização.

O crime, porém, parece sempre estar atrasado em relação ao mundo, e pelo menos no cinema sua formatação ainda mantém como máxima a afirmação do pai de família, mesmo esta chocando-se com a realidade de tempos em tempos. Saber como esse choque ocorre e se a crise de relações de fato acontece aparecem então como temas interessantes a serem analisados, e Noite Sem Fim os usa em sua trama pronto para tentar entendê-los a fundo.

É de confrontos, afinal, que o longa dirigido por Jaume Collet-Serra constrói sua história, e os três guerreiros que a protagonizam são justamente chefes de família. De um lado temos ambientado em uma premissa de último serviço o típico conflito de Davi e Golias, representados nas respectivas figuras do mercenário Jimmy Conlon (Liam Neeson) e do líder do crime organizado Shawn Maguire (Ed Harris); do outro, o drama geracional e de legado vivido por Conlon com o filho Mike (Joel Kinnaman). E ambos são acionados pelo ato mais indesculpável em questão de genealogia: o assassinato de um filho, o fim prematuro de uma linhagem inteira.

Estabelece-se assim entre os envolvidos um impasse sem maiores saídas senão à da morte, cuja obsolescência é óbvia no panorama contemporâneo desde o primeiro instante de existência. Enquanto Maguire se vê obrigado a autodestruir o resto de seu mundo por ter sua herança destruída em definitivo - mesmo ele sabendo que tal futuro já estava comprometido pelos mesmos erros que havia presenciado nos colegas mortos na juventude -, Mike se vê na ingrata posição de ter de apostar a sobrevivência de sua pessoa e família ao passado renegado, a figura paterna corroída pelo mal ao qual se quer ver tão distante.

O vilão em ambos os casos, claro, é o homem isolado, o mercenário que na busca por algo a mais acabou sem ninguém e vive em desgosto profundo. Dito isso, é curioso perceber como o roteiro de Brad Ingelsby use do antagonista principal como justiceiro, e faz de Jimmy um herói em combate com o próprio passado. Um clichê bem empregado (o detetive interpretado por Vincent D'Onofrio está posicionado sem maior elaboração para apenas lembrar do peso carregado pelo protagonista, por exemplo) e feito para fazer fluir a narrativa, mas que encontra seus momentos - e é perfeito para Neeson reproduzir seu arquétipo recente de figura de lei em busca da redenção.

Embora tenha seus problemas na hora de contar sua história - a fotografia de Martin Ruhe parece não entender como lidar com espaços para a ação, a exemplo das cenas envolvendo banheiros -, Noite Sem Fim desempenha bem seu papel de bater de frente o tradicional com os novos tempos. Não à toa, o super mercenário feito por Common contratado para matar pai e filho surge robótico e com os aparatos mais modernos, pronto para dar cabo do passado e abrir espaço para o futuro, seja esse qual for.

Nota: 7/10

Gostou? Assista Também:

sábado, 2 de maio de 2015

Crítica: Entre Abelhas

Comédia dramática problematiza menos e brinca mais com alienação progressiva da sociedade atual.

Por Pedro Strazza.

Bruno (Fábio Porchat) não está no melhor momento de sua vida. Seu casamento com Regina (Giovanna Lancellotti) foi por água abaixo sem motivo aparente, obrigando-o a voltar a viver na casa da mãe (Irene Ravache); o amigo Davi (Marcos Veras), apesar de preocupado com ele, tem problemas maiores para lidar que a "libertação" do camarada; e pra piorar tudo, Fabio inexplicavelmente começou a deixar de ver as pessoas.
Esse evento sobrenatural, típico de obras como a do falecido José Saramago, é o pontapé inicial de Entre Abelhas, e sua falta de sentido é o que conduz a narrativa desenvolvida pelo diretor Ian Sbf, que assina ao lado de Porchat o roteiro do filme. É uma doença, uma consequência do stress, um defeito do cérebro? Nenhuma interpretação racional dos fatos consegue trazer para a realidade a condição de Fabio, que dia após dia vê menos a sociedade a seu redor e começa até a não enxergar mais amigos, parentes e pessoas próximas.
Usada sem maiores elaborações como crítica ao alienamento do ser humano nos tempos atuais, o mistério da "cegueira humana" é desenvolvida aos trancos na comédia dramática, sendo muito mais utilizada para fins cômicos que qualquer outra coisa. Explica-se assim a estrutura esquemática da produção, feita para facilitar a construção das cenas humorísticas encadeadas uma atrás da outra, e a sensação de incompletude criada no desfecho da história. Falta ao longa uma maior ambição, que não subestime o potencial de sua curiosa premissa e capaz de levá-la para caminhos inusitados ao espectador.
A sorte de Entre Abelhas é que quem o conduz seu humor, tanto pelo lado técnico quanto de atuação, tem experiência no assunto. Assim como em seus trabalhos no Porta dos Fundos, Ian e Porchat sabem bem como evitar o uso simples do exagero e do estereótipo típicos da comédia nacional, e emprega-os de maneira inteligente nas situações concebidas no filme. Exemplos claros disso são os personagens de Davi e Nildo (Luis Lobianco): Enquanto o primeiro diverte pela caricatural postura preconceituosa e não pelos impropérios que dispara, o atendente de pizza não é motivo de risos pela aparência ou a condição social (algo que com certeza seria usado em mãos menos cientes), mas pelas loucuras ao qual é obrigado a passar para ajudar a curar o protagonista.
Enquanto isso, Porchat encanta pela maneira sóbria com a qual interpreta Bruno. Muitas vezes exagerado nas comédias que participa, aqui o humorista faz um personagem de poucos sorrisos, sem esperanças nas mudanças abruptas ocorridas em pouco tempo e incapaz de perceber a existência do próximo, fisicamente ou emocionalmente. Sua participação cômica nunca é estourada, e depende quase sempre dos diálogos protagonizados.
No fim, não chega a ser surpresa que Entre Abelhas se revele uma simples história de amor. Com poucas pretensões no tema que problematiza e muito mais interessado em questões de gênero cinematográfico, o filme frustra aqueles atrás de uma reflexão maior na trama contada por sua simplicidade, mas entretém o suficiente para que essa decepção passe tão desapercebida quanto a sociedade para o protagonista.

Nota: 6/10

Gostou? Assista Também:
  • Ela: A mesma temática, só que com uma problematização maior e mais eficiente.
  • Ensaio Sobre a Cegueira: A representação cinematográfica mais eficiente da obra de Saramago.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

HEY, Eu Quero Uma Segunda Opinião!: Vingadores - A Era de Ultron

Um dos melhores filmes da Marvel Studios, se não for o melhor.

Por Alexandre Dias.

Os super-heróis não integram mais filmes de ação ou aventura. Eles consolidaram o seu próprio gênero cinematográfico. Dentre os estúdios que produzem tais blockbusters, a Marvel/Disney é de longe aquele que pensa mais à frente e tem conseguido trilhar um caminho certeiro. Vingadores: Era de Ultron é a prova cabal disso, aonde o divertimento e pistas para o futuro continuam a ser as principais características da Casa das Ideias no cinema.
No caso da equipe, há um desafio à parte, que é dar o tempo certo de cada personagem. O diretor Joss Whedon alcançou essa meta no longa anterior, mas obteve ainda mais sucesso neste novo lançamento: os vingadores "protagonistas" mantêm a importância - a própria trama gira em torno de uma criação de Tony Stark (Robert Downey Jr.) -, porém os coadjuvantes e os novos integrantes são muito bem desenvolvidos.
O Gavião Arqueiro (Jeremy Renner) e a Viúva Negra (Scarlett Johansson) são explorados não apenas como reforços brutos para o time de heróis, mas como os humanos Clint Barton e Natasha Romanoff, respectivamente; os Aprimorados têm uma boa dinâmica, sendo que Pietro Maximoff (Aaron Taylor-Johnson), o Mercúrio, gera bons momentos de empolgação, enquanto Wanda Maximoff, a Feiticeira Escarlate, além de participar dos mesmos (a cena em que ambos devem parar um trem é ótima), é interpretada por Elizabeth Olsen de forma esplêndida, com uma mistura de poder e sentimentalismo; por fim, resta falar de Visão (Paul Bettany), que está com um visual fantástico, e mesmo com a sua aparição acontecendo praticamente no terceiro ato, vale a espera.
O fator diversão, que é o objetivo que a Marvel Studios procura alcançar em todas as suas produções, é cumprido melhor do que nunca: as cenas de ação são espetaculares e grandiosas - a sequência inicial é incrível -, o que faz todo sentido devido à ameaça, que está à altura dos Heróis Mais Poderosos da Terra. Esta, aliás, é transmitida pela dublagem de James Spader ao vilão Ultron, juntamente com um certo sarcasmo, que provém do “pai” Homem de Ferro. Ainda vale citar que, agregado aos combates, o humor completa o divertimento do espectador: as piadas são muito boas e colocadas nos momentos determinados.
Sem dúvida, é impressionante o universo coeso que a Marvel/Disney desenvolveu e tende a desenvolver cada vez mais no cinema. O futuro parece promissor, com a grande saga dos quadrinhos Guerra Civil, que chega às telonas ano que vem, e as duas partes da Guerra Infinita, com Thanos agindo finalmente, que estreiam em 2018 e 2019, além dos filmes solo. Se a eficiência presente na maior parte de suas produções continuar a ocorrer, podemos ficar sossegados e ansiosos, pois esta é a justificativa que comédia, pancadaria, bem contra o mal e outros clichês de blockbusters podem funcionar muito bem se utilizados  de maneira precisa. Vingadores: Era de Ultron é um dos melhores filmes do estúdio, se não for o melhor.

Nota: 10/10

sábado, 25 de abril de 2015

Crítica: Vingadores - A Era de Ultron

Joss Whedon faz de sequência de Vingadores uma excelente preparação para o futuro da Marvel Studios.

Por Pedro Strazza.

Criar um universo cinematográfico não é tarefa fácil. Não bastasse conceber uma história que funcione tanto no superficial quanto em camadas mais profundas, os responsáveis precisam lidar também com inúmeras variáveis para manter coeso o mundo que seus personagens habitam, e isso inclui da maneira como os eventos principais afetam o lugar ao jeito como os acontecimentos secundários (ocorridas no periférico) influem no núcleo principal de personagens. É uma relação que requer muito equilíbrio e progressivamente fica mais e mais difícil de se alcançar conforme a história progride - e os filmes se acumulam.

E se fazer um universo em um filme é fácil, em dois a coisa se complica e em três fica complexo, imagina então a situação vivida pela Marvel Studios, que com Vingadores - A Era de Ultron chega à surpreendente marca de doze produções situadas em uma mesma cronologia. Além de envolto em tantas informações que de alguma forma não podem ser colidir, o estúdio liderado pelo produtor Kevin Feige tem a problemática de envolver núcleos bastante opostos entre si, englobando deuses nórdicos e espionagem realística em uma mesma folha de papel.


A sorte da franquia Marvel é que, ao contrário de outras produções, ela se divide em muitas séries de filmes, capazes de explorar o universo estabelecido e desenvolver seus múltiplos protagonistas com calma, abrindo espaço assim para que sua maior série, Os Vingadores, concentre esforços em questões tão importantes quanto. E no caso dos maiores heróis do mundo, a sorte é ter tido alguém como Joss Whedon, que compreende muito bem essa oportunidade, no comando de seus dois primeiros capítulos. É dele os muitos méritos do primeiro capítulo e os ainda maiores deste segundo, muito mais ambicioso, pesado e difícil de se manobrar com o acréscimo de tanto material vindo dos últimos quatro filmes da Marvel Studios, agrupados e conhecidos pelo nome de Fase 2.

É uma tarefa hercúlea que Whedon realiza em A Era de Ultron, pois tem de lidar simultaneamente com os acontecimentos anteriores para estabelecer sua história - que envolve a Batalha de Nova York do primeiro Vingadores e os eventos passados desde então pelos protagonistas em seus filmes solo - e também conceber as bases do futuro da mesma cronologia, que tem previsto para os próximos anos pelo menos onze capítulos. Sem contar as próprias adições feitas nesta continuação, que precisam ser muito bem trabalhadas pelo cineasta para a progressão do longa pelo conjunto, e a trama capaz de unir todos esses pontos sem atropelar-se em si mesmo.


A solução encontrada pelo roteirista e diretor, então, é simples e bastante similar à adotada no primeiro capítulo da série, mas envolve um manejo delicado de sua parte. Whedon torna seu trio de protagonistas em figuras unidimensionais e de pouco desenvolvimento, e prefere focar suas atenções nos vastos coadjuvantes da equipe para problematizar o tema proposto e aproximar esses personagens do espectador. Os perfis dos heróis "secundários" da equipe, afinal, foram bem menos explorados que os de Steve Rogers (Chris Evans), Thor (Chris Hemsworth) e Tony Stark (Robert Downey Jr.), cujos filmes dedicados a suas aventuras já os apresentaram bem. A eles, resta introduzir o futuro, a Guerra Civil entre o primeiro e o último e o Ragnarok para a divindade nórdica.
Thor, Steve Rogers e Tony Stark confraternizando com amigos; personagens rasos, mas importante para a trama
Isso não quer dizer, porém, que a trindade da equipe atue por fora na narrativa desenvolvida nesse segundo Vingadores, mas sim o contrário: É o Capitão América que comanda os movimentos do time de super-heróis em todo o filme; é o deus do trovão que faz a equipe ir à Sokóvia em busca do cetro do irmão Loki, missão que abre (com um plano-sequência fabuloso) o filme; e é o Homem de Ferro que com tal item em mãos idealiza e constrói, ao lado do doutor Bruce Banner (Mark Ruffalo) a inteligência artificial Ultron (James Spader), grande vilão da vez a ser combatido e cujo objetivo é acabar com os Vingadores - e, posteriormente, a humanidade.


São os principais que armam e disparam a história de A Era de Ultron, e seu desenrolar ocorre com outros personagens em dramas interessantes. A começar por Clint Barton (Jeremy Renner), cuja inferioridade de poderes em relação aos colegas e sua maior proximidade com a humanidade o torna num ponto de conexão interessante entre os sobre-humanos e a sociedade. A passagem da equipe na fazenda do arqueiro e sua apresentação à família Barton realça isso com precisão, e dá aos heróis um motivo para lutar pela sobrevivência.
Ultron em sua primeira (e frágil) forma; um vilão criado para socorrer os inocentes
Essa relação entre protetores e protegidos, central ao longa, também é abordada com sutileza no relacionamento amoroso entre Banner e Natasha Romanoff (Scarlett Johansson). Típica elaboração de monstro e mocinha que traz essa problemática clichê do perigo como principal obstáculo para o amor, ela funciona muito mais para entendermos melhor ambos os personagens no contexto ao qual estão inseridos - principalmente a agente russa, interpretada com especial cuidado por Johansson.
Enquanto os poderosos lutam pelo bem maior, os inocentes sofrem, e as novas peças apresentadas no tabuleiro querem externizar esse sentimento. Ultron e seu "filho", o "sintetizoide" Visão (Paul Bettany), crias de um mundo em caos, agem por um bem não muito bem definido, que possui tantas dúvidas sobre a humanidade e suas ações como esta tem com os Vingadores e seu rastro de destruição - E o diálogo final entre as duas inteligências, mesmo superficial, sintetiza muito bem o dilema deles com seu criador. No caso das vítimas, é curioso perceber que elas sejam representadas por dois seres aprimorados, com nível de habilidades sobrenaturais ao dos Vingadores. Vindos da população, os irmãos órfãos Wanda (Elizabeth Olsen) e Pietro (Aaron Taylor-Johnson) Maximoff simbolizam os danos infligidos na sociedade por aqueles que a protegem, e servem como lembrete futuro para o sofrimento causado pelos próprios heróis.
Pietro e Wanda Maximoff; lembretes da humanidade de um mundo de sofrimento aos heróis do amanhã
Esse mesmo futuro vai sendo armado por Whedon de forma magnânima. Das heranças deixadas pela passagem de Ultron - em especial o elemento portado por Visão e a Feiticeira Escarlate, cuja instabilidade emocional já é prenunciada - aos escombros deixados pelo combate entre o Hulk e o Homem de Ferro em Wakanda (uma cena digna de seu espetáculo destrutivo, vale dizer), Vingadores 2 é o filme que melhor constrói as bases para um amanhã de um universo cinematográfico, não se rendendo as pontinhas instigantes (menos, talvez, na cena durante os créditos) e sim tomando-a como elemento principal, o que ocasionalmente pode gerar uma sensação de meio do caminho no espectador mais ansioso com o todo.

Mas essa sensação, ao lado de todos os atalhos tomados pelo roteiro de Whedon na narrativa dinâmica (dói ouvir de uma "central" da internet em pleno 2015), são um pormenor. Além de trazer na estrutura uma complexidade funcional e bela, Vingadores - A Era de Ultron serve como entretenimento de primeira, capaz de fazer rir na estrada de universo que trilha com tanta seriedade, e prepara como ninguém um futuro brilhante para uma franquia poderosa.

Nota: 10/10

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Crítica: Chappie

Buscando estilo pessoal, Neill Blokamp se repete mais uma vez nos temas e se choca com a própria história.

Por Pedro Strazza.

Enquanto diretor, Neill Blomkamp é um cineasta que não sabe delinear com exatidão o limite entre estilo do realizador e repetição de ideias. Se em Distrito 9, seu debute nos cinemas, o sul-africano trouxe novas ideias e conceitos para o gênero da ficção-científica, em seus dois trabalhos posteriores ele força em histórias bastante distintas suas concepções visuais e narrativas, como se impusesse a um livro de horror e um conto-de-fadas os mesmos temas e análises sobre a sociedade contemporânea.
Mas se com Elysium a vontade de Blomkamp fez submergir os vícios de seus roteiros, em Chappie ela só prova o dano que ele inflige às suas próprias histórias. Ainda que se encaixe em algum grau ao plano crítico da sociedade, o conto infantil escrito por Neill e Terri Tatchell não consegue trazer qualquer novidade ao ensaio do diretor sobre a humanidade, e se basta a refazer o mesmo caminho traçado em suas obras anteriores.
A distopia da vez criada pelo diretor é similar à proposta por Robocop, mostrando uma Johanessburgo onde as forças policiais humanas vão sendo progressivamente substituídas por robôs criados em uma empresa privada, a Tetravaal. Inventor do modelo de maior sucesso da firma, o engenheiro Deon Wilson (Dev Patel) quer dar maior autonomia de julgamento às máquinas, e concebe a primeira inteligência artificial para atingir esses fins. Sua criação, porém, é tomada por um trio de criminosos (Jose Pablo Cantillo e os rappers Yo-Landi Visser e Ninja), que começam a introduzir a criatura - chamada por eles de Chappie (Sharlto Copley) - em seu estilo de vida desde seu nascimento.
Essa trama com quê de Pinóquio possui naturalmente características e trajetórias próprias, mas é forçada por Blomkamp a trilhar o mesmo caminho de seus outros trabalhos. Dos protagonistas marginalizados pela sociedade ao sacrifício final em prol da causa contra o sistema opressor, ele se repete estruturalmente e acrescenta nada à sua tese, orgulhoso de sua própria "genialidade" para considerar tal equívoco cometido. Quem sai perdendo é a jornada de maturidade do protagonista robótico, cuja centralidade dá espaço para o arco de transformação do sul-africano.
Por outro lado, o filme ainda consegue ser interessante quando tem esse seu viés conto-de-fadas explorado, mesmo que de forma superficial. O crescimento de Chappie pode não atingir seu potencial e afetar o mundo e as pessoas a seu redor em qualquer sentido, mas é suficiente para fazer o espectador acompanhar a história com um mínimo de interesse.
É essa visão infantil da história que, se fosse o foco da produção, poderia tornar Chappie naquilo que Blomkamp tanto almeja. As necessidades do cineasta, porém, em adaptar o filme em seus maneirismos e torná-lo parte de sua dissertação, além de querer entregar um clímax explosivo mesmo sem coerência, fazem a trajetória do robô ir em direção oposta, e contribuem para tornar cada vez mais evidente a queda vertiginosa do diretor.

Nota: 5/10