Han Solo - Uma História Star Wars

Leia a nossa crítica do mais novo derivado da saga!

Deadpool 2

Continuação tenta manter a subversão do original enquanto se rende às convenções hollywoodianas

Desejo de Matar

Eli Roth aterroriza ação do remake e não deixa os temas caírem na ingenuidade

Nos Cinemas #1

Nossos comentários sobre O Dia Depois, Submersão e Com Amor, Simon

Jogador N° 1

Spielberg faz seu comentário sobre o próprio legado em Hollywood sem esquecer do espetáculo no processo

domingo, 9 de novembro de 2014

Crítica: Interestelar

Falta encantamento com o universo em novo trabalho de Christopher Nolan

Por Pedro Strazza


Christopher Nolan se destaca como diretor no contexto cinematográfico atual por trazer lucro aos estúdios que o financiam com filmes autorais, algo bastante complicado de se realizar. Em menos de dez longas, Nolan construiu uma bem estabelecida reputação de "grande cineasta" através de verdadeiras obras-primas como A Origem, O Grande Truque e, claro, a trilogia O Cavaleiro das Trevas, trabalhando em todas com seu agora reconhecido estilo de fazer cinema.


Este seu procedimento de direção, porém, pode às vezes não contribuir como deveria às suas intenções, e Interestelar prova isso da maneira mais dolorida possível. O roteiro e outros aspectos deveras interessantes do nono trabalho do diretor, afinal, sofrem demais com as escolhas tomadas por ele para captar os acontecimentos retratados, tornando a obra irregular e em alguns momentos até incoerente com sua narrativa previamente estabelecida. E as consequências disso são severas.

Prometido desde sua concepção como inovador e brilhante, a trama de Interestelar parte de uma base não muito original: A extinção da humanidade. Após anos e anos de exploração da Terra, o planeta em que vivemos finalmente cobrou seu preço, e agora a sociedade alimenta-se apenas de milho e sobrevive a tenebrosas tempestades de poeira. Nesse mundo de dias contados vive Cooper (Matthew McConaughey), um engenheiro pai de dois filhos que vive com o pai Donald (John Lithgow) em uma fazenda do interior dos Estados Unidos. Preocupado com o futuro das crianças, ele aceita participar da missão final de uma combalida Nasa para, junto da Dra. Brand (Anne Hathaway) e dos especialistas Romilly (David Gyasi) e Doyle (Wes Bentley), atravessar um buraco de minhoca e verificar se três planetas localizados em outra galáxia tem potencial para ser habitados.

É uma ideia simples, mas que é desenvolvida no roteiro por Nolan e seu irmão Jonathan com uma complexidade fascinante em seus dois primeiros terços. Utilizando-se das teorias desenvolvidas pelo físico Kip Thorne e de conceitos básicos da física quântica, o longa encanta o espectador ao explorar o universo em um tom realista, através da visão de formações estelares impressionantes (não é todo dia que se vê um buraco-negro no cinema, convenhamos), e brincar de forma responsável com essas noções científicas. A história, assim, ganha a força e o peso ideais para progredir com vigor.

Outro ponto bastante positivo em Interestelar é a maneira como este se esforça em desenvolver suas relações humanas. Nolan, que sempre desprezou este lado em suas produções, traz visível preocupação em mostrar na primeira parte, por exemplo, a forte conexão emocional entre Cooper e a filha Murph (Mackenzie Foy quando criança, Jessica Chastain na fase adulta), cuja ligação é central no roteiro e importante para determinados segmentos da trama, através de atos isolados, como a perseguição ao drone. E mesmo que soe artificial em alguns momentos, a dramaturgia é suficiente para o público se conectar aos personagens e seus dilemas superficiais.

O acerto destes dois aspectos da produção, entretanto, não escondem os seus inúmeros defeitos técnicos e narrativos, gerados em sua maioria pelo estilo do próprio diretor. Isso porque algumas das características do cinema de Nolan acabam por se chocar com conceitos da ficção científica, e isso sublima pontos excelentes do filme. Dessa maneira, a necessidade do cineasta em abusar de diálogos expositivos subtrai das cenas o encantamento com o espetáculo visual oferecido aos personagens, enquanto o uso incessante de planos fechados e focados somente na reação dos atores entra em conflito direto com a belíssima trilha sonora de Hans Zimmer, que do uso de órgãos busca tirar do universo uma contemplação quase religiosa do que (não) é mostrado.

Mas o grande problema do longa sem dúvida é o seu terceiro e derradeiro ato, sabotado principalmente pelo absurdo narrativo que expõe. A pesada estrutura armada por Nolan, preparada em terreno racional, desaba quando trai seus conceitos físicos para elaborar um desfecho pautado no emocional, uma área que o diretor mostra dificuldade e é amparada somente pela sensível atuação de McConaughey. Incoerências são geradas, e a sensação final é de estranhamento.

Talvez pelos vícios de seu diretor, talvez pela promessa exacerbada, Interestelar é um filme que fracassa em suas ambições e tentativas bem intencionadas. É um fracasso, porém, bastante entretivo e curioso, do qual Nolan consegue emular bons momentos mesmo com todos os seus problemas. É um tropeço significativo na carreira do cineasta, sem dúvida alguma, mas não tão grave para o público perder a confiança nele e quebrar sua reputação.

Nota: 6/10

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Crítica: November Man - Um Espião Nunca Morre

Filme procura separar protagonista de James Bond, mas cai em roteiro clichê

Por Pedro Strazza

É inegável a afirmação de que a carreira de Pierce Brosnan nunca decolou de fato. Dono de um charme britânico quase estereotipado, o ator construiu sua reputação à partir de várias participações em pequenas e médias produções até ser escolhido nos 90 para viver a quinta encarnação do agente 007 nos cinemas, que viveu em quatro filmes. O estrelato proporcionado pelo papel, porém, não se refletiu da mesma maneira em sua trajetória profissional, marcada de forma profunda pela ligação feita com James Bond e arruinada após o fim desta e uma sequência de personagens superficiais e muito fracos.
Agora, mais de doze anos depois de sua última aparição como o célebre espião britânico, Brosnan retorna ao gênero que o levou à fama, mas na pele de outro agente secreto baseado na literatura: Peter Devereaux, o protagonista do livro There Are No Spies, cuja história foi adaptada para as telonas sob o nome de November Man - Um Espião Nunca Morre. Dirigido por Roger Donaldson, o longa traz a Pierce um cenário bem similar aos filmes de Bond: Uma trama internacional, uma mocinha bem bonita a ser salva (interpretada pela -surpresa! - ex-bond-girl Olga Kurylenko), muitas reviravoltas, traições, pancadaria e, claro, espionagem.
Seria o caminho perfeito para o ator fazer o que mais sabe fazer de melhor e quiçá progredir enfim em sua carreira, se não fosse por um pequeno e grave problema central da própria produção. Consciente dos riscos de parecer uma cópia descarada das aventuras do personagem criado por Ian Fleming, a obra cinematográfica tenta a todo custo tornar seu herói em um alguém completamente distinto de 007, mas no processo esquece-se de contornar na história os clichês do gênero. E o resultado obtido desta tentativa é doloroso, pois November Man torna-se uma sequência inacreditável de clichês sem graça e óbvios, arruinando assim qualquer curiosidade do espectador em acompanhar a trama e seus desenrolamentos.
O desinteresse do público já se inicia à partir da maneira como é apresentado ao protagonista. Buscando afastar o personagem de seu próprio passado, Brosnan é obrigado a compor em sua atuação um Devereaux ríspido, sarcástico e arrogante, e torna impossível as chances do espectador se conectar com ele. Sobra no espião da vez frieza e até(!) crueldade sem sentido, e falta a ele emoção e humanidade.
A necessidade injustificável e os esforços de Brosnan em tentar tornar real essa distinção, porém, não se refletem em quase todos os outros aspectos do longa, que leva a cartilha do gênero de espionagem inadvertidamente ao pé da letra. Situações previsíveis acontecem, personagens superficiais se revelam ainda mais rasos, surpresas nada surpreendentes acontecem... tudo tenta soar como novo, mas é reciclado de inúmeras obras. Mesmo os principais coadjuvantes, interpretados com diferentes níveis de engajamento por Luke Bracey e Kurylenko, se perdem na obviedade - e nesse quesito é inacreditável ver como Olga trabalha aqui com um papel IDÊNTICO ao que fez em Quantum of Solace.
Pautado ainda por um roteiro repleto de erros de continuidade (que inclusive são apontados em cena, como o emblemático "É sério que você vai fazer isso com apenas seis agentes?") e cenas de ação pessimamente orquestradas, November Man se espatifa na tentativa superficial e mal-feita de não trazer uma identificação imediata com outro produto. Para o espectador, um filme genérica; para Brosnan, mais um erro em sua carreira.

Nota: 3/10

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Crítica: Tim Maia

O som, a fúria e a luta

Por Pedro Strazza


Um dos principais representantes da musical soul brasileira, Tim Maia tinha uma personalidade um tanto explosiva. De família negra e de baixa renda, o cantor lutou muito para lançar sua música na rádio e na televisão, e sua personalidade feroz e agressiva foram muito necessárias nesse processo de ascensão. Quando enfim alcançou o estrelato, porém, a fúria antes positiva tornou-se sua maior inimiga, querendo destruir tudo o que conseguiu e o afastando de amigos e familiares, e logo precisou ser combatida pelo próprio.
Isso, pelo menos, é o que sua cinebiografia procura passar em mais de duas horas de projeção. Baseado fundamentalmente no livro Vale Tudo: O Som e a Fúria de Tim Maia, de Nelson Motta, o longa comandado por Mauro Lima reconta a difícil trajetória do compositor desde sua infância na Tijuca até os últimos dias de vida, e toma como constante essa sua agressividade. Em Tim Maia, o personagem interpretado por Robson Nunes na juventude e por Babu Santana na idade adulta traz como característica a violência, seja na atitude folgada e repleta de sarcasmo ou no uso exagerado de drogas e estimulantes.
Mas então qual seria a origem de tal ira? Para Lima, que roteiriza com Antonia Pellegrino o texto de Motta, o jeito violento de Maia vem de sua própria formação, sempre clara em esclarecer as injustiças da sociedade àqueles de origem econômica e racial similar a ele. Condenado por todos a viver com pouco e sem um tostão no bolso, a única maneira pela qual o protagonista melhoraria de vida não poderia ser outra senão pela insistência e o jeito malandro, que juntas a outras características semelhantes formariam a impulsividade emocional do cantor e o guiariam ao sucesso musical.
É neste contexto de luta social, portanto, que o filme conduz sua narrativa, aliando no processo o aprendizado e duro caminho musical tomado por Tim. Mais curioso, porém, é perceber como a obra realiza esta última, dividindo a trama em duas partes distintas: Na primeira, acompanha-se dos primeiros passos aos esforços tomados por Maia para se estabelecer no mercado - recompensados, enfim, com o uso de uma letra sua por Roberto Carlos (George Sauma) -, através de uma fotografia pautada em cores frias e de época; na segunda, dos primeiros sucessos ao fim prematuro, em tons quentes e com muito uso do claro e escuro.
Essa separação temática flui muito bem para a produção, e ajuda bastante no trabalho de caracterização dos dois atores escolhidos para viver o protagonista. Enquanto Nunes compõe um Tim Maia já explosivo na juventude, mas capaz ainda de dosar suas ações exageradas, Santana surge na vida adulta do compositor quase igual ao próprio, incorporando trejeitos e a voz do cantor, para passar a raiva e frustrações sucessivas do personagem ao espectador. Nesse contexto, a direção de Lima é inteligente ao transformar a ira de Maia em momentos cômicos, esvaziando a produção de uma indesejada tensão.
O acerto do diretor nesse aspecto, porém, não se reflete na narrativa, prejudicada em vários pontos por estruturas e recursos óbvios. A narração em off de Fabio (Cauã Reymond, bem no papel), por exemplo, em diversos momentos parece saída do próprio livro e denota uma inconveniente sensação de preguiça do roteiro em mostrar na tela tais eventos mencionados pelo músico amigo de Tim, ao passo que a trama dramatiza de forma boba ações por si só auto-explicativas. Falta à produção a criatividade e ousadia de seu protagonista, e com isso a obra perde força.
Genial, insistente, amigo e irritante foram alguns dos vários adjetivos atribuídos a Tim Maia em sua vida de exageros e atrasos. Sua personalidade complexa e seu talento como cantor e compositor o tornaram inegavelmente uma pessoa intrigante, e sua cinebiografia comprova a profundidade de seu ser. Mesmo convencional em suas escolhas técnicas, Tim Maia é um filme com uma análise de um personagem tão profundo e interessante, ao qual faz com relativo sucesso e cuidado criativo.

Nota: 8/10

sábado, 1 de novembro de 2014

Crítica: Boyhood - Da Infância à Juventude

Novo trabalho de Richard Linklater encanta pela abordagem sensível e sutil de tema complicado

Por Pedro Strazza

O tempo é uma entidade poderosa em nossa existência. É ele que presencia todas as histórias criadas e desenvolvidas, acompanhando o nascimento, o crescimento e o fim de cada uma das vidas humanas. Seu maior poder, entretanto, é a sua continuidade eterna, que por não parar oferece a nós, seres humanos, poucas oportunidades de olhar para trás e compreender o quão rápido nos modificamos em um curto período de... tempo. Pois afinal, quem não mudou seu perfil, mesmo que levemente, após um ano (ou um mês, ou uma semana, ou um dia...) de existência?
Esta reflexão existencial nada discreta deve ter sido um dos motivos para o diretor e roteirista Richard Linklater ter começado, no fim da década de 90, a produção de Boyhood - Da Infância à Juventude. De início com um pequeno elenco, o cineasta filmou nesses últimos doze anos a história sobre a infância e adolescência de Mason Jr. (Ellar Coltrane), assistindo em consequência o crescimento e envelhecimento natural de seus atores e atrizes. O resultado final de tal experiência cinematográfica é uma epopeia cotidiana sobre o tempo e seus efeitos, que são tratados por Linklater com cuidado e sutileza impecáveis.
Para alcançar tal graciosidade, o cineasta se utiliza de estruturas narrativas leves e muitas vezes clichê, mas se guia no processo somente pelo protagonista e as histórias que o cercam. Isso porque o filme, assim como a vida, é uma sequência de arcos intercalados e simultâneos: Grandes ou pequenos, eles são muitas vezes apresentados a Mason Jr. (e o espectador, com isso) em segundo plano, e ganham destaque e maior relevância a cada ano passado. E isso se observa principalmente em coadjuvantes como o professor Bill Welbrock (Marco Perella), cujo casamento com Olivia (Patricia Arquette) e o problema com a bebida vão do auto-controle feliz ao desastre completo em questão de minutos no longa.
O grande destaque de Boyhood, porém, são os arcos desenvolvidos por Mason Jr. e sua família, construídos psicologicamente por Linklater com tanta eficácia. Sem nenhum alarde, o filme evidencia o perfil do protagonista e seus membros familiares mais próximos pelos pequenos atos e detalhes, como o carro que o pai Mason (Ethan Hawke) usa na grande maioria do longa, as desastrosas escolhas de marido feitas pela mãe Olivia após o primeiro casamento ou até o comportamento mais rebelde da irmã Samantha (Lorelei Linklater) quando criança. É destes minimalismos que o diretor guia o espectador na passagem do tempo e suas mudanças, e o faz aceitar com naturalidade as escolhas tomadas pelos personagens.
Mas a compreensão do caminho tomado é bem mais fortalecida no protagonista, interpretado com excelência por Ellar Coltrane. Sendo a pessoa que mais sofre alterações físicas e emocionais, a trilha percorrida por Mason Jr. é captada pela obra com sensibilidade suficiente para que o público se envolva com ele e sinta suas dores e vitórias conforme cresce. O acerto maior da produção, entretanto, é a capacidade de manter no personagem, da infância à juventude, o mesmo perfil doce e calmo, tornando-a uma constante em toda a metamorfose temporal realizada.
A maneira como o filme faz passar o tempo é outro ponto muito bem elaborado. Sem precisar pontuar de forma clara através de uma legenda ou coisa do gênero, Linklater torna perceptível a mudança de ano por meio da própria mudança física das pessoas que acompanha (o cabelo de Mason Jr., por exemplo) ou de diálogos, objetos e eventos bastante temporais, como músicas, videogames, lançamentos de livros e campanhas políticas - e inclui, em um clássico papo pai-e-filho, até uma não planejada ironia bem humorada com o futuro de Star Wars.
Com discussões sobre assuntos universais e uma narrativa leve e tocante, Boyhood - Da Infância à Juventude é uma experiência cinematográfica fascinante, capaz de discursar sobre o tempo e a humanidade com sensibilidade. Com uma história do cotidiano e sem nenhuma grande reviravolta, Linklater traz à tona uma obra-prima que aborda com delicadeza do tempo, um tema tratado tantas vezes com peso pelo cinema. E a prova maior do sucesso da produção é o próprio espectador, que termina o filme com a sensação de querer ver mais da vida de Mason Jr. e sua família.

Nota: 10/10

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Crítica: À Procura

Busca por menor fracassa nos aspectos técnicos da produção

Por Pedro Strazza


Existem vários maneiras de se enxergar um sequestro. Pode-se analisar o evento e todo as suas propagações através da perspectiva dos indivíduos responsáveis por tal crime, como também é possível tomar o ponto de vista das vítimas mantidas em cativeiro por estes ou até pelas pessoas afetadas de forma indireta pelo rapto. Seja qual for, é importante para aquele que analise esse tipo de acontecimento um posicionamento, que irá se refletir em toda a obra acerca do assunto.
Em À Procura, essa lógica "pessoal" parece ser desconsiderada. Pela fotografia pautada em cores frias e as cenas localizadas em diversos espaços temporais da trama, o diretor Atom Egoyan demonstra já no início do filme uma tendência à imparcialidade quanto à história que irá contar, e desenvolve isso ao adotar em sua narrativa diversas linhas de continuidade. Para ele, afinal, o relato do longo desaparecimento da jovem Cass (Peyton Kennedy quando criança, Alexia Fast na adolescência) não tem como ser abordado apenas sob a perspectiva de seus pais ou da polícia, mas sim por todos os envolvidos no caso - seja emocionalmente ou criminalmente.
De fato é uma escolha curiosa na teoria, mas na prática revela-se muito mal aplicada. O roteiro escrito por David Fraser e Egoyan aposta em desenvolver a temporalidade da história de forma não-linear, mas equivoca-se ao estruturá-la sem nenhum indicativo claro do quando seus eventos ocorrem, deixando a trama confusa em diversos momentos. Além disso, o texto do filme superficializa seus personagens em estereótipos aborrecidos, como o do pai de inteligência limitada (pelo menos é isso que Ryan Reynolds passa em sua atuação) ou o do sequestrador que se apega à sua vítima.
Não bastasse esses defeitos, o roteiro ainda é permeado por gravíssimos erros de continuidade, esclarecidos pela péssima montagem de Susan Shipton. Cenas envolvendo a força policial conduzida pelos personagens de Rosario Dawson e Scott Speedman, por exemplo, evidenciam várias vezes uma clara inabilidade profissional destes com o caso, e tornam ridículo todo o suspense em cima da situação. Para piorar, a trilha sonora pouco inspirada de Mychael Danna é usada de forma boba para pontuar mal a história, e consequentemente prejudica o ritmo do longa.
Incapaz de revelar seus mistérios na hora certa e dotado de um desfecho sem graça, À Procura é um fracasso contundente como análise da situação ou exercício de gênero. Para a obra, falta a tensão climática ou os personagens de intenções mais profundas para tornar o sequestro da criança mais preocupante ou instigante para seu espectador, que, sem estas características, só pode rir dos feitos artificiais feitos pelos protagonistas em sua procura supostamente desesperadora.

Nota: 1/10

Crítica parte da cobertura da 38° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (2014)

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Marvel anuncia Fase 3 nos cinemas e U-A-U

Demorou, mas finalmente aconteceu. Em evento especial realizado no cinema El Capitan, em Los Angeles, a Marvel Studios anunciou hoje para o mundo toda a sua INCRÍVEL agenda da chamada Fase 3 nos cinemas, que vai até o primeiro semestre de 2019. No planejamento do estúdio, vários rumores se confirmaram, incluindo projetos e até escolhas de elenco, mas houveram MUITAS surpresas!
Vamos ao calendário:

  • Em 2016, chegam às telonas Capitão América 3 - GUERRA CIVIL(!!!) e Doutor Estranho, respectivamente nos dias 6 de maio e 4 de novembro;
  • Para 2017, a Marvel vem pela primeira vez com três filmes no cardápio: Guardiões da Galáxia 2 (5 de maio), Thor - Ragnarok (28 de julho) e Pantera Negra (3 de novembro);
  • No ano de 2018, novamente uma trinca de filmes, agora com Vingadores - Guerra Infinita: Parte 1 (4 de maio), Capitã Marvel (6 de julho) e Inumanos (2 de novembro);
  • E em 2019, a Marvel fecha sua terceira fase nas telas com a segunda parte de Vingadores - Guerra Infinita, que sai no dia 3 de maio.
Outro anúncio importante feito por Kevin Feige (presidente da Marvel Studios - e agora do mundo nerd) na ocasião foi a oficialização de Chadwick Boseman como intérprete do Pantera Negra, que além de ter confirmado seu filme solo e sua participação no terceiro capítulo da história de Steve Rogers ganhou uma primeira imagem conceitual de seu visual nos cinemas:

domingo, 26 de outubro de 2014

Crítica: Relatos Selvagens

Fúria irracional e cômica permeia antologia do cotidiano

Por Pedro Strazza

Se violência gera violência, o mundo de hoje está perdido, e o argentino Damián Szifrón sabe muito bem disso. Em Relatos Selvagens, seu terceiro longa-metragem como diretor, o cineasta traz na série de pequenos contos a agressividade do cotidiano, que acontece nos mais diferentes níveis e por diferentes razões. Elas carregam, entretanto, uma característica em comum: Todas foram geradas pelo ser humano e seus atos egoístas.
O egocentrismo de fato é um tema presente em todas as seis histórias escritas por Szifrón. Do pequeno prólogo que envolve uma série de coincidências absurdas em um avião até o desfecho em um casamento fadado ao fracasso, o filme traz em sua rica variedade de personagens a constante do privilégio aos próprios objetivos, e ensaia em alguns momentos um discurso de que a sociedade estaria em queda justamente pelo descaso com o próximo. O segmento Bombita, estrelado por Ricardo Darín, é o que mais evidencia essa tendência crítica da obra ao evidenciar a violência gerada pela relação submissa que o povo de forma insatisfatória tem com a corrupção.
Sob este aspecto, o problema maior do trabalho de Damián é a necessidade em precisar pontuar violentamente (ah, a ironia) a narrativa com pequenas lições de moral a cada novo capítulo mostrado. Sem sutilezas, o texto ácido do cineasta discorre críticas a diversos setores da sociedade, apontando-os como supostos culpados do estado agressivo que a humanidade vive. Discurso este que, claro, irá encontrar simpatizantes em vários espectadores insatisfeitos com o modelo atual de governo ou com os rumos da sociedade.
Digressões teóricas à parte, Relatos Selvagens é incrível pela maneira como constrói e evolue as suas cenas cotidianas de violência para causar humor. Sempre vindo de longe - repare como Szifrón mostra o perigo chegando ao personagem de Leonardo Sbaraglia e seu carro em O Mais Forte -, a fúria irracional é levada ao extremo pelo diretor e roteirista em cada um dos contos, e suas consequências desproporcionais aos eventos iniciais geram um humor negro dos mais risonhos. Não à toa, portanto, que as histórias dos motoristas e do casamento se destaquem com naturalidade das outras (também excelentes e muito interessantes) quatro, pois seus desfechos são os mais absurdos e hilários.
É na capacidade de fazer rir pelo exagero da violência cotidiana que o filme ganha força em sua narrativa e cria interesse nas histórias que conduz com sagacidade e bom ritmo, e não pelo discurso subtextual construído nestas. O grande truque empreendido por Szifrón aqui, porém, é o de oferecer em Relatos Selvagens os dois caminhos simultaneamente, sem prejudicar um ou outro no processo. Violência gera muita violência, mas isso não quer dizer que não possamos rir um pouco dela.

Nota: 8/10

sábado, 25 de outubro de 2014

Crítica: Drácula - A História Nunca Contada

Vampiro vira super-herói na história que nunca deveria ter sido contada

Por Pedro Strazza

Não é de hoje que a Universal quer ressuscitar sua franquia de monstros. Conhecida no passado pela produção desses filmes (e que incluem aí versões famosas como a de Drácula com Béla Lugosi), o estúdio vem tentando, principalmente na última década, trazer de volta estas criaturas às luzes do sucesso, e para isso cometeu obras como a trilogia A Múmia. Mas os retornos cada vez menores de bilheteria do gênero levaram a empresa a progressivamente abandonar o projeto e procurar por novos, e os seres fantásticos do horror dessa maneira foram deixados para outro momento.
O sucesso da Marvel Studios em conceber um universo lucrativo nos cinemas levou a Universal, entretanto, a repensar o planejamento. Querendo uma mínima parcela do sucesso da empresa dona dos Vingadores, o estúdio resolveu tomar como base sua concorrente e transformar a sua franquia em um universo de monstros, de forma a potencializar o sucesso financeiro destes. E o primeiro capítulo desta nova fase das criaturas é Drácula - A História Nunca Contada, centrada justamente no famoso vampiro de Bram Stoker e sua origem.
O estúdio acreditou mesmo, porém, que o formato cinematográfico dos heróis da Marvel poderia ser aplicado passo a passo em qualquer tipo de gênero, e logo no início de seu universo cometeu um erro básico. Interpretado por um dedicado Luke Evans, o Drácula dessa história emana quase sempre os valores e características típicas de um herói dos quadrinhos, mas nunca o perfil do personagem original. Assim, sai de cena o vampiro sedutor e mortal, e entra o homem vítima dos acontecimentos à sua volta e que tenta ser bom da melhor maneira possível.
O roteiro de Matt Sazama e Burk Sharpless também sofre muito dessa interpretação superficial. A visão da guerra e das afetadas por ela, um dos temas centrais da trama, é rasa e prejudicada por metáforas óbvias - "Vocês marcharão sob meu comando com a visão obscurecida" diz em certo momento o vilão Mehmed (Dominic Cooper) -, e o arco trilhado pelo protagonista no longa carece de melhor formatação e execução. Em linhas gerais, o filme dá impressão de que Vlad Tepes (o futuro Drácula), mesmo insistindo no contrário, governe não por seu povo, mas por sua mulher (Sarah Gadon) e seu filho (Art Parkinson).
Ainda dirigido sem imaginação por Gary Shore nas cenas de ação e com um clímax perdido e sem nexo, este Drácula - A História Nunca Contada acrescenta nada novo e interessante ao vampiro mais famoso de todos e sua história. O potencial do universo iniciado, por outro lado, é visível no personagem de Charles Dance, que entre frases de efeito clichê e ações supostamente tenebrosas dá um caminho curioso para os monstros da Universal. Isso, pelo menos, se o estúdio der mesmo continuidade a seu projeto.

Nota: 3/10