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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Crítica: Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre a Existência

Roy Andersson, o comediante filósofo (ou é o contrário?)

Por Pedro Strazza

O humor é uma forma curiosa de se interpretar e criticar a sociedade e o ser humano. Pelo riso, diversos cineastas já trouxeram às telonas diversos temas sociais e filosóficos sob os mais variados ângulos, empregando a estes sua própria visão (geralmente com muito sarro) do assunto. E quando bem trabalhado, este processo "analítico-risonho" iniciado pelo "humorista" pode gerar um impacto estarrecedor no espectador.
No mundo do cinema, existem vários mestres do riso conhecidos por essa maneira pensante de fazer o público rir, e um deles é Roy Andersson. Sueco, ele é responsável por este Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre a Existência, filme que lhe rendeu o Leão de Ouro no Festival de Veneza e encerra a sua trilogia "sobre ser um ser humano", iniciada por Songs From the Second Floor e Vocês, os Vivos.
O longa apresenta desde seu primeiro minuto todas as características de Andersson como diretor e roteirista. Pautada por vinhetas, a narrativa traz em meio à várias subtramas a história de Jonathan (Holger Andersson) e Sam (Nils Westblom), dois vendedores "de entretenimento" que procuram sobreviver da melhor maneira possível na fria e complicada Sué...
Ok, pra falar a verdade isso não interessa tanto. O que de fato importa (e impressiona) em Um Pombo é a maneira como Roy filma suas situações bizarras e as excêntricas pessoas envolvidas nestas, e como ele une todas elas para criar sua "teoria" sobre nós, seres humanos, e a existência. É pelos planos estáticos que forçam a evidência do ponto(s) de fuga - e que consequentemente fazem saltar à tela os cantos das paredes - dos cenários de cores frias e de seus personagens de duro movimento e faces pálidas, afinal, que o cineasta trabalha o seu pensar filosófico sobre a humanidade e suas problemáticas universais e eventualmente tira do público alguma risada alta ou disfarçada, fazendo-o refletir sobre aquilo que lhe é apresentado. Aqui, Andersson dá a impressão de ser um teórico disfarçado de humorista - ou pior, ser um humorista disfarçado de teórico! -, e parece transformar sem pudor algum a tela em um palco de teatro sueco (ou não) para alcançar seus objetivos.
O jeito como o diretor liga tudo isso, porém, é o grande atrativo de sua obra. Através da peculiar estrutura descrita acima, Andersson forma a sua narrativa por meio de elementos e personagens que como o refrão de uma música voltam para emendar os segmentos mostrados de forma sutil e risonha, a exemplo dos arrulhos de pombos que nunca aparecem ou da afirmação "Fico feliz de saber que você está bem", repetida cada vez mais dolorida pelas pessoas em cena. A recorrência da figura do pombo, por sinal, parece trazer à tona uma comparação curiosa entre a ave e o homem, como se nós, mesmo com toda a nossa complexidade, fôssemos tão ridículos e inúteis quanto o pássaro.
Deu pra ver o poder de reflexão do filme nesta última afirmação? Pois é isto mesmo que Roy Andersson procura e atinge em Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre a Existência. Na loucura e na comicidade, o sueco atinge uma profundidade filosófica invejável sobre o universo e todo o mais, e faz sair pensativo da sessão até o mais superficial dos homens. Ou assim ele espera.

Nota: 10/10

Crítica parte da cobertura da 38° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (2014)

Crítica: Dois Dias, Uma Noite

Os 16 desafios de Marion Cotillard

Por Pedro Strazza

O cotidiano sempre oferece histórias interessantes, e o cinema é muito consciente disto. Em meio às suas biografias glorificantes e seus épicos estrondosos, a indústria cultural e seus envolvidos encontram no dia-a-dia da sociedade tramas repletas de intrigas, reviravoltas, momentos cômicos e dramáticos e (principalmente) de personagens profundos, às quais transmite ao grande público por meio de suas grandes telas e seus exageros artísticos - pois afinal, quem gostaria de assistir a um filme que não tenha um pouco da famosa "fantasia do cinema"?

A resposta são os irmãos belgas Luc e Jean-Pierre Dardenne, que preferem não se utilizar desses excessos para contar suas histórias ambientadas na dura realidade e provam isso mais uma vez com este Dois Dias, Uma Noite. Com roteiro e direção da dupla, o longa acompanha Sandra (Marion Cotillard), uma operária que certo dia descobre que está prestes a ser demitida do lugar onde trabalha após uma votação entre seus 16 colegas sobre escolher, em tempos de recessão econômica, entre ou o bônus de final de ano ou o emprego dela. Conseguindo um novo sufrágio, ela e seu marido Manu (Fabrizio Rongione) tem então dois dias (e a uma noite do título) para conseguir convencer a maioria dos trabalhadores a mudar o voto e desta maneira manter a sua vaga no trabalho.

Com uma estrutura narrativa simplória - e que nunca deixa de negar esta condição - em mãos, os irmãos Dardenne realizam um curioso estudo em cima de sua protagonista. De frágil condição psicológica, Sandra, através de suas crises de choro e dos comprimidos que toma repetidas vezes, demonstra uma instabilidade latente a cada pessoa contatada e resposta recebida, mas por precisar de seu emprego ela é obrigada a sempre ter de encontrar forças para continuar na luta por ele. Para isso, os diretores (também autores do roteiro da produção) filmam Sandra e suas ações em longos planos, optando sempre por não mostrar diretamente seus momentos de maior vulnerabilidade quando estes acontecem - só reparar, por exemplo, na maneira como vemos ela se medicar ao longo da projeção.

Ainda sob esse aspecto, a atuação de Cotillard é decisiva para o filme, pois incorpora todas as dores sentidas à seu movimento e postura para evidenciar o quão alquebrada é a delicada personagem. A atriz também é muito eficiente ao mostrar de forma clara que Sandra, em meio à sua fragilidade, de fato se importa com seus colegas de trabalho e seus problemas econômicos, mesmo estes sendo responsáveis por decidir o rumo da vida dela e de sua família.

A abordagem narrativa dos outros funcionários é outro ponto forte da obra. De diferentes origens sócioeconômicas, mas ainda assim carregados de problemas muito parecidos, os operários procurados pela protagonista tem seus entraves e deficiências financeiras evidenciados para o espectador por elementos visuais claros como filhos e casas. As crianças, por sinal, ganham na visão dos Dardenne uma atribuição levemente negativa, simbolizando um motivo a mais para seus pais estarem em uma situação mais complicada para pagar as contas.

Centrado em uma protagonista de personalidade profundamente fragmentada e que vive em uma sociedade prejudicada pela economica, Dois Dias, Uma Noite é mais um trabalho interessante dos irmãos Dardenne focado no drama real do cotidiano. Para os cineastas, não importa se o ser humano é frágil ou forte, mas sim se este é capaz de sobreviver aos desafios da rotina.

Nota: 8/10

Crítica parte da cobertura da 38° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (2014)

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Crítica: Livre

Reese Whiterspoon tenta, mas não consegue salvar filme de seu diretor

Por Pedro Strazza

Os filmes de sobrevivência, conhecidos lá fora como survival films, dependem de alguns elementos específicos para que funcionem propriamente. Levando aos limites a vida de seus personagens, tais obras precisam provocar no espectador, por exemplo, a sensação de isolamento vivida pelo protagonista (ou protagonistas, de vez em quando) naquele momento, elevando com isso a tensão natural dos fatos apresentados. Outro ponto bastante necessário é a presença do intérprete, que tem de ser capaz de trazer o público para dentro da situação e fazer com que este torça por ele em sua luta pela vida. É um papel que muitas vezes requer talento, e por isso talvez faça do subgênero um bom caminho a temporada de premiações nas categorias de atuação.
Depois de vermos atores como Tom Hanks, James Franco e Robert Redford se aventurarem sozinhos nessas histórias de superação própria em meio à iminente morte, é a hora de Reese Whiterspoon provar que também consegue fazer parte deste grupo de sobreviventes - ou morrer tentando, pelo menos. Em Livre, a atriz ganhadora do Oscar interpreta Cheryl Strayed, uma mulher que resolve percorrer a Pacific Crest Trail, uma das trilhas mais difíceis dos Estados Unidos, em homenagem à sua falecida mãe (Laura Dern), ao qual glorifica como modelo de vida. Solitária nesta jornada, ela terá de enfrentar perigos e obstáculos complicados, como comida fria, cobras, montanhas, botas pequenas e...
...uma produção de gosto duvidoso. Conduzido pelo diretor Jean-Marc Vallée, o filme - que é baseado em fatos reais - parece querer impedir o espectador de se conectar com sua protagonista em seu duro caminho trilhado, através dos inúmeros personagens secundários (e terciários, quartenários, etc.), que aparecem para socorrê-la nos momentos mais difíceis, ou da desequilibrada montagem de Martin Pensa e do próprio Vallée, que além de uma voz da consciência realiza cortes rápidos para flashbacks e sonhos muitas vezes desnecessários. Desta forma, a jornada empreendida por Cheryl torna-se rapidamente uma chatice previsível, já que seus maiores desafios quase sempre serão solucionados por outro.
Mas se a direção é equivocada, a atuação de Whiterspoon é eficiente. Quando não está sendo prejudicada por seu diretor ou pelo roteirista Nick Hornby, a atriz entrega à Strayed uma personalidade tocante, capaz de nos poucos momentos disponíveis realizar o movimento de aproximação com o espectador. E Reese faz isso com sutilezas interessantes, a exemplo de sua relação com a gigantesca mala que carrega em suas costas - um simbolismo convincente para os problemas em sua vida - ou de seu relacionamento com sua mãe, bem trabalhada na mão de Dern.
A relação maternal e o trabalho do elenco principal não escondem do filme suas fraquezas, porém. A mão de Vallée, tão boa em Clube de Compras Dallas, pesa muito mal para o longa, que aqui e ali encontra respiros e momentos mais dignos. E paara um filme intitulado Livre, é irônico que falte a solidão e a sobrevivência características deste perfil.

Nota: 4/10

Crítica parte da cobertura da 38° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (2014)

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Crítica: A Despedida

Nelson Xavier incorpora canto de cisne de personagem em novo trabalho de Marcelo Galvão

Por Pedro Strazza

Logo em seus primeiros momentos, o filme brasileiro A Despedida já mostra ao seu espectador a intensidade emocional com o qual o impactará ao longo de seus noventa minutos através de uma tarefa relativamente simples: acordar. Quem desempenha esta ação, porém, não é alguém jovem e sadio, mas sim um homem velho e apelidado de Almirante (Nelson Xavier), que faz aqui um esforço quase sobre-humano só para se levantar da cama. Seus passos são lentos e a dificuldade é extrema, e ele não esconde sua felicidade em ainda conseguir realizar aquela atividade.

O Almirante sabe, entretanto, que seu tempo na Terra está acabando, e que sua vida em pouco tempo irá se esvair. Sempre atento ao relógio, ele sai de casa uma última vez para acertar as contas restantes e se despedir daqueles que ama de forma profunda, incluindo aí o dono de um bar (Nill Marcondes) do qual é freguês e sua amante Fátima (Juliana Paes), uma mulher muito mais jovem que ele pelo qual nutre um amor profundo.

É justamente este último dia do protagonista que o público irá acompanhar em A Despedida, cuja trama é baseado na história real de um falecido familiar do diretor e roteirista Marcelo Galvão. Assim como nas cenas iniciais, Galvão procura evidenciar no longa as dificuldades pelo qual o Almirante passa para realizar atividades simples, como escovar os dentes ou atravessar a rua, fazendo isto através do olhar sempre atento da sociedade (seja por seus transeuntes, seja por um mendigo sentado confortavelmente no chão) sobre o protagonista no segundo plano. Com isso, o diretor em vários momentos torna as tarefas do personagem muito mais complicadas não pela ação em si, mas sim pelo julgamento social exercido pela população em cima do idoso.

Essa visão sob o coletivo, porém, apenas permeia a estrutura narrativa da obra, que se encontra muito mais focada em observar as ações finais do Almirante. Com sua determinação admirável e sua personalidade marcante, o senhor de idade se conecta com o público por meio de atos simples e que revelam sua natureza simpática e bem-humorada. É por seus elogios frequentes às mulheres com quem fala (e admira com intensidade, como seu diálogo com um taxista bem explicita) e sua disposição em consertar os erros do passado que o espectador conhece e passa a gostar do Almirante, entendendo suas ações no processo mesmo sem conhecê-las de fato.

Mas a conexão que fazemos com o protagonista torna-se fundamental a partir do momento que a personagem de Paes entra em cena no terceiro ato do longa. A relação do idoso com a amante, muito bem esclarecida por Galvão como de mútuo amor, traz à tona a real felicidade do Almirante, que em determinado momento anterior a seu encontro com Fátima diz que "o homem pode ter tantas mulheres quanto quiser, mas apenas uma mulher o terá verdadeiramente". E a direção faz questão de deixar claro esse respiro dado pelo personagem ao esquentar a matiz de cores da produção no apartamento da amada, por exemplo.

Mas o crédito maior de A Despedida deve-se mesmo à atuação do casal protagonista. Se Paes emula em sua Fátima o amor sincero que sente pelo amante, Xavier incorpora a seu Almirante uma fragilidade visível e dolorida através de gestos simples como o tremular das mãos ou a dureza com a qual lida com o andador. Nelson, entretanto, é soberbo ao ser capaz de dar a seu papel um humor sincero, capaz de fazer o espectador rir mesmo nos momentos mais difíceis da trama.

Suave em sua história pesada e belo em sua abordagem sobre temas universais como a velhice e a morte, A Despedida é um filme de personagens profundos e bem interpretados, dirigidos por um Marcelo Galvão sutil e esperto em evitar o melodramático. A dor do iminente fim, poucas vezes encarada com leveza pelo cinema, ganha uma definição tocante nas mãos de Nelson Xavier e seu diretor.

Crítica parte da cobertura da 38° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (2014)

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Crítica: Acima das Nuvens

Olivier Assayas aborda o tempo e suas complicações através de mulheres protagonistas e profundas

Por Pedro Strazza

A vida às vezes pode ser brutal, e Maria Enders (Juliette Binoche) está experimentando isso. Atriz de renome e bastante assediada por diversas produções, ela está no meio do processo de seu divórcio quando recebe a notícia de que seu mentor e grande amigo Wilhem Melchior faleceu de forma súbita, justamente às vésperas de uma homenagem à sua carreira que Enders iria aceitar em seu nome. Desnorteada com a cadeia de eventos, Maria no mesmo dia se engraça com um antigo amor, ao qual fornece o número de seu quarto para ele fazer uma visita de segundas intenções a ela - que, pouco depois descobrimos, nunca acontecerá.
Este momento duro que a protagonista de Acima das Nuvens vive é apenas o começo dos problemas a serem enfrentados por ela aqui. Após participar da cerimônia em homenagem a ele e emocionalmente afetada com o ocorrido, Enders acaba aceitando voltar à peça de Melchior que a colocou no estrelato na juventude, agora em um papel bastante diferente. O texto, sobre um relacionamento lésbico entre uma jovem e uma mulher mais adulta, pede agora dela não o primeiro personagem, mas sim o último, do qual Maria nutre um asco irracional. Mas como ela precisa trabalhar sob este, Enders se refugia com sua assistente Valentine (Kristen Stewart) na casa de Wilhem nos Alpes para praticar e entrar na pessoa ao qual irá interpretar.
Estruturando o filme como uma peça de teatro - São 3 atos, incluindo aí o epílogo, e eles ocorrem em diferentes momentos temporais -, o diretor e roteirista Olivier Assayas começa à partir dessa premissa a analisar Maria e sua relação com o envelhecimento, uma questão que de início parece ser ignorada por ela com todas as forças. Seja nas conversas que tem com a assistente ou nas passagens que interpreta, a atriz denota em muitos momentos uma recusa a aceitar a passagem do tempo e suas consequências, mas não porque queira ficar para sempre jovem. Para ela, a velhice significa a perda progressiva de sua figura respeitável que construiu ao longo dos anos para as novas gerações, muito mais atraentes para a mídia com seus escândalos e casos amorosos - algo bastante esclarecido na participação decisiva da personagem de Chlöe Grace Moretz na última parte da obra.
A relação entre o velho e o novo é ainda mais reforçada pela convivência de Enders com Valentine. Confundindo suas personalidades com os papéis principais da peça de Melchior em muitos momentos, atriz e assistente (muito bem interpretadas por Binoche e Stewart) protagonizam discussões interessantes e bem humoradas acerca do assunto, que ganha simbolismos e pontas incisivas de ironia na própria narrativa do filme - as críticas e piadas de cunho metalinguístico com a indústria cultural atual, por exemplo. O grande acerto de Assayas neste quesito, porém, é o de deixar suavemente implícito no longa o passado amoroso entre as duas mulheres sem precisar demonstrar isto de forma evidente, tornando o relacionamento ali mais profundo e intrigante para o espectador.
Prejudicado um pouco pela montagem em alguns momentos artificial, Acima das Nuvens traz questionamentos problemáticos sobre o tempo e seus efeitos a partir da análise bem trabalhada de sua protagonista, que tenta inutilmente desacelerar o próprio envelhecimento e o consequente "esquecimento". Negligenciar o futuro por causa do passado é uma tarefa impossível, e esta lição Maria Enders irá aprender a duras penas.

Nota: 8/10

Crítica parte da cobertura da 38° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (2014)

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Crítica: Winter Sleep

Vencedor da Palma de Ouro traz visão desoladora da humanidade enquanto desconstrói seu protagonista

Por Pedro Strazza

Aydin (Haluk Bilginer) é um homem solitário. Mesmo sendo o dono de um pequeno hotel na fria e desértica Anatólia Central e que viva em companhia da jovem esposa Nihal (Melisa Sözen) e da irmã Necla (Demet Akbag), o ex-ator aparenta estar sempre isolado do mundo, e demonstra isto em sua postura encurvada e nas grandes olheiras presentes em seu rosto.
A tônica depressiva descrita no breve parágrafo acima é só um indício do quão desolador será Winter Sleep. Ganhador da Palma de Ouro, o novo trabalho do diretor turco Nuri Bilge Ceylan parte do dia-a-dia de Aydin para trazer à pauta complexos temas existencialistas da humanidade, ao qual discute em verborrágicas conversas entre seus personagens. Estes debates, porém, em nenhum momento trazem esperança ou sequer um lado positivo, refletindo-se de forma emocionalmente impactante naqueles que o debatem.
Mas as pessoas que aparecem em cena e cercam a vida do protagonista só tem sua personalidade afetada por essas discussões por justamente trazerem nessa um perfil falho e deveras machucado por seus erros passados, ao qual maquiam para conseguir viver bem consigo mesmas. Não à toa, Ceylan insiste em filmar seus personagens pelas costas, denotando uma clara necessidade destes em esconder seu verdadeiros medos e anseios do resto do mundo.
O real brilhantismo do filme, entretanto, é o de alinhar esse jogo social com a análise de Aydin e sua própria personalidade falha. Realizado substancialmente em três grandes temas - o problema com o inquilino, a briga com a recém-divorciada irmã e o problemático casamento com Nihal -, o longa desconstrói seu protagonista para revelar sua faceta contraditória, a de um homem que vive das glórias do passado de estrela e não consegue se decidir sobre qual caminho tomar no presente. E a atuação de Bilginer só torna ainda mais evidente os problemas de Aydin ao dar a este uma atitude não muito batalhadora e que pouco se importa com os outros - apesar de tentar demonstrar esta última levianamente em vários momentos da projeção.
O desenvolvimento narrativo de Winter Sleep é algo incrível ao conseguir juntar o questionamento existencial com uma análise de personagem contundente, mas é prejudicada de maneira severa pela própria direção e montagem da produção. Os diálogos, que chegam a levar mais de 20 minutos para serem concluídos, ganham um peso desnecessário na mão de Ceylan, tornando-os parados e monótonos. A edição, por outro lado, é arrastada e contribui para deixar a obra bastante cansativa em suas quase três horas e meia de duração.
Com um elenco excelente e um roteiro denso, Winter Sleep é um filme pessimista sobre a humanidade e seu protagonista, ao qual denota um perfil falho e irremediável. Mesmo lento em seus extensos diálogos, o longa traz através destes uma perspectiva depressiva sobre o ser humano, gerando impacto sobre o espectador. E nenhuma comparação com a humanidade é mais gritante que a visão de um cavalo escapando de uma poça de lama, mas incapaz de prosseguir depois de salvo.

Nota: 7/10

Crítica parte da cobertura da 38° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (2014)

domingo, 19 de outubro de 2014

ESPECIAL: 38° Mostra Internacional de Cinema de SP

Entre os dias 16 e 29 de outubro acontece em São Paulo a Mostra Internacional de Cinema. Em sua 38° edição, o evento traz 330 filmes nos mais variados formatos em 35 salas de 29 espaços, espalhados entre cinemas, museus e espaços culturais da capital paulista. Além da perspectiva internacional e nacional, a Mostra em 2014 dá destaque ao cinema espanhol e uma de suas maiores personalidades, o cineasta Pedro Almodóvar, que ganha uma retrospectiva completa de sua carreira.
A 38° Mostra terá cobertura do O Nerd Contra Ataca, cujas críticas e especiais você confere nesta página. Bons filmes!

Crítica: Boa Sorte

Carolina Jabor faz estréia eficiente e sensível na ficção cinematográfica

Por Pedro Strazza

A reabilitação é um processo duro para o ser humano. Admitir o erro e tentar repará-lo, afinal, torna-se uma tarefa difícil para um animal cujo orgulho, por menos que seja, está sempre presente, e voltar atrás para reaprender tudo de novo é morte a este pilar. Mas há momentos em que esse processo simplesmente não pode ser postergado.
João (João Pedro Zappa) está nessa encruzilhada. Viciado em um determinado remédio, o garoto acaba sendo internado pelos pais em uma clínica de tratamento após sofrer uma overdose, e passa a viver sobre uma rígida e aborrecida rotina de remédios e descaso. Isto, pelo menos, até conhecer Judite (Deborah Secco), uma mulher viciada em drogas e HIV positiva com a qual inicia uma forte amizade.
Boa Sorte, estréia de Carolina Jabor no cinema de ficção, parte desse improvável relacionamento para tocar em diversos temas enquanto desenvolve seus dois protagonistas. Abandonados pelos parentes e tratados como não importantes pelos funcionários da clínica, João e Judite vivem sozinhos em um mundo onde a individualidade é lei e o conjunto é desprezado, e como suas personalidades são frágeis eles não demoram a serem quebrados pelo sistema. Quando se conhecem, entretanto, ambos encontram um no outro uma espécie de porto seguro, um alguém que possa compreender seus medos e anseios, e podem assim começar a compartilhar com um outro aquilo que aprenderam até ali.
É a partir desse canal de comunicação que o filme ganha corpo e profundidade. Os diálogos protagonizados pela dupla "de loucos" traz conceitos tristes sobre a sociedade atual, como a invisibilidade dos dois para o resto do mundo. Estas passagens, porém, não tornam o longa depressivo por causa do trabalho de Jabor, que consegue tirar uma beleza sincera através de planos delicados e bem construídos - como em um plano-sequência em que focaliza seus dois protagonistas e Felipe (Pablo Sanábio) dançando pelos corredores do estabelecimento onde (sobre)vivem.
Sob este olhar, o roteiro de Jorge e Pedro Furtado é eficiente em elaborar personagens sensíveis e profundos em suas dores, e o trabalho do elenco é fundamental para tornar reais seus papéis. Se Zappa consegue envolver o espectador com seu João por meio da inocência e juventude deste, Secco entrega com o corpo cadavérico e as grandes olheiras uma Judite destruída por suas escolhas e próxima da morte, mas em sua atuação a dota de uma vivacidade e alegria sincera.
O filme não esconde, porém, as falhas e problemas que permeiam sua simples estrutura narrativa. A dualidade entre fantasia e realidade, por exemplo, é muito mal trabalhada pelo roteiro, que não consegue se firmar direito em um dos dois para justificar alguns dos acontecimentos da história, enquanto o personagem de Sanábio é superficializado e claramente pontual, assim como os de Fernanda Montenegro e Cássia Kiss, meros coadjuvantes de luxo na produção.
É por causa de defeitos tão incisivos e de um final que escorrega feio no melodrama que Boa Sorte acaba prejudicando em alguns pontos sua bela e triste história de amor. O talento da produção, liderado por uma diretora promissora, minimiza porém os erros dispostos com uma sensibilidade notável e suave, capaz de embelezar até o ponto mais escuro da breve vida de um casal de jovens.

Nota: 6/10

Crítica parte da cobertura da 38° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (2014)