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sábado, 18 de outubro de 2014

Crítica: O Juiz

Elenco sustenta filme convencional de tribunal a duras penas

Por Pedro Strazza

Ano a ano, a pré-temporada do Oscar oferece, além dos longas maiores que dominam a competição, filmes focados apenas em alguns aspectos técnicos para conseguir uma vaga na premiação, reconhecida como a mais famosa no mundo. Dentre estas produções, há um grupo que procura encaixar indicações principalmente nas categorias de atuação, onde o destaque é maior devido à fama dos atores. 
O Juiz é o mais recente trabalho cinematográfico a fazer parte deste conjunto, e em nenhum momento disfarça suas pretensões com a Academia. Repleto de estrelas em seu elenco, o filme acompanha Hank Palmer (Robert Downey Jr.), um advogado conhecido por inocentar criminosos nos tribunais que certo dia recebe a notícia do falecimento de sua mãe. Em respeito à morta, Palmer viaja até sua cidade natal e reencontra o pai, o juiz Joseph (Robert Duvall), cujo relacionamento não é dos mais amigáveis. Mas quando está prestes a deixar a cidade, Hank acaba tendo que voltar, pois o pai é acusado de um homicídio e o caso será levado ao tribunal da região.
Daí em diante a história segue sem nenhuma surpresa. Escrito por Nick Schenk e Bill Dubuque, o roteiro nunca parece disposto a tomar qualquer tipo de rumo mais desafiador, preferindo empregar momentos fáceis e sem criatividade. Dessa forma, não demora muito para que o espectador comece a adivinhar cada passo tomado pela narrativa, incluindo suas viradas, suas cenas dramáticas e até seus alívios cômicos.
A atitude “descriativa” no roteiro reflete-se também em todos os outros aspectos técnicos da produção. A direção de David Dobkin, por exemplo, restringe-se a planos e angulamentos que privilegiem o trabalho dos atores, enquanto o trabalho de Janusz Kaminski na fotografia procura composições óbvias – a oposição claro-escuro no tribunal chega a irritar de tão repetitiva e sem imaginação. A trilha sonora de Thomas Newman, por outro lado, surge apenas para ajudar o espectador em suas reações, como quando ele deve dar uma risada ou derramar algumas lágrimas.
Toda esta sensação de repetição, porém, é aliviada pelo trabalho de seu elenco muito bem escalado. Apesar dos papéis medíocres, as atuações de Downey Jr. e Duvall como protagonistas são fortes o suficiente para que o espectador consiga encontrar algum tipo de conexão mínima com os personagens, tornando suportáveis os eventos em tela. Neste meio tempo, as performances de atores de talento como Billy Bob Thornton e Vera Farmiga dão apoio suficiente, mesmo sendo mínimas devido ao tamanho de suas participações, para que os dois principais trabalhem com calma e paciência.
É justamente por esses trabalhos performáticos que o filme consegue render alguma coisa em suas longas duas horas de projeção. Dominado pelo óbvio e a zero criatividade, O Juiz é uma obra que lembra muito a telenovela, arriscando-se tanto quanto esta na concepção de sua história e narrativa. Uma comparação bastante infeliz, vide o objetivo preterido pela produção e seus envolvidos.

Nota: 5/10

Crítica: Pássaro Branco na Nevasca

Análise social e feminista é perdida para resolver principal mistério da trama

Por Pedro Strazza

Baseado no livro homônimo e escrito por Laura Kasischke, Pássaro Branco na Nevasca já traz em seu início vários elementos de qualidade que facilmente poderiam o tornar uma obra-prima: a trama curiosa, o mistério instigante, a protagonista profunda, o elenco talentoso. Estes componentes, porém, são mal direcionados na mão do diretor e roteirista Gregg Araki, que escolhe focar em temas e situações nada interessantes, e a produção transforma-se em algo inconveniente e aborrecido. Mas me precipito.
A trama é simples. Kat (Shailene Woodley), uma adolescente de 17 anos, tem a sua vida alterada profundamente quando sua perturbada mãe Eve (Eva Green) desaparece de forma misteriosa, deixando para trás nenhuma pista de sua localização. Com o sumiço da genitora, Kat ganha mais liberdade em casa, mas logo começa a ser obrigada a confrontar a dura realidade que a permeia e envolve pessoas próxima dela como seu pai Brock (Christopher Meloni), seu namorado Phil (Shiloh Fernandez) e o detetive Scieziesciez (Thomas Jane).
O estranho desaparecimento é utilizado por Araki na primeira metade do longa como um fio condutor eficiente. É a partir desse, afinal, que Pássaro Branco começa a arranhar a superfície de uma crítica à sociedade, realizando-o de fato através dos flashbacks que revelam o problemático relacionamento entre Kat e Eve. Apesar das discussões acaloradas e das brigas constantes, mãe e filha possuem o mesmo perfil de mulher poderosa e em crise com seu futuro pré-estabelecido de dona-de-casa, algo natural se pensarmos no contexto de ascensão do feminismo ocorrido no final dos anos 80 e começo dos 90, justamente a época em que se passa o filme.
Mais curioso, porém, é a maneira como o mundo é encarado por essas duas protagonistas. Pela fotografia quase sempre fixa e o design de produção recheado de cores berrantes, Pássaro Branco na Nevasca revela aos poucos em sua primeira parte uma sociedade repleta de homens unidimensionais e enfraquecidos, dominados por mulheres de futuro promissor e muito mais profundas em seus desejos. Não à toa, os três principais seres masculinos que circundam Kat - Brock, Phil e Scieziesciez - são claramente superficiais em seus desejos e ambições, buscando encontrar apenas uma vida feliz e livre de preocupações.
Mas essa construção crítica do social tão bem apresentada e elaborada pelo roteiro é logo sabotada pelos próprias estruturas primordiais do filme. De sua metade até seu encerramento, o longa abandona uma interessante análise de gênero sobre o mundo para solucionar o mistério que deu início a esta, e faz isso com a ajuda de clichês óbvios e sem graça. A narrativa perde o controle, a direção de Araki se desequilibra e as performances de seu elenco são afetadas seriamente, tornando caricatas atuações antes concisas e equilibradas de Green e Woodley.
Ao subjugar a trama a este processo enfadonho, Pássaro Branco na Nevasca sabota sua própria construção e transforma sua complexidade em algo bobo e desnecessário. E o desfecho da obra, tão anti-climático e mal conduzido, é a prova maior do erro cometido.

Nota: 4/10

Crítica parte da cobertura da 38° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (2014)

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Crítica: Festa no Céu

Bela animação traz valores diferenciados para público infantil

Por Pedro Strazza

Existem diferentes maneiras de se encarar a morte. A maioria da sociedade mundial e globalizada, fortemente influenciada pelos valores da cultura europeia, atribui ao evento uma conotação negativa pelo fato do falecimento afastar o ser humano daqueles que o amam. Há culturas, porém, que veem no fim da vida um recomeço ou o encerramento de um ciclo, tornando o fato digno de ser celebrado pela família e os amigos do morto.
O povo mexicano faz parte desta última tendência, e traz até em suas festividade uma data dedicada àqueles que se foram: o Dia dos Mortos, celebrado em 2 de novembro. E é justamente desta comemoração a base para a trama de Festa no Céu, filme dirigido por Jorge R. Gutierrez e produzido por Guillermo del Toro. No longa, a Morte e seu amante Xibalba, os dois guardiões do mundo dos mortos, fazem no dia da celebração dos falecidos uma aposta em cima de Manolo e Joaquin, que disputam arduamente pela mão de Maria. Se Manolo se casar com Maria, ganha a Morte; se for Joaquin, Xibalba vence.
É a partir desta competição entre imortais que a obra começa a se aprofundar pela mitologia indígena mexicana, trabalhando com ardor na tarefa de encantar e educar o público infantil no processo. Neste quesito, o design de produção orquestrado por Paul Sullivan e Simon Valdimir Varela é eficiente ao configurar um tom de cores cada vez mais explosivo conforme vai mudando de mundo. Se na realidade atual vemos uma cidade mais acizentada, na vila palco da fábula temos já um aumento considerável na matiz, e quando se avança para o mundo dos mortos usa-se com equilíbrio de tonalidades berrantes que se harmonizam entre si. Outro acerto é transformar os personagens do conto em criaturas de madeira, configurando à produção uma charmosa infantilidade.
O roteiro de Gutierrez e Douglas Langdale é outro bom aspecto de Festa no Céu. Mesmo que traga traços de didatismo excessivo e tenha um clímax dos mais incoerentes no terceiro ato, a história consegue se guiar bem e é capaz de não ser maniqueísta na forma como configura a maioria de seus personagens. Até Xibalba, por exemplo, que é presumido aqui como grande vilão da trama, age por interesses justificáveis.
Contando ainda com uma trilha sonora bela e bastante pautada na cultura mexicana, Festa no Céu é uma animação que se difere de outras por justamente trazer em seu interior valores diferentes dos que a sociedade está acostumada a ver. Apesar de apelar para estruturas narrativas óbvias, a criatividade da produção em apresentar uma outra visão para o público infantil é algo digno de palmas.

Nota: 7/10

Crítica: Foxcatcher - Uma História que Chocou o Mundo

Bennett Miller cresce como diretor em filme sobre a derrocada estadunidense

Por Pedro Strazza

O esporte é um tema que é visto pelo cinema das mais diferentes maneiras. Muitas vezes utilizado por diretores e roteiristas como base para a clássica história de superação pelo protagonista - seu maior exemplo sendo, claro, a franquia Rocky -, as práticas esportivas de forma geral são tratadas nas telonas como algo saudável e positivo ao ser humano, seja pela aplicação no dia-a-dia ou em seus torneios. É neste último que o cineasta encontra, inclusive, uma maneira de glorificar a conquista e a consagração, através das vitórias de seus personagens em um contexto de pura dedicação pessoal e suor.
Assim posto, é curioso ver como o diretor Bennett Miller filma com frieza o esporte em Foxcatcher - Uma História que Chocou o Mundo. Vencendo ou perdendo os campeonatos de luta greco-romana, os protagonistas do longa aparentam estar sempre com uma carga maior que o necessário em seus emocionais, impedindo-os de desfrutar plenamente da posição adquirida. Isso porque há algo maior em jogo aqui, e os três personagens principais sabem muito bem disso.
Baseado em eventos reais, Foxcatcher reconta a amizade dos irmãos lutadores Mark (Channing Tatum) e Dave Schultz (Mark Ruffalo) com John du Pont (Steve Carell), herdeiro da família mais poderosa dos Estados Unidos na época, e seus trágicos desenrolamentos. Apaixonado pelo esporte, du Pont procura e contrata os dois medalhistas olímpicos para que treinem em Foxcatcher, sua gigantesca propriedade, e representem os EUA e seu clã nos Jogos Olímpicos de Seul de 1988, buscando com isso reerguer o país, seus valores e seus heróis perdidos. A presença do milionário, porém, mostra-se aos poucos cada vez mais destrutiva para seus contratados, e aos poucos ele revela suas verdadeiras intenções com o projeto.
Mesmo que seja um falso objetivo de du Pont, o patriotismo é o grande tema abordado por Miller no filme. Muito mais incisivo e crítico que em seus dois primeiros trabalhos (os também ótimos O Homem que Mudou o Jogo e Capote), o diretor apresenta nos planos filmados uma visão decadente dos Estados Unidos, através de minimalismos contundentes como as diversas bandeiras estadunidenses hasteadas que nunca surgem tremulantes. Neste contexto, a trilha sonora de Rob Simonsen emana um falso nacionalismo, e é levantada para tornar dúbios os poucos momentos de glória da produção.
Mas qual seria a causa maior para a queda do antes poderoso império norte-americano? Na visão crítica de Miller, é a presença de famílias como a du Pont que, agindo por interesses próprios, contribuem para o esvaziamento da alma do país. John, por exemplo, avança pelo mundo do esporte por causa de uma vontade puramente mesquinha (que, por ser um grande spoiler do filme, não será revelado neste texto), e faz questão de exibir isso ao colocar o nome da propriedade da família em todos os uniformes utilizados por ele e sua equipe comprada. E como seu poder político e econômico é imensurável, nada o impedirá de realizar seus corrompidos desejos.
Para tornar visível este deterioramento, o filme conta com um elenco primoroso. Se Carell transmite, embaixo da pesada maquiagem que o deforma, todas as emoções vividas por seu John du Pont sem precisar mexer seu rosto ou sua postura (ambas sempre impassíveis e austeras), Tatum e Ruffalo surgem como contrapontos importantes ao evidenciar, a partir de atos simples, a pouca consciência de seus personagens com o gravíssimo panorama ao qual vivem. Quando Dave percebe, por exemplo, que feriu sem querer o emocional de John, Ruffalo deixa claro em sua performance a inocência do lutador, um homem tão simples e preocupado apenas com sua família - representada por seu irmão Mark (ainda mais inocente, visível principalemente no valor ao qual se vende a du Pont), sua mulher (Sienna Miller, desperdiçada) e seus filhos pequenos.
Por meio de uma história de conquistas pouco enaltecidas e derrotas impactantes, Bennett Miller invoca um alegoria das mais profundas acerca dos Estados Unidos e sua queda, dando com isso um passo importantíssimo em sua carreira como diretor. No subtexto bem trabalhado de Foxcatcher, o interesse privado venceu, e a América livre foi esvaziada de qualquer sentido maior.

Nota: 9/10

Crítica parte da cobertura da 38° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (2014)

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Crítica: Annabelle

Derivado imita com relativo sucesso a estrutura do longa original

Por Pedro Strazza

Usando com criatividade os clichês do gênero e mais atento ao uso do espaço e da tensão climática, Invocação do Mal conseguiu em 2013 reinventar o terror e suas convenções desgastadas sem adicionar qualquer elemento novo em sua trama ou em seu lado técnico. Com o sucesso do filme, uma continuação foi rapidamente agendada pelo estúdio, que, junto ao diretor James Wan, também demonstrou interesse em produzir mais longas baseados no universo demonologista de Ed e Lorraine Warren. A solução para este desejo foi a de transformar uma maléfica boneca presente no "museu" do casal e coadjuvante na película em protagonista, tornando-a estrela de sua própria história.

Assim nasceu Annabelle, filme que reconta o processo pelo qual o brinquedo se tornou amaldiçoado e a sua trajetória até a casa dos demonólogos. Roteirizado pelo estreante Gary Dauberman e dirigido por John R. Leonetti, a trama acompanha a gestante Mia (Annabelle Wallis) e seu marido John (Ward Horton), um típico casal suburbano que certo dia acaba sendo atacado por integrantes de uma seita satânica. Saídos ilesos do evento, a mulher começa a testemunhar estranhas ocorrências paranormais na casa, causadas pela presença da boneca amaldiçoada do título.

Da mesma maneira que Invocação do Mal, Annabelle logo se destaca por sua eficiência nos sustos que promove. Responsável pela fotografia do filme original, Leonetti é sagaz em desenvolver com frequência a ação do longa em dois planos, mantendo os personagens protagonistas quase sempre no primeiro para no segundo desenvolver o terror da produção. O mais inteligente desta estratégia empreendida pelo diretor, no entanto, é que somente em alguns momentos algo de fato acontece no fundo das cenas, mas o espectador, tensionado pelo que já ocorreu neste plano, fica constantemente atento à esta camada e seus eventos.

Outro ponto beneficiado pelo terror ao qual se busca atingir na película é o design de produção, que concebe uma Annabelle de visual desde o início apavorante e constrói apartamentos aterrorizantes até em plena luz do dia. Através destes, a fotografia de James Kniest progride sem quaisquer obstáculos na evolução sombria do longa, capaz de tornar até mesmo um antes adorável quarto de bebê em algo assustador, conforme a boneca ganha cada vez maior força.

Dedicado em excesso nessa tarefa de causar o susto pela tensão, o filme perde força porém em seus aspectos mais básicos justamente pela falta de alguém mais experiente no comando. Por mais que emende sequências interessantes de suspense com sucesso - e a passagem de Mia pelo porão é uma prova incontestável disso -, Dauberman e Leonetti tem pouco cuidado quando para, por exemplo, desenvolver o casal protagonista, que aliado às performances fracas de Wallis e Horton não conseguem criar qualquer elo emocional com o público. Este problema também é evidente com os coadjuvantes da história, aqui usados apenas como tapa-buracos de roteiro.

O próprio uso do clichê é também comprometido por esse acúmulo de novatos no controle. Procurando emular o trabalho de Wan, Annabelle acabando pesando a mão no lugar-comum e sua trama se perde em situações sem criatividade e soluções fáceis demais para o contexto apresentado. Dessa forma, o terceiro ato do longa, supostamente o que deveria causar maior medo no espectador, soa redundante e preguiçoso em suas resoluções e em seus sustos, e a experiência cinematográfica é prejudicada.

Por ser um derivado de uma produção de sucesso, é compreensivo que Annabelle paute sua estrutura narrativa - e seus erros e acertos, consequentemente - em torno de sua origem. Este esforço imitativo, porém barra o filme de qualquer criatividade, esvaziando-a de um algo a mais que qualifica as obras clássicas do terror. Em suma, Annabelle falta em profundidade o que sobra em susto.

Nota: 6/10

domingo, 12 de outubro de 2014

Crítica: O Homem Mais Procurado

Adaptação de obra de le Carré traz mais uma atuação brilhante de Philip Seymour Hoffman

Por Pedro Strazza

A espionagem é um assunto que o cinema parece ter um prazer em extrapolar para o fantástico. Das adaptações das obras de Tom Clancy às aventuras protagonizadas por James Bond, a indústria cinematográfica tem uma tendência natural em colocar nas inteligências de soberanias e suas histórias uma carga maior de ação e velocidade narrativa, visando dinamizar o ritmo da produção e o processo investigativo de tais operações. Esta necessidade, porém, oculta do espectador a dura realidade dos espiões e de seus chefes, que encaram no dia-a-dia uma rotina paciente e bastante cerebral.
Mas se a indústria imagina a espionagem como uma profissão repleta de cenas de ação, o escritor britânico John le Carré prefere encarar em suas obras o mundo como ele o é, e O Homem Mais Procurado prova mais uma vez esta sua posição realista. Nona adaptação da extensa obra do autor, o filme mostra este lado demorado e burocrático da profissão, aqui exemplificado por uma operação da inteligência alemã, liderada por Günther Bachmann (Philip Seymour Hoffman), em encontrar o imigrante checheno ilegal Issa Karpov (Grigoriy Dobrygin), que tem uma conexão importante com um esquema de lavagem de dinheiro, e usá-lo para capturar o chefe de tal crime.
Assim como no recente (e excelente) O Espião que Sabia Demais, O Homem Mais Procurado procura trazer ao público, através de sua narrativa lenta e de seus personagens visivelmente cansados, a sensação de insatisfação com o sistema e seus problemas. Vivendo na paranóia causada pela queda do World Trade Center, Günther e seus aliados, mesmo mostrando em vários momentos um esforço em fazer o certo, trabalham em um planeta onde a confiança já não existe e que cuja noção real de "bem" e "mal" perdeu-se por completo. Num momento tão conturbado quanto este, não se faz surpresa, portanto, que os cidadãos envolvidos pela inteligência na captura de Karpov mostrem-se tão relutantes em ajudá-los: A espionagem no século XXI está descreditada, e sua reputação negativa com a população só prejudica seu trabalho.
Mesmo com tantos obstáculos e em um ambiente desfavorável, entretanto, o processo empreendido pela inteligência alemã ainda encontra na produção maneiras de fascinar o espectador. Por sua extensa rede de agentes e informantes, Günther vai coordenando com impecabilidade seus "peixinhos" para que estes cumpram suas tarefas e, assim como dito por ele em determinado momento do filme, capturem a barracuda que apanhará o tubarão. Sob este aspecto, a direção do holandês Anton Corbijn é decisiva, pois a tensão do longa precisa ser trabalhada em atos simples como na assinatura de papéis ou na instalação de câmeras.
É na atuação de seu protagonista que a produção porém brilha com maior intensidade. Apoiado por um ótimo elenco de apoio - mesmo desperdiçando no caminho atores excelentes como Nina Hoss e Daniel Brühl em papéis pequenos -, o falecido Seymour Hoffman exibe em seu último trabalho completo uma performance invejável, atribuindo a seu Günther uma postura depressiva e pouco esperançosa. Sempre com uma bebida ou um cigarro na mão, o ator concebe em seu personagem toda a complexidade emocional do filme, e faz com que o espectador consiga se conectar com ele em sua jornada.
Pessimista quanto ao presente e o futuro da humanidade, O Homem Mais Procurado é eficiente principalmente por causa do talento de seu principal ator e do papel deste, pelo qual a produção estrutura toda a sua narrativa. Adaptado por Andrew Bovell, a qualidade do texto de le Carré entretanto não é subjugada pelo desempenho de Hoffman, e isto torna ainda mais profundo a obra cinematográfica e seu conteúdo realista.

Nota: 9/10

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Crítica: Os Boxtrolls

De significado mais profundo, terceiro filme da Laika evidencia mais uma vez principal característica da empresa

Por Pedro Strazza

No competitivo mercado de animações, é curioso perceber que, mesmo sendo dominado por grandes empresas como a Disney-Pixar, a Aardman e a Dreamworks, ele ainda encontre espaços para abrigar com conforto iniciativas pequenas como a Laika. Criado em 2005, o empreendimento vem concebendo seus filmes através de um uso mais atencioso do stop-motion, técnica esta que ganhou em suas mãos um maior nível de detalhismo cenográfico. Seus dois primeiros longa-metragens, Coraline e o Mundo Secreto e Paranorman, encantam os olhos do público justamente por este cuidado técnico, capaz de criar cenários tão espetaculares quanto o jardim do mundo dos botões da obra de Neil Gaiman, por exemplo.
Em Os Boxtrolls esta tendência à meticulosidade não é diferente. À partir do livro Here Be Monsters!, a terceira animação do estúdio fabrica todo um universo para contar a história de Ovo, um garoto que desde pequeno foi criado nos esgotos pelas simpáticas criaturas do título. A vida de sua família, porém, vive sob a ameaça de Arquibaldo Surrupião, um homem que busca capturar todos os boxtrolls para garantir um luxuoso chapéu branco e assim poder sentar com a alta classe da sociedade. Resta ao rapaz e sua amiga Winnie a tarefa de impedir o vilão de cumprir seus objetivos e salvar o grupo.
Assim como nos outros trabalhos da Laika, o design de produção é feliz na maneira como retrata os ambientes e seus personagens. Se na cidade dos humanos a equipe chefiada por Paul Lasaine tende a representar as ruas como estreitas e os prédios como altos - em uma clara referência à Londres vitoriana, também base para o visual dos habitantes -, no lar das criaturas usa-se muito da rusticidade dos moradores (os boxtrolls, afinal, combinam e reinventam objetos do cotidiano em suas criações) para fascinar o espectador, que entende desde a primeira visita ao local o motivo pelo qual o lugar é considerado uma casa pelos seres.
Mas ainda que seja um dos pontos mais fortes, o lado estético da produção serve apenas como base para o desenvolvimento da história, e é neste ponto que o filme apresenta a sua face mais surpreendente. Através da caça aos boxtrolls pelas mãos de Arquibaldo, o roteiro escrito por Irena Brignull e Adam Pava de forma sutil aplica à aventura conceitos da teoria marxista como a luta de classes e a opressão da burguesia ao proletariado, elementos bastante inesperados para um estúdio de animação estadunidense. E mesmo que os alivie de uma carga dramática maior por causa de seu público-alvo (as crianças), estas características se destacam várias vezes na narrativa do longa, principalmente pelos diálogos - "Se eu consegui mudar, vocês também conseguem", "Os ricos não ligam para nós", etc.
O ousado e sutil uso de uma ideologia diferente pela animação, porém, não esconde dele a previsibilidade da trama adotada, e é aí que reside o maior problema de Os Boxtrolls. Desde seus primeiros minutos, o longa erroneamente deixa claro todo o caminho que irá percorrer em sua história, e revela sem cuidado algum os clichês empregados em todos os seus 96 minutos. Dessa forma, as ações empreendidas pelos personagens em nenhum momento chegam a causar surpresa a ninguém, e isto torna a experiência cinematográfica um tanto enfadonha.
Mesmo com esse problema tão básico a produção porém não chega a ser prejudicada. Esteticamente belo e de ideias ousadas, Os Boxtrolls encanta pelos personagens e cenários, que por causa de seus cuidados técnicos disfarçam (na medida do possível) a trama fraca e previsível. Mais um acerto para a Laika, que prossegue com sua ascensão agora em um passo menor.

Nota: 7/10

sábado, 4 de outubro de 2014

Crítica: Garota Exemplar

Filme joga o jogo de superfícies com a ajuda decisiva de seus próprios aspectos técnicos e de um elenco eficiente

Por Pedro Strazza

Como diretor, David Fincher é um excelente analista do ser humano. Desde seus primeiros trabalhos, o cineasta estadunidense busca nos roteiros escolhidos a figura do protagonista problemático e imperfeito, que, consciente de sua condição, tenta solucionar racionalmente os problemas que cercam sua vida em uma sociedade defeituosa e em muitos casos decadente. Quando conseguem, porém, os "heróis" das histórias dos filmes de Fincher são de alguma forma afetados pelos acontecimentos que foram obrigados a passar sobre no curso dos eventos, e os desdobramentos destes irão inevitavelmente alterar suas personalidades de forma definitiva e desoladora.
É nesta falta de esperança, portanto, que o diretor atua cerebralmente, e os altos e "baixos" de sua carreira comprovam isso sem margem para dúvidas. Mesmo entregando seus dois maiores clássicos logo em suas cinco primeiras produções, Fincher cresceu a cada filme lançado, aperfeiçoando com o tempo sua técnica e seus temas. Em mais de 20 anos de carreira em longas-metragens, o cineasta responsável por Clube da Luta e Seven tornou-se mais incisivo e sutil em suas obras, tornando-o capaz de causar ainda mais impacto no público que acompanha e prestigia seu trabalho.
Garota Exemplar é prova definitiva desta sua evolução na direção. Baseado no livro homônimo escrito por Gillian Flynn (que também assina o roteiro da produção), o décimo trabalho de Fincher como diretor apresenta em sua estrutura e narrativa todas as características do cineasta, que as usa com excelência e sagacidade para contar a história de Nick Dunne (Ben Affleck), um jornalista cuja esposa Amy (Rosamund Pike) desaparece no aniversário de cinco anos de seu casamento. Com a polícia no caso, as pistas para o sumiço da mulher aos poucos apontam que Nick seria o verdadeiro culpado pelo crime, e suas ações apenas agravam a incriminação.
A partir daí, a trama do filme se desenrola sob dois pontos de vista: o de Nick, que busca desesperadamente provar sua inocência com a ajuda da irmã Margo (Carrie Coon) e do advogado celebridade Tanner Bolt (Tyler Perry); e o da própria Amy, que narra através de seu diário os acontecimentos que levaram a seu sumiço em flashbacks. Alinhados com perfeição pela montagem de Kirk Baxter, estas duas linhas narrativas se complementam com uma organicidade eficiente - e de transições fantásticas, a exemplo do corte de um plano em que o casal protagonista está a ponto de se beijar para um em que a polícia coleta DNA da boca de Nick - e constroem juntas a tensão da história, repleta de reviravoltas surpreendentes e críticas à sociedade.
Essas críticas são de fato um dos grandes trunfos para o sucesso artístico de Garota Exemplar. Do suspense gerado pelo desaparecimento de Amy, o roteiro de Flynn tece um verdadeiro ataque à superficialidade vivida pela sociedade atual, hiperconectada em um mundo dominado pela internet e suas redes sociais, e à midiatização do jornalismo, cujo sensacionalismo é capaz de condenar sem remorso a vida de um ser humano por causa de um crime que não cometeu. Mas ao invés de deixar esta desconstrução social exposta, Fincher é sagaz em mantê-la entranhada à trama e seus acontecimentos, permitindo que ela contribua para a narrativa enquanto desempenha com sutileza sua função original.
O diretor também é feliz na maneira como realiza o crescimento da história e de seu ritmo estabelecido. Além da montagem, Fincher usa ainda de uma trilha sonora atmosférica e sem obviedades de Trent Reznor e Atticus Ross (sua terceira parceria bem sucedida com a dupla) para trabalhar a tensão da produção com elementos tradicionais de seu trabalho como a fotografia esverdeada ou a câmera enquadrando os personagens de baixo para cima.
O elenco também contribui bastante nessa elaboração, além de ser eficiente em suas respectivas funções. Enquanto Affleck traz em seu Nick Dunne uma brutalidade e desgosto pela vida como disfarce para sua fragilidade interior e acomodada, a atuação de coadjuvantes como Coon, Neil Patrick Harris e Perry (surpreendentemente excelente em seu papel) é essencial para realçar as caraterísticas e imperfeições dos protagonistas.
Mas quem rouba de fato a cena aqui é Pike. Escolhida a dedo pelo diretor, a atriz inglesa faz do potencial previsto em sua Amy uma realidade, e torna evidente a consciência fatal da protagonista com o jogo de aparências da sociedade que a rodeia. Ela contudo não torna exagerado em nenhum momento as patologias de sua personagem, transitando com vigor e astúcia entre a contenção e a explosão performáticas para compor a frieza necessária ao papel.
Mais um trabalho brilhante para a já consagrada carreira de David Fincher, Garota Exemplar é um filme de reflexões brutais sobre a sociedade e de suas instituições, beneficiado no processo por aspectos técnicos muito bem trabalhados e um elenco afinado. Na crítica ao jogo de superfícies da sociedade, é irônico que o longa brilhe justamente por construir seu pessimismo racional entre tantas dimensões e facetas, sejam estas filosóficas, políticas, sociológicas... e "românticas".

Nota: 10/10

Segunda Opinião: Novo filme de David Fincher trata de temas sociais em uma história que prende o espectador

Por Alexandre Dias

David Fincher é um diretor ímpar por, normalmente, conseguir unir em seus filmes uma história impactante e envolvente com questões presentes na sociedade que merecem ser discutidas e pensadas. Em Garota Exemplar não é diferente. Ao mesmo tempo em que temas como a mídia e o casamento são levantados, o espectador não consegue parar de se surpreender durante os seus 149 minutos de duração.
O longa adapta o romance de Gillian Flynn (que também assina o roteiro), em que a esposa de Nick Dunne (Ben Affleck), Amy Dunne (Rosamund Pike), desaparece estranhamente no dia de seu quinto aniversário de casamento. Nick acaba por se tornar um dos principais suspeitos e procura provar sua inocência, assim como investigar o que aconteceu com Amy.
As personalidades do casal de protagonistas são muito bem trabalhadas (e interpretadas) ao longo do filme; à medida que elas vão sendo exploradas, fatos impactantes ocorrem, o que altera o próprio curso da trama e sempre desperta o interesse do espectador em saber as consequências que virão. Podemos observar também, que estes momentos da obra são acompanhados magistralmente pela trilha sonora de Trent Reznor, líder do Nine Inch Nails, e Atticus Ross, aonde a exata sensação de cada cena é transmitida, especialmente nas mais tensas.
Além da história envolvente, Fincher estabelece ótimas reflexões acerca do casamento e da mídia. No primeiro caso, o fator do desgaste matrimonial é trazido à tona, em que a acomodação dos cônjuges em uma vida rotineira e comum vai diminuindo a fervente paixão inicial. Quanto ao quesito midiático, percebe-se como a imagem externa de uma pessoa nos meios de comunicação pode induzir toda uma população à determinada opinião: desde um sorriso em uma foto como a proximidade com um indivíduo podem ser expostos de maneiras diferentes pela informação.
Assim como em Clube da Luta, David Fincher faz a pessoa acabar de assistir Garota Exemplar com a cabeça cheia de pensamentos e opiniões e que só se desenvolverão um tempo depois de absorver tudo o que viu. Quando isso acontece, provavelmente a satisfação será ainda maior do que quando se sai da sala de cinema, pois haverá a percepção de que o longa tem mais significados do que se observa inicialmente.

Nota: 10/10