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domingo, 7 de setembro de 2014

Crítica: Hércules

Épico acerta quando resolve divertir e fracassa quando procura seriedade

Por Pedro Strazza

Diferente dos outros (muitos) atores de ação desta geração, Dwayne Johnson possui um poderoso carisma junto ao público. Apresentado ao mundo pelo WWE, o anteriormente lutador conhecido como "The Rock" sempre mostra em seus papéis um raro talento para a comédia, que desenvolve na mesma medida que o crescimento de seus músculos a cada nova participação cinematográfica. Seja qual for o personagem a ser interpretado, ele exibe esta veia cômica com precisão tamanha que até nos piores longas o espectador consegue nutrir pelo ator alguma simpatia mínima.
Esse dom de Johnson, porém, surge ao mesmo tempo para ele como uma maldição, pois, aliado ao seu passado nos ringues, o impede de conseguir papéis mais sólidos nas telonas e barra consequentemente seu crescimento como profissional. E mesmo que abandone seu apelido de lutador, ele ainda não consegue sair desta incômoda posição.
Assim posto, não é necessário pensar muito para entender as fortes motivações de Johnson com este Hércules. Primeiro épico que protagoniza, o ator usa de todas as suas habilidades para conceber seu personagem da melhor forma possível, juntando tanto suas inerentes qualidades cômicas quanto as ainda em desenvolvimento características dramáticas, aplicando ambas com notável seriedade. Desta mistura, Dwayne chega a um bom resultado: Além de tão carismático como em todos os seus outros papéis, seu Hércules traz bagagem o suficiente para que o espectador o acompanhe com relativa seriedade em seus dramas pessoais e desafios de sua jornada.
Mas se o protagonista encarna seu papel com muito foco e auto-confiança, o filme não parece o acompanhar sob as mesmas pretensões. Baseado na HQ The Tracian Wars, de Steve Moore, Hércules faz de sua proposta desconstrutiva dos mitos uma verdadeira trama superficial e que procura majoritariamente entreter seu público com humor e pancadaria - aspecto este conhecido da carreira do diretor Brett Ratner. Desta maneira, assuntos potencialmente interessantes como o endeusamento precário da humanidade sob fatos que não entende dão lugar a diálogos expositivos e alívios cômicos sucessivos, e os esforços de Johnson são subjugados a esta construção.
Essa construção estrutural,entretanto, não se faz tão problemática quanto parece. Em sua primeira metade de projeção, Hércules diverte justamente pelo tom mais leve e despreocupado, rendendo momentos e situações risonhas e despretensiosas. A trama, afinal, toma a forma da típica caçada ao ser poderoso e mágico, algo que aqui é contestado e debatido diversas vezes pelo protagonista e sua equipe de mercenários interpretados por Ian Mcshane (bastante à vontade em seus esquetes cômicos), Rufus Sewell, Aksel Hennie, Ingrid Berdal e Reece Ritchie.
É a partir da metade do filme, porém, que Hércules comete o equívoco de achar que pode abordar sua história com seriedade quando já havia posto suas pretensões de lado. Com um mal aplicado plot twist, o roteiro escrito por Evan Spiliotopoulos e o estreante Ryan Condal resolve virar o norte da produção para uma trama repleta de traições e complôs e abraçando inúmeros clichês narrativos e vilões unidimensionalizados no caminho, algo que sem preparação torna o filme num amontoado cansativo de eventos supostamente grandiosos mas na realidade bobos.
Outro problema grave do longa são suas cenas de ação. Contando com sets gigantescos e repleto de figurantes, Brett Ratner não transmite nas batalhas a mesma grandiosidade que procura emular dos clássicos sandália-e-espada, mesmo usando frequentemente de belos planos aéreos que apresentam as formações dos exércitos e do protagonista fisicamente evidente que é Dwayne Johnson. E quando visualiza os combates de um ponto de vista mais terrestre, a pancadaria, tão fundamental para a produção, cae na mesmice, tornando os confrontos chatos e deveras enrolados.
Se não pelo esforço de Dwayne Johnson para construir o protagonista, é bem provável que este Hércules já fosse esquecido pelo público cinco minutos depois do fim da exibição. Desprezando um caminho mais reflexivo em prol do entretenimento, o filme pelo menos faz jus às suas despretensões para contar sua história, aninhando-se confortavelmente entre os possíveis candidatos para futuras sessões da tarde da televisão.

Nota: 6/10

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Crítica: Lucy

Pseudociência dá lugar a protagonista e ação na produção francesa

Por Pedro Strazza

Em sua carreira no cinema, Luc Besson provou inúmeras vezes que sabe como fazer filmes de ação. Roteirista de longas como Busca Implacável e Carga Explosiva e diretor dos clássicos O Quinto Elemento e O Profissional, o cineasta francês consegue em seus trabalhos (principalmente quando na direção) trazer ritmo e diversão a qualquer tipo de trama que se dispõe a trabalhar - mesmo sendo esta das mais fracas.
Um exemplo recente desse talento raro de Besson é este Lucy, que mesmo partindo de um mito tão batido nos dias de hoje consegue criar uma boa diversão ao público em seus curtos 89 minutos de duração. A pseudociência do "você só usa 10% de sua capacidade cerebral", afinal, serve apenas de pretexto para que o diretor (também responsável pelo roteiro aqui) emende cenas de ação em mais cenas de ação com uma agilidade e tensão impecáveis.
Esta velocidade narrativa de Lucy é atingida pelo cineasta francês a partir de duas bases sólidas e bem construídas por todo a produção: O uso de recortes e a atuação de Scarlett Johansson. Ao passo que Besson aplica a primeira em diversos momentos do longa para fazer crescer a tensão de certas cenas - principalmente na abertura do filme, na qual o diretor realiza uma interessante comparação entre a situação apresentada e o predastismo animal -, a atriz protagonista abraça seu papel, progredindo em sua interpretação conforme sua personagem, inicialmente apresentada como ingênua, vai se tornando mais poderosa e menos humana. Desta forma, Johansson não só prova com Lucy sua capacidade em protagonizar uma produção do gênero como também evidencia, alinhando suas recentes participações em Ela, Sob a Pele e Capitão América 2, um talento adaptável a qualquer tipo de papel ou projeto cinematográfico.
Essas qualidades técnicas do filme não escondem do espectador, porém, os vários defeitos narrativos presentes no roteiro de Besson. Afora a protagonista, verifica-se no longa um excesso problemático de personagens rasos e sem importância, cuja importância na trama torna-se nula após eles cumprirem sua única função. Este é o caso, por exemplo, do policial e do chefe da máfia interpretados respectivamente pelo egípcio Amr Waked e o sul coreano Min-sik Choi: Enquanto o primeiro em apenas um momento mostra algum motivo real para estar ajudando a protagonista, o último deixa claro sua inutilidade depois de sua primeira e primordial participação na trama.
Além disso, o longa seguidas vezes interrompe o andamento da história para se dedicar na explicação de alguns acontecimentos, apoiando sua argumentação em fatos claramente pseudocientíficos, e consequentemente cria com frequência diálogos expositivos e desnecessários - dos quais o cientista interpretado por Morgan Freeman, que parece repetir seu papel feito em Transcendence, participa na maioria das vezes. E quando Lucy se deixa focar somente na seriedade de um assunto obviamente ridículo (como é o caso de seus últimos 15 minutos), todo o esforço em criar aquela agilidade narrativa é desperdiçado.
Como filme pipoca, entretanto, o filme no geral tem um resultado positivo. Com tantos motivos criativos para ser péssimo, Lucy diverte graças à união de um cineasta e uma atriz de qualidade em prol de um longa entretivo, que com surpresa entrega uma protagonista feminina forte e interessante. Se tivesse valorizado mais este lado e deixado a seriedade em torno de um assunto tão bobo para trás, a produção possivelmente teria estas qualidades ainda mais realçadas.

Nota: 7/10

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Crítica: No Olho do Tornado

Filme catástrofe encanta pelos tornados, mas erra no roteiro e na direção

Por Pedro Strazza

Em se tratando de filmes de ficção filmados sob estética documental, é importante que tais produções tenham em mente pelo menos uma preocupação: a justificativa da obra estar sendo apresentada de tal maneira. Geralmente mais baratas, longas trabalhados neste estilo precisam apresentar, de forma no mínimo sutil, uma motivação básica para aquele indivíduo realizar suas ações na história a ser contada, pois senão teria-se no mínimo um grave erro de roteiro. Por outro lado, exagerar nas explicações pode gerar ao filme a incômoda sensação de enrolação, um defeito tão profundo quanto o primeiro.
Para No Olho do Tornado, o equívoco se deu no último aspecto. Com tantas câmeras sendo utilizadas por vários personagens ao mesmo tempo e com um evento visualmente interessante a ser mostrado, o filme catástrofe preocupa-se demais em justificar os planos que mostra e o porquê daqueles indivíduos estarem ali que quase se esquece dos tornados, o seu principal atrativo para o público e verdadeiro protagonista de todos os acontecimentos mostrados.
Seja na discussão dentro de uma van, seja no meio da ação, o diretor Steven Quale aparenta uma urgência desnecessária em evidenciar a todo o momento e sob as mais diferentes maneiras que a imagem disposta está sendo captada pela câmera de algum dos personagens. Não basta apenas, por exemplo, apresentar verbalmente o carro-tanque de filmagens; para o diretor, é necessário fazer uma introdução visual do veículo, utilizando-se no processo de todas as máquinas de filmar embutidas neste - além das usadas pela equipe caça-tornado.
A justificativa em demasia, porém, não se limita ao aspecto cenográfico da produção. O roteiro de John Swetnam procura planificar seus personagens como os clássicos filmes catástrofe faziam, mas acaba os superficializando de maneira grotesca, e em consequência enfraquece o desenvolvimento destes em suas respectivas tramas pessoais. Assim, o espectador não consegue se conectar aos dramas vividos por pais e filhos - note como o professor Gary (Richard Armitage) e a analista Allison (Sarah Wayne Callies) tem problemas de conexão com suas crias -, e os esforços de todos em sobreviver aos eventos mostrados não são valorizados de fato pelo público.
Mas se essa falha de desenvolvimento de personagens é grave para a narrativa do filme, ela estranhamente contribui para a catástrofe em si. Com efeitos visuais afiados e abusando de planos aéreos, o longa se diverte sem medo na destruição proporcionada pela "chuva" de tornados que ocorre na pequena cidade de Silverton - e como o espectador não se importa com os indivíduos mostrados, vira uma diversão saber como os fenômenos metereológicos afetarão o caminho desses até seus objetivos ou se eles sequer sairão da situação com vida.
Esse quesito, porém, é o único que agrada na produção. Sem equilíbrio no roteiro e na direção, No Olho do Tornado entretém apenas aqueles que entram no cinema pelo espetáculo visual e de impacto imediato. E isso não chega a ser incoerente, visto o destaque dado no filme aos que fazem de tudo para aparecer na internet e ter seus 15 minutos de fama alimentados pelo mesmo tipo de público que se deslumbra com o poder de uma força da natureza.

Nota: 5/10

sábado, 30 de agosto de 2014

Crítica: Magia ao Luar

Na Riviera Francesa, Woody Allen fala do ser humano e sua procura pela felicidade

Por Pedro Strazza

O debate "fé e razão" permeia as entranhas da História desde o início, e é encontrada nas mais diferentes situações. É nos meios culturais, porém, que esta discussão se faz mais visível: das obras clássicas do renascentismo até o embate entre Jack e Locke em Lost, a relação a princípio antagônica entre a crença e a ciência encontra nas artes um espaço pelo qual possa, em variados cenários, ter argumentos desenvolvidos pelos dois lados, mesmo sabendo que a resposta definitiva para o assunto nunca possa ser de fato encontrada.
Magia ao Luar, o novo filme do cineasta Woody Allen, tem como tema central esta questão humana, mas sob um olhar mais intimista do ser humano e suas emoções. Na história, o experiente mágico de palcos Stanley (Colin Firth), famoso por seus shows sob o alter-ego de Wei Ling Soo, é chamado por uma família de alta classe do sul da França para desmascarar Sophie (Emma Stone), uma suposta vidente que estaria encantando o ricaço Brice (Hamish Linklater) e sua mãe Grace (Jacki Weaver) com sua clarividência.
O relacionamento de Stanley com Sophie, a partir deste ponto, dá o tom à narrativa do filme. Apesar de ambos usarem da magia como meio de sobrevivência, os dois protagonizam discussões e cenas interessantes acerca da necessidade ou não da crença em eventos sem explicação racional, procurando no processo responder a questão realmente fundamental: até que ponto o ceticismo do ser humano deve ir?
Para Stanley, a fé é uma ilusão tão boba quanto os truques que realiza em suas apresentações. Alter-ego de Allen aqui, o mágico acredita na razão e na ciência como únicas formas do homem conseguir alcançar a real felicidade, mas seguindo esta metodologia ele próprio tem uma vida no fundo estressante e sem alegrias. Quando começa a conhecer Sophie e acreditar na existência da magia, porém, sua existência ganha um sentido novo, e sua atitude torna-se mais prazerosa e com mais esperanças. Mas esta mudança de fato é verdadeira? Ou seria apoiada em fundamentos completamente imaginários?
Esta discussão, novamente, não tem como ser resolvida por Allen, mas este procura trazê-la a um ambiente em que ela possa ganhar contornos mais definidos. A Riviera Francesa, local onde se desenrolam os acontecimentos da trama, é conhecido, afinal, por seu luxo e sofisticação, e o cineasta, junto do diretor de fotografia Darius Khondji, capta essa aura mítica com planos iluminados e agradáveis. Sem contar a trilha sonora, que usa de jazz e pedaços de sinfonias suaves para conceber este microverso leviano e adocicado (no bom sentido).
O cuidado de Allen como diretor em Magia ao Luar, entretanto, não se verifica com mesma qualidade no roteiro. Ainda que contenha um tema central interessante e personagens bem elaborados - além de boas atuações de Firth e Stone como protagonistas -, a trama do filme não consegue escapar da previsibilidade de seus acontecimentos, e quando toma um rumo não previsto faz de uma maneira abrupta e artificial demais em relação ao que acontece.
Nada que prejudique demais o filme, pelo menos. Doce e encantador, este Magia ao Luar de Woody Allen usa de um eterno debate humano para falar do próprio desejo do homem pela felicidade que talvez nunca seja alcançada por ele. E para o cineasta, o embate entre fé e razão, pelo menos na Riviera Francesa, possuem algum equilíbrio desconhecido e misterioso - para o desespero dos céticos.

Nota: 8/10

Crítica: Os Mercenários 3

Terceiro capítulo de nostalgia!

Por Alexandre Dias

Stallone e sua trupe estão de volta às telonas. Com novos integrantes, o terceiro filme dos Mercenários entrega o esperado: pancadaria, frases de efeito e as piadas de sempre. E apesar de uma ou outra falha inédita, é satisfatório e consegue divertir o espectador.
A história, como não seria diferente, é simples: Conrad Stonebanks (Mel Gibson) é um ex- Mercenário que Barney Ross (Sylvester Stallone) acreditava ter eliminado, e ele, para acabar com o inimigo de vez, precisa reunir uma nova equipe.
Os jovens matadores de aluguel saem perdendo. O grupo formado por Kellan Lutz, Glen Powell, o boxeador Victor Ortiz e a campeã do UFC Ronda Rousey não tem o menor carisma; mesmo com alguns bons momentos em ação (era o mínimo!), e são portanto dispensáveis.
Enquanto isso, tanto os antigos quanto os novos coroas estão ótimos. Dentre estes últimos estão: Wesley Snipes- recentemente solto da prisão- interpreta uma mistura de Lee Christmas (Jason Statham), pelo ego, e Gunnar Jensen (Dolph Lundgren), pela insanidade; Antonio Banderas é o espanhol tagarela, Galgo, rendendo boas risadas; Harrison Ford substitui Bruce Willis - que abandonou o projeto por considerar o salário insuficiente - como um outro chefão da CIA; Kelsey Grammer é um amigo do personagem de Stallone que ajuda a recrutar time moderno de brucutus; e, por fim, Mel Gibson, que faz o melhor vilão da franquia até aqui.
Um fato inusitado que prejudica o longa é a diminuição da censura, algo que não se encaixa neste tipo de filme. Realmente é uma incógnita que público o velho intérprete de John Rambo e Rocky Balboa, o produtor Avi Lerner e o diretor Patrick Hughes queiram conquistar mais aqui. No entanto, a intensa movimentação nas cenas de ação de certa forma ameniza esta questão.

O que se pode afirmar é que, assim como seus antecessores, Os Mercenários 3 tem o fator nostalgia. Está longe de relembrar o auge do cinema de ação dos anos 80, mas de maneira leve e despretensiosa consegue nos dar alguns vislumbres da época. Para quem cresceu vendo Arnold Schwarzenegger, Sylvester Stallone e muitos outros a empolgação acaba,portanto, por vir à tona mais uma vez.

Nota: 6/10

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Crítica: Sex Tape - Perdido na Nuvem

Cameron Diaz e Jason Segel esquecem o roteiro em prol do exagero performático

Por Pedro Strazza

Roteiro e elenco são dois aspectos tão igualmente fundamentais no cinema que uma melhor desenvoltura de somente um dos dois pode já garantir certo sucesso artístico à produção. Assim, um longa que opta por exclusivamente dedicar seus esforços na concepção de uma história de qualidade tem, quando comparado a um filme que prefere gastar seu orçamento na escalação de atores e atrizes brilhantes, as mesmas chances de obter um resultado positivo como obra.
Estes dois tipos de situação, entretanto, precisam evitar o erro de, no foco excessivo em um destes elementos, esquecer do outro, caso seguido pela comédia Sex Tape - Perdido na Nuvem. O filme, roteirizado por Kate Angelo e os competentes Nicholas Stoller e Jason Segel, tem uma proposta interessante que é razoavelmente desenvolvida conforme a história avança, mas não consegue entregar todo o seu potencial devido a um estranho envergonhamento de seu casal protagonista, vivido por Segel e Cameron Diaz.
A dupla, que repete a parceria originalmente feita no péssimo Professora Sem Classe, fracassa repetidas vezes em trazer para a realidade audiovisual os diálogos e o humor de seus papéis ao realizarem performances exageradas e descaracterizadas. Estranhamente sem qualquer tipo de timing cômico e incomodados com a nudez exigida por seus papéis, Diaz e Segel tentam constantemente conquistar o riso de seu público através de caras e bocas ao invés de procurar usar o perfil de seus personagens, confundindo talvez seu real papel cômico na produção. O roteiro, afinal, não é superficial o suficiente para que eles possam improvisar a bel prazer, mas possui características humorísticas próprias a serem utilizadas.
Percebe-se esta personalidade do texto nos momentos genuinamente cômicos de Sex Tape. Aqui, o riso do espectador não surge na postura exacerbada do elenco ou da maioria das situações que estes protagonizam, mas sim dos poucos diálogos que sozinhos funcionam bem - como as discussões entre Segel e Diaz sobre os reais atrativos da pornografia (e sua aparente queda de qualidade). Mérito este de Stoller, que, tal qual nos recentes Vizinhos e Muppets 2, tem sua participação criativa evidenciada na trama.
Mas nem mesmo o roteiro de Sex Tape consegue sair impune. Ainda que colocando em pauta um tema bastante importante nos dias de hoje - os problemas do excesso de compartilhamento pela nuvem -, a trama guia a narrativa de forma similar ao de filmes como Se Beber Não Case, mas de forma desinteressante e, em muitos momentos, irritante - além de mercandológica, a exemplo das sucessivas propagandas claras de produtos da Apple.
Sem um roteiro tão bem elaborado e com atuações que insistentemente procuram se por acima deste, Sex Tape - Perdido na Nuvem mostra, através de seus erros, o quão importante é aliar o processo criativo de história e elenco para realizar um bom filme. Prova maior disso ocorre quando, no intuito de provocar o riso, a trama por duas vezes evidencia que os esforços de seus protagonistas poderiam ser substituídos por ações mais simples, mas os atores não esboçam qualquer tipo de reação que justifique o humor de tais cenas.

Nota: 4/10

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

HEY, Eu Quero uma Segunda Opinião!: As Tartarugas Ninja

O quarteto réptil está de volta aos cinemas

Por Alexandre Dias

O que se pode dizer sobre as Tartarugas Ninja? Os personagens, que já passaram pelo cinema, televisão, games e quadrinhos, tiveram diferentes versões suas ao longo dos anos, sendo a mais marcante a que se trata dos personagens carismáticos, que amam pizza e gritam Cowabunga!
De volta as telonas, os quelônios têm o seu reboot produzido por Michael Bay, da franquia Transformers, e dirigido por Jonathan Liebesman. Mesmo com a construção correta de visual e personalidade do quarteto, muitas das piores influências de Bay e Liebesman também estão presentes juntas de um roteiro fraco e repleto de falhas.
O primeiro medo dos fãs desde a contratação do elenco se concretiza: Megan Fox. Infelizmente a sua amizade com Bay não acabou, e o resultado disso no longa é uma atuação patética (pensar se é pior que ela como Mikaela é um verdadeiro enigma), porém mais do que isso: um papel absolutamente desprezível. Desprezível só em qualidade, porque em quantidade os fatos mudam. Ela como a jornalista April O’Neil é a grande protagonista, toda a trama gira ao redor dela.
Para piorar, Fox ainda é acompanhada de coadjuvantes fracos: Vernon Fenwick (Will Arnet) é o cameraman que serve de alívio cômico, mas é previsível e sem graça; Whoopi Goldberg em seu pouco tempo de aparição interpreta a habitual chefe do jornal; William Fichtner faz o papel do ricaço misterioso que era amigo do pai de April, mas também é colocado de forma padronizada; Splinter (dublagem feita por Tony Shalhoub e captura de movimentos por Danny Woodburn), o mestre roedor do quarteto, e o Destruidor (Tohoru Masamune), o chefe vilão do Clã do Pé, não conquistam o espectador, mesmo com algumas boas sequências de ação.
De fato, ninguém vai ao cinema ver um filme sobre tartarugas ninjas esperando uma história complexa. Entretanto, o roteiro escrito por Josh Appelbaum, André Nemec e Evan Daugherty é absolutamente burro, e não raso como seria o esperado. Ele se explica constantemente, é recheado de clichês entediantes e tenta tornar o enredo mais grandioso do que deve ser.
Com isso, o que há de melhor não é valorizado como deveria, que são os répteis mutantes. Os quelônios estão bem representados visualmente e cada um está com a sua característica natural: Leonardo (dublagem feita por Johnny Knoxville e captura de movimentos por Pete Ploszek) é o líder, Raphael (Alan Ritchson) é o do pavio curto, Donatello (Jeremy Howard) o cérebro e Michelangelo (Noel Fisher) o piadista. O tom de humor entre eles é bem conduzido e as cenas de ação, em sua maioria, empolgam, apesar da influência de Michael Bay, com explosões sem sentido vez ou outra, ocorrerem.
Devido ao sucesso nas bilheterias (o filme rendeu US$ 65 milhões em seu primeiro fim de semana nos Estados Unidos) uma sequência já foi confirmada. E o medo permanece por nossos amigos de casco, pois, assim como o desperdício de potencial que aconteceu aqui por causa dos equívocos do diretor, produtores e roteiristas, o caminho para um futuro de possível lucro pode ser o mesmo.

Nota: 4/10

No quadro HEY, Eu Quero uma Segunda Opinião!, O Nerd Contra Ataca abre espaço para que outros críticos deem suas opiniões acerca de um filme já comentado pelo site.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Crítica: Amantes Eternos

Sobre a imortalidade e o tempo

Por Pedro Strazza

Inicialmente concebidos pela ficção moderna como criaturas imortais de alta educação e com poderosa sede por sangue humano, os vampiros ganharam ao longo do tempo várias obras (sobretudo as de horror e suspense) que se dispunham a explorar primordialmente a selvageria e irracionalidade proporcionadas pela segunda característica. Amantes Eternos, novo filme do diretor e roteirista Jim Jarmusch, opta porém por centralizar sua narrativa sobre o outro aspecto básico de tais criaturas, concebendo uma história que prefere se guiar pela perpetuidade destes enigmáticos seres ao invés de por seus personagens ou trama.
Esta peculiar opção do cineasta se faz visível em diversos momentos do longa. Conforme o enredo (de curta duração temporal) vai sendo contado, vários eventos importantes se desenrolam nas vidas dos perpétuos Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Swinton); suas atitudes, entretanto, em nada soam como se importassem com estes acontecimentos - e nem deveriam. Aqui, o espectador (tal qual o diretor) não possui interesse na maneira como estes seres reagirão às mudanças em suas vidas ou saber em que profundidade emocional ou física estas o afetarão. Estes episódios, afinal, são um pequeno ponto na extensa vida destes vampiros.
O grande foco do filme torna-se, então, saber o que estes dois indivíduos vivenciaram e o que pensam da humanidade - referida por eles sempre pela palavra "zumbis". Admiradores respectivamente da música e da literatura, Adam e Eve parecem estar a todo momento em um eterno estado de observação acerca dos feitos dos homens e de sua História (culturalmente interferida em alguns pontos por eles próprios), refletindo de forma pessimista sobre estes e seu futuro. E os momentos em que o casal protagonista exprime este sentimento não são poucos, a exemplo da inconformação de Adam com o fato de toda a sociedade não ter aceitado Darwin ou de o ser humano ter conseguido contaminar o próprio sangue - sem contar, claro, o fato do vampiro morar na falida e decadente Detroit.
A relação dos vampiros com este tecido do corpo humano parece, por sinal, ser o único aspecto destas criaturas que permanece visível no filme de Jarmusch. Lembrete notável da animalidade primordial de tais seres, o diretor realça em vários momentos sua tensão psicológica quando em contato visual direto com seu único alimento, que desperta uma notável impulsividade em seu interior. E quando estes finalmente bebem o "nutritivo" líquido, a câmera foca no prazer instantâneo proporcionado no animal interior e irracional de cada um.
Além das conversas entre si sobre a humanidade, o casal tem seu relacionamento saudosista com o mundo enriquecido pelas interações com os "zumbis" e outros de sua própria espécie. O jeito como Adam trata o jovem amigo humano Ian (Anton Yelchin), por exemplo, evidencia uma última tentativa do vampiro em, ainda que de forma depressiva, tentar se conectar com o homem, ao passo que os diálogos entre os protagonistas e a irmã de Eve, Ava (Mia Wasikowska) traz um paralelo interessante entre o passado rico e cada vez mais esquecido e o presente superficial e decadente.
Pautado ainda por uma trilha sonora eficaz e uma fotografia elaborada, Amantes Eternos é um filme que usa com excelência do tema da imortalidade para discutir os mais variados temas universais e atemporais como o amor, a vida e a passagem do tempo. Profundo em suas intenções, a história traz um lado que até o momento tinha sido pouco explorado na mitologia do vampiro moderno, que infelizmente vive nos tempos atuais uma superficialidade tão grande quanto a personalidade da irmã de Eve.

Nota: 10/10