Han Solo - Uma História Star Wars

Leia a nossa crítica do mais novo derivado da saga!

Deadpool 2

Continuação tenta manter a subversão do original enquanto se rende às convenções hollywoodianas

Desejo de Matar

Eli Roth aterroriza ação do remake e não deixa os temas caírem na ingenuidade

Nos Cinemas #1

Nossos comentários sobre O Dia Depois, Submersão e Com Amor, Simon

Jogador N° 1

Spielberg faz seu comentário sobre o próprio legado em Hollywood sem esquecer do espetáculo no processo

Mostrando postagens com marcador Vincent D'Onofrio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vincent D'Onofrio. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Crítica: O Chamado 3

Terceiro capítulo busca se atualizar no gênero, mas frustra por não fazer o mesmo no cenário.

Por Pedro Strazza.

Chega a ser um processo natural em toda a franquia de horror a tendência de haverem maiores liberdades nas produções conforme os anos passem, as sequências se multipliquem e os orçamentos diminuam consideravelmente. Muitas vezes coincidente com a decadência e o empobrecimento qualitativo da série, esta maleabilidade permite a realizadores diferentes fazer o que quiserem com os rumos da história e os personagens envolvidos, promovendo muitas vezes mudanças geográficas e experimentações com diferentes gêneros que levam a iconografia da marca a ambientes inesperados. Sexta-Feira 13 já levou Jason Voorhees à Nova York e ao espaço; Halloween tentou mudar seu horror para a ficção-científica; Atividade Paranormal experimentou a câmera na mão em seu quarto capítulo e o "estilo" Jackass em seu derivado latino; e os exemplos continuam.

Esta lógica se repete sem muita surpresa em O Chamado 3, a tardia continuação do remake estadunidense do terror japonês homônimo que se aproveita disso como forma de resolver o seu desafio inicial de reintroduzir uma personagem que marcou o terror no começo do século 21 mais de uma década depois de seu ápice. A transformação da franquia não ocorre, porém, sob o prisma de uma nova ambientação ou gênero, mas sim de uma atualização de tendências: se nos outros dois longas o conto de Samara Morgan surfava na onda da introdução de elementos do j-horror (o famoso horror japonês contemporâneo) que ela mesmo criou, neste terceiro capítulo o diretor F. Javier Gutiérrez opta por transportar a garota da fita mal-assombrada para as estruturas de um típico terror cristão, subgênero na moda hoje graças aos filmes de exorcismo.

Assim, nota-se de imediato na continuação uma mudança abrupta de elementos e enfoques, que priorizam os arredores da história de Samara em detrimento do próprio mistério em torno de sua pessoa. Na trama, a jovem Julia (Matilda Lutz) vai atrás do namorado (Alex Roe) após ele ir para a universidade e desaparecer por dias, mas acaba encontrando uma seita universitária comandada pelo professor Gabriel (Johnny Galecki) que busca encontrar na maldição de Samara uma comprovação da existência da alma. Julia acaba assistindo o vídeo para manter seu namorado vivo, com sua sessão trazendo novas perguntas sobre a história da menina afogada no poço.

Dos originais (japoneses ou estadunidenses) o roteiro escrito por David Loucka, Jacob Estes e Akiva Goldsman traz de volta apenas o quebra-cabeça de informações complexo, substituindo o terror psicológico da maldição proporcionada pela fita - nem se percebe a evolução dos "sete dias" amaldiçoados pela garota - por um de imagens católicas, que com suas cruzes, padres e ambientes banhados por uma luz divinamente maldita dominam o cenário da busca pela protagonista. A presença da temática da alma já é um sinal dessa mudança no longa, que aqui e ali demonstra um interesse maior pela forma como Samara estava condenada desde o início ao sofrimento e a se tornar em um monstro.

As grandes ambições, porém, param por aí na narrativa do longa, que no geral se contenta em proporcionar jump scares e se sacrifica com furos de roteiro óbvios e soluções estúpidas repetidas à exaustão. Entre correções de rumo, martelações do número 7 do roteiro e um clima de fim de festa constante - a situação do avião, presente nos trailers e que abre o filme, já serve como indício -, Gutiérrez comete o grande erro de tornar Samara um mero acessório dentro da história que protagoniza, preferindo focar em ameaças físicas e um terror humano que nunca consegue se justificar.

No mais, O Chamado 3 acaba se provando um filme involuntariamente divertido e deveras frustrante nas possibilidades que apresenta. O primeiro vem pelas inúmeras reviravoltas absurdas do clímax e as situações ridículas pontuais (quem é fã da série do Demolidor ou de O Homem nas Trevas vai rir alto em duas cenas particulares), o segundo pela chance perdida de adaptar a franquia a um cenário onde o compartilhamento de informações e imagens foi potencializado ao infinito com o advento das redes sociais. Em uma época em que o Facebook, o Twitter, o Whatsapp e o Instagram dominam as atenções, a Samara deste terceiro capítulo ainda insiste em passar sua corrente pelo e-mail.

Nota: 2/10

sábado, 24 de setembro de 2016

Crítica: Sete Homens e um Destino

Refilmagem se disfarça de boas intenções, mas se contradiz com o próprio conteúdo.

Por Pedro Strazza.

Assim como Os Setes Samurais, épico samurai máximo do diretor Akira Kurosawa do qual aproveita a trama para ambientá-la no Velho Oeste, o primeiro Sete Homens e um Destino traz em seu âmago uma narrativa que engloba noções de público e privado. Os sete pistoleiros do título, afinal, aceitam de início defender um pobre vilarejo mexicano dos assaltos de uma gangue de 40 bandidos por mera ambição ou necessidade pessoal (a promessa vazia por riquezas, o desafio do combate, o pagamento de dívidas e etc), mas pouco a pouco se envolvem com a população ao qual foram contratados para proteger. A morte de grande parte do grupo no fim da história é a comprovação final do processo, um sacrifício que envolve não só suas vidas como também de seus desejos em prol de um bem maior.

A nova versão do filme, entretanto, não reconhece essa linha de raciocínio. Nas tantas mudanças feitas pelos roteiristas Nic Pizzolatto e Richard Wenk em cima do roteiro do original, se destaca no remake a dissolução da relação intrínseca entre heróis e vítimas, substituída por uma que privilegie os primeiros e relegue os últimos ao segundo plano. Se no longas de Kurosawa e John Sturges a questão principal é o encontro de figuras icônicas com pessoas comuns - o primeiro em forma de enfrentamento, o outro pelo deslumbramento conhecido dos faroestes da época -, a refilmagem dirigida por Antoine Fuqua prefere o espetáculo do duelo de seus mocinhos com o vilanesco industrialista Bartholomew Bogue (Peter Sarsgaard), que quer assaltar a cidadezinha de Rose Creek pelo roubo das terras.

É uma mudança de eixo simples e feita por uma boa causa, mas que traz imensos prejuízos à estrutura da história. Pizzolatto e Wenk buscam aqui expandir e realçar o conflito entre brancos e negros que caracteriza o cinema de Fuqua, contrapondo o elenco multiétnico e em pleno equilíbrio de figuras do Velho Oeste que protagoniza a trama - o delegado negro de Denzel Washington, o branco boa-pinta de Chris Pratt, o confederado traumatizado de Ethan Hawke, o ermitão de Vincent D'Onofrio, o bandido mexicano de Manuel Garcia-Rulfo, o estrangeiro de Byung-hun Lee e o indígena de Martin Sensmeier, todos interpretados com canastrice e sotaques bastante forçados pelos atores - com o vilão capitalista e diabólico, porém nunca conseguem sair da linha maniqueísta e da estereotipação desses personagens. Não existe no filme um esforço de humanização de tipos mas sim um reforço destes, conforme os contatos promovidos entre elementos tão opostos provam-se ineficazes na construção de uma relação mínima entre eles.

Isso porque este Sete Homens e um Destino encontra-se contaminado por uma sede individualista que não se justifica, gerada justamente pelo abandono do alicerce primordial do encontro dos pistoleiros com a cidade. Enquanto os heróis liderados por Yul Brynner e Steve McQueen no longa de 1960 eram aos poucos guiados pela salvação da população, os comandados por Washington e Pratt nunca chegam a se desvincular do propósito único de derrotar os poderosos para se concentrar nos que foram contratados para salvar, como se estivessem lá apenas para se tornarem lendas por derrotar uma força maior. Nos poucos momentos de encontro entre os cidadãos e os pistoleiros, inclusive, a câmera de Fuqua gosta de ressaltar (e não de desconstruir) a hierarquia entre quem protege e quem está sendo protegido, colocando os heróis sempre acima do povo como forma de legitimar seu caráter "lendário".

Para piorar, Fuqua parece estar perdido mesmo em seus propósitos. Se falta equilíbrio nas cenas em que precisa estruturar uma mínima ligação entre os protagonistas, na ação seu descontrole é total, já que promove uma escalada de eventos que repete situações e se interessa em apresentar uma novidade de impacto a cada minuto para prender a atenção do espectador. Clímax do filme, o combate final entre as forças de Bogue e os sete homens do título é confuso e desatento, sendo incapaz até de acompanhar o movimento dos personagens - que não sejam os de Denzel Washington ou Chris Pratt - e manter suas aparições em equilíbrio. Mesmo alguns duelos soam subaproveitados, como o travado entre os dois índios da trama ou o final com o vilão.

Na comparação entre Os Sete Samurais e o Sete Homens e um Destino original, o último saía perdendo por não conseguir dar cabo da tarefa de transportar para seus pistoleiros a sensação inequívoca do longa de Kurosawa de que o sacrifício dos samurais no fundo representava também o fim de seu valor para a sociedade, um sacrifício simbólico que repercutia em sua queda final como figura fundamental do imaginário japonês. O remake não apenas vai na contramão disso e busca consagrar seus protagonistas pelos mesmos caminhos, mas também demonstra um orgulho muito burro de abandonar esse viés.

Nota: 2/10

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Crítica: Jurassic World - O Mundo dos Dinossauros

Reinício da franquia refaz os passos do original em tom de homenagem.

Por Pedro Strazza.

É preciso conhecer um pouco da história que se passa por trás da trama Jurassic Park e de suas duas primeiras sequências antes de buscar entender os erros e acertos de Jurassic World - O Mundo dos Dinossauros. Não apenas querendo traçar verossimilhanças com o filme de 1993 para reintroduzir a franquia às novas gerações, o quarto capítulo da série sobre dinossauros aposta na repetição da estrutura simbológica do consagrado longa baseado na obra de Michael Crichton, pois acredita que este é o único caminho possível para realizar os mesmos feitos do original.
Suas crenças não são infundadas. Ainda que seu sucesso imediato seja fruto de uma combinação de fatores, Jurassic Park marcou sua época por trazer em seu cerne uma discussão muito bem trabalhada sobre os riscos do avanço da humanidade, travestido na história sob a forma de um conto de deslumbramento com o horror. O retorno dos dinossauros ao planeta pelas mãos da ciência e seu uso para fins mesquinhos, afinal, trazem no fundo uma identificação natural com as descobertas da humanidade, e o posterior descontrole do parque para as forças naturais solidifica o teor da mensagem passada por Spielberg no filme - coisa que as duas continuações seguintes infelizmente não conseguiram levar adiante por estarem muito mais interessadas em dar prosseguimento à trama com ênfase no destino de seus personagens.
Consciente disso, Jurassic World segue pelo caminho mais óbvio: aproveitar de seu caráter de recomeço da série e traçar os mesmo caminhos do original. Estão lá os personagens símbolo e marcados pelo estereótipo, as reviravoltas de cunho de terror, a formação da família em meio ao caos... o longa dirigido por Colin Trevorrow - alguém que já provou saber fazer bem o arroz-feijão de gênero no fraco Sem Segurança Nenhuma - guia-se bastante na adaptação do livro de Crichton, e aqui e ali atualiza alguns de seus elementos mais temporais e insere mudanças com resultados distintos.
Na trama, o parque dos dinossauros finalmente foi aberto ao público e garantiu sucesso absoluto em seus primeiros anos de funcionamento. Atrás de novas maneiras de aumentar a renda e o interesse dos pagantes (agora muito mais acostumados com a presença dos animais), a equipe de pesquisa liderada pela administradora do parque Claire (Bryce Dallas Howard) e o doutor Henry Wu (B.D. Wong) criam o Indominus rex, primeiro dinossauro que é fruto da combinação genética de várias criaturas jurássicas. Mas o ser escapa de seu cativeiro, e começa a criar um rastro de destruição e morte por onde passa na ilha.
É logo nesse prenúncio que se percebe a principal adição feita por Trevorrow à franquia. Agora, além de servirem como símbolo das forças naturais, os dinossauros também são representação do próprio ser humano na figura do grande e letal antagonista, que por onde passa só gera a matança e a perturbação na ordem natural das coisas. A alegoria é básica, mas funciona no roteiro escrito a quatro mãos, que consegue conduzir seu crescimento até um explosivo e extremamente satisfatório clímax no terceiro ato.
Mas se nas atrações há novidades, nos humanos as regras do primeiro longa prevalecem. Culpa em parte da própria estratégia de repetição, Jurassic World não se arrisca em trazer novos temas em seus personagens, que se bastam em refazer as discussões do filme de 93 e cumprir seus papéis representativos, seja este o do olhar infantil sobre a criação ou do poder destrutivo da cobiça. As únicas mudanças que o diretor faz aqui são circunstanciais, como denotar mais a quebra da família nos tempos modernos (os pais das crianças estão se separando), dar força masculinizante de liderança ao teorista do caos - o Owen Grady de Chris Pratt é no fundo uma repetição do Ian Malcolm de Jeff Goldblum - ou mudar o gênero do personagem em fuga de seu relógio biológico - algo que se com um homem passava pouco desapercebido, com uma mulher definitivamente emite um machismo involuntário.
De resto, Jurassic World é um filme bastante reverencialista, inserindo desde a fotografia aos cenários os mais variados tipos referências à franquia e seus elementos mais marcantes - Pessoalmente, o que mais interessou foi a presença do livro de Malcolm na mesa do personagem de Jake Johnson. Uma atitude honesta, vale dizer, já que estar consciente da importância do original e respeitar suas fundações é um bom começo para quem busca o reinício da franquia como uma criança em visita às ruínas de um parque abandonado pelo tempo.

Nota: 8/10

domingo, 3 de maio de 2015

Crítica: Noite Sem Fim

Patriarcas em conflito com a realidade.

Por Pedro Strazza.

Nos filmes de máfia, é comum assumir logo de início que na família quem comanda é o pai. Quase uma característica básica do gênero, essa identificação patriarcal dos negócios tem origem no desenvolvimento histórico da sociedade, e presume o homem como mais capacitado que sua mulher e seus filhos para proteger esses e outros parentes próximos dos "perigos de fora". É um viés machista e ultrapassado, que vem sendo combatido já há décadas com a revolução das relações familiares e sua consequente desconstrução em novas maneiras de liderança e organização.

O crime, porém, parece sempre estar atrasado em relação ao mundo, e pelo menos no cinema sua formatação ainda mantém como máxima a afirmação do pai de família, mesmo esta chocando-se com a realidade de tempos em tempos. Saber como esse choque ocorre e se a crise de relações de fato acontece aparecem então como temas interessantes a serem analisados, e Noite Sem Fim os usa em sua trama pronto para tentar entendê-los a fundo.

É de confrontos, afinal, que o longa dirigido por Jaume Collet-Serra constrói sua história, e os três guerreiros que a protagonizam são justamente chefes de família. De um lado temos ambientado em uma premissa de último serviço o típico conflito de Davi e Golias, representados nas respectivas figuras do mercenário Jimmy Conlon (Liam Neeson) e do líder do crime organizado Shawn Maguire (Ed Harris); do outro, o drama geracional e de legado vivido por Conlon com o filho Mike (Joel Kinnaman). E ambos são acionados pelo ato mais indesculpável em questão de genealogia: o assassinato de um filho, o fim prematuro de uma linhagem inteira.

Estabelece-se assim entre os envolvidos um impasse sem maiores saídas senão à da morte, cuja obsolescência é óbvia no panorama contemporâneo desde o primeiro instante de existência. Enquanto Maguire se vê obrigado a autodestruir o resto de seu mundo por ter sua herança destruída em definitivo - mesmo ele sabendo que tal futuro já estava comprometido pelos mesmos erros que havia presenciado nos colegas mortos na juventude -, Mike se vê na ingrata posição de ter de apostar a sobrevivência de sua pessoa e família ao passado renegado, a figura paterna corroída pelo mal ao qual se quer ver tão distante.

O vilão em ambos os casos, claro, é o homem isolado, o mercenário que na busca por algo a mais acabou sem ninguém e vive em desgosto profundo. Dito isso, é curioso perceber como o roteiro de Brad Ingelsby use do antagonista principal como justiceiro, e faz de Jimmy um herói em combate com o próprio passado. Um clichê bem empregado (o detetive interpretado por Vincent D'Onofrio está posicionado sem maior elaboração para apenas lembrar do peso carregado pelo protagonista, por exemplo) e feito para fazer fluir a narrativa, mas que encontra seus momentos - e é perfeito para Neeson reproduzir seu arquétipo recente de figura de lei em busca da redenção.

Embora tenha seus problemas na hora de contar sua história - a fotografia de Martin Ruhe parece não entender como lidar com espaços para a ação, a exemplo das cenas envolvendo banheiros -, Noite Sem Fim desempenha bem seu papel de bater de frente o tradicional com os novos tempos. Não à toa, o super mercenário feito por Common contratado para matar pai e filho surge robótico e com os aparatos mais modernos, pronto para dar cabo do passado e abrir espaço para o futuro, seja esse qual for.

Nota: 7/10

Gostou? Assista Também:

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Review: Demolidor - 1° Temporada

Uma origem profunda para um confronto maniqueísta. 

Por Pedro Strazza.


Das várias particularidades existentes em Demolidor em relação ao universo que pertence, a mais curiosa definitivamente é seu caráter urbano. Após anos desenvolvendo filmes e séries focados em personagens que representam instituições ou visem a salvação da humanidade, é estranho ver a Marvel Studios contar a história de um homem que não sai de casa para combater o mal do mundo ou de sua cidade, mas sim de seu próprio bairro.

E o tom local do seriado dedicado ao Homem Sem Medo não poderia ser mais apropriado. A ausência de um grande combate no pano de fundo e de poderes espalhafatosos permite à série criada por Drew Goddard uma aproximação inédita do universo cinematográfico da Marvel com a realidade da população que o habita e que foi obrigada a passar por eventos maiores à sua existência. A destruição ocorrida em Nova York pelo clímax do primeiro Vingadores e o ambiente de tensão advindo de tais acontecimentos, afinal, serve como ponto de partida ideal para o embate planejado nesta primeira temporada.

Os combatentes aqui, porém, não carregam em sua essência os conceitos de bem e mal definidos, mas tem eles misturados em um caldeirão de incerteza quanto ao efeito de seus atos. É justamente essa dúvida que conduz as trajetórias de Matt Murdock (Charlie Cox) e Wilson Fisk (Vincent D'Onofrio) no primeiro ano de Demolidor, em um típico arco de origem para suas futuras e famosas personas: A intenção inicial de seus planos com a Hell's Kitchen pode ser a melhor possível, mas o curso dos eventos e as ações de caráter dúbio os faz repensar sua própria posição no grande jogo das coisas - não à toa, a frase "Estou fazendo o melhor para minha cidade" é repetida exaustivamente por ambos em diversas situações.

Conhecer as duas figuras centrais torna-se portanto uma obrigação para evitar o maniqueísmo simples, e esta é a chave do sucesso da série. Ao longo de seus 13 episódios, Demolidor se aprofunda no perfil de Murdock e Fisk para entender ao mesmo tempo os motivos que o levaram a estar ali e como eles se transformarão nas figuras que conhecemos, e contrasta-os a todo instante para o espectador compreender a oposição entre eles. Seja no design de produção, que destaca o multicolorido berrante nos lugares ocupados por Matt e os brancos e pretos nos de Wilson - e aqui é divertido destacar nos figurinos vestidos por sua namorada Vanessa (Ayelet Zurer) o uso frequente da cor característica dos ternos do Rei do Crime nos quadrinhos -, ou na montagem, o programa realça a noção de antagonismo entre herói e vilão, mesmo estes tendo no fundo o mesmo objetivo.

Nesse quesito, o seriado conta com dois ótimos atores para protagonizar o conflito apresentado. Se Cox é decisivo para encarnar um Matt Murdock que sente o peso da responsabilidade de seus poderes e a perda do pai, mas procura fazer um futuro melhor longe das grandes empresas de advocacia e com o vigilantismo, D'Onofrio é brilhante em fazer um Wilson Fisk atormentado, que mesmo com boas intenções com a Cozinha do Inferno sente o caminho duro trilhado e as ações maléficas tomadas. Seu relacionamento com Vanessa é acima de tudo uma visita a seu psicológico estraçalhado pelo pai, e ajuda a compreender muito bem o perfil impulsivo e monstruoso do Rei do Crime.

Essa dualidade funciona muito bem para tema, mas não consegue esconder do espectador os problemas da série, a exemplo do uso dos coadjuvantes. Enquanto vemos o confronto entre Murdock e Fisk se desenrolar, é frustrante o uso de Foggy Nelson (Elden Henson) e Karen Page (Deborah Ann Woll) e seus respectivos bons intérpretes como simples alívio cômico enquanto não utilizados pela narrativa central. Ao mesmo tempo, a enfermeira Claire (Rosario Dawson) desaparece e reaparece sem maiores explicações, e interrompe um desenvolvimento interessante de seu relacionamento com o protagonista.

Mas o grande erro do seriado ocorre de fato na sua transposição de gêneros, ocorrida a partir da metade de sua temporada. Mesmo que se combinem muito bem em outros casos, a transformação da trama policial e de vigilantismo em uma super-heroica prejudica Demolidor visivelmente, dotando-o de uma afetação incômoda e incoerente em alguns eventos - cujo ápice com certeza é a maquinação final de Wesley (Toby Leonard Moore) para ajudar o seu poderoso chefe.

São erros bobos os cometidos pela série, mas que em nenhum momento estragam a graça de seus acertos. De seu embate de mocinho e bandido conturbados às cenas de ação muito bem orquestradas (como esquecer o maravilhoso encerramento do segundo episódio?), Demolidor funciona muito bem para história de origem de seus personagens e como parte integrante do universo ao qual pertence. Seu encanto maior, porém, é a habilidade com a qual faz um próprio mundo para si e povoa-o com dois personagens extremamente bem elaborados em seus desejos e medos - este último um elemento muito importante para a formação do herói do título.

Nota: 8/10