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domingo, 23 de julho de 2017

Crítica: De Canção em Canção

Terrence Mallick encontra intimidade e a vida simples no caos contemporâneo.

Por Pedro Strazza.

"Nós fazemos o nosso sistema, nós fazemos as nossas regras, nós não respondemos a ninguém" enuncia os versos de "Never le Nkemise 2" enquanto ocorre em cena a confusão típica de um público de festival logo na introdução de De Canção em Canção. Cantada pelo grupo de rap rave sul-africano Die Antwoord como um alerta às novas gerações de seu país contra a caretice do mundo, a música serve ao longa como uma espécie de aviso ao espectador, um mantra que chama a atenção para a lei anárquica que rege a ordem natural das coisas desta realidade como um verdadeiro pandemônio.

Entender esta "ordem" e seu significado aos personagens enquanto prosseguem no caos de suas existências passa a ser então a chave para determinar o que o diretor Terrence Mallick busca alcançar no cenário musical de Austin, capital do Texas também conhecida como a cidade dos shows ao vivo. Famoso por obras dispostas a encarar a mitologia da cultura americana como verdadeiras passagens bíblicas e o intervalo quase excêntrico que toma entre os lançamentos de suas obras, Mallick na última década adquiriu uma faceta mais prolífica (ele produziu sete longas nos últimos sete anos) e voltada à realidade de nossos tempos, abandonando os filmes de época em favor de uma compreensão da validade dos mecanismos tradicionais de seu cinema na contemporaneidade. 

Em De Canção em Canção, este processo desemboca em um conflito inevitável do cineasta com a atualidade. É o choque de suas narrativas românticas, pautadas pelos triângulos amorosos e a busca constante do indivíduo por um paraíso emocional disposto a confortá-lo, com a modernidade líquida e as relações em eterno fluxo do século XXI, uma pauta de amor livre multiplicado - traduzida no longa em uma multiplicação de triângulos e romances - que Mallick encara como uma consequência direta das crises institucionais que ele já havia tratado em Amor Pleno e Cavaleiro de Copas. É com este último, inclusive, que este novo trabalho mais se relaciona na filmografia do diretor, não só porque eles foram filmados ao mesmo tempo mas também porque em ambos esta crise do indivíduo com o sistema está posta como centro da narrativa.

Mas se Cavaleiro de Copas terminava preso a uma série de chavões e lugares-comuns que o tornavam em uma obra das mais redundantes e alienadas, De Canção em Canção se sai melhor nesta proposta ao se mostrar disposto a abraçar o caos emocional e o cenário anárquico vivido por seus personagens. Pois ainda que os protagonistas BV (Ryan Gosling), Faye (Rooney Mara) e Cook (Michael Fassbender) se portem como típicos arquétipos do cinema de Mallick - os dois primeiros passam pelo arco dos amantes amaldiçoados e o último se comporta como um demônio disposto a no fim se consumir no inferno em que vive de rei -, os diversos relacionamentos vividos pelos três na trama faz ressoar com maior firmeza na obra essa noção do esvaziamento individual que é em simultâneo muito cara ao cineasta desde seu primeiro trabalho (Terra de Ninguém) e à sociedade contemporânea como um todo. É um ponto de ação ideal ao diretor, principalmente porque seu longo casamento profissional com a câmera de Emmanuel Lubezki o permite de novo tirar da dinâmica de seus atores momentos de intimidade muito particulares e belos, algo capaz de potencializar todo o processo.

São momentos, porém, que terminam por se manifestar nas bordas da produção e não em seu núcleo, servindo quase de desdobramento acidental para a narrativa desenvolvida pelo filme. A Mallick interessa aqui de fato a elegia da vida simples e do amor puro, traço característico de sua obra que em De Canção em Canção se manifesta com maior intensidade mais próximo do fim e atinge a trama como um tom moralista nada calculado a esse espírito juvenil de uma busca pela liberdade - tal qual o restante dessa fase contemporânea do cineasta, esses fins trafegam muito próximos de soarem como valores ultrapassados ou resoluções escapistas. Mas ainda que a obra busque concentrar isso no trio protagonista, quem curiosamente melhor incorpora esse viés e se sobressai por tal é a personagem de Natalie Portman, que vive a esposa de Cook e atravessa na trama um arco de libertação a ser determinado pelo trauma (com a percepção daquilo perdido nessa busca, atestado no diálogo com a prostituta) e, depois, a tragédia.

O que sobra então ao cinema de Mallick, além da grande dança de corpos em atração, a eterna identificação de símbolos (a tatuagem dizendo "falsas promessas", a camisa com o mapa astral, o x pintado em batom no peito de Mara) e os momentos no mínimo peculiares que pontuam a narrativa? Se o diretor se trai em De Canção em Canção ao não se desvincilhar do choque de seus valores com a contemporaneidade e colocar como solução a esse momento "anárquico" dos relacionamentos uma fidelidade pouco convincente às instituições em crise - algo ressaltado na breve participação da cantora Patti Smith -, sua percepção cristã sobre o cenário caótico acaba por se tornar no único suporte capaz de segurar toda a estrutura, principalmente porque isso permite a Mallick transmitir na tela a sensação de um paraíso que aos poucos se transforma em um inferno, uma concepção de difícil execução e que de certa forma o torna em um cineasta único na área. E para a juventude que busca ter cada vez mais tempo e liberdade, essa lenta mudança de visão sobre a libertação é um passo quase necessário na execução de uma produção disposta a entender o que é no fundo um quase processo de amadurecimento.

Nota: 5/10

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Crítica: Jackie

Pablo Larraín traça retrato de tragédia americana com contornos de fim de reinado.

Por Pedro Strazza.

Não é apenas pela fotografia de planos fechados que se percebe em Jackie que a produção não seguirá os moldes das cinebiografias ou mesmo dos dramas de luto convencionais. Novo trabalho de Pablo Larraín, o longa sobre Jacqueline Kennedy nos dias posteriores ao assassinato de seu marido e presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy evidencia aos poucos e por elementos pequenos que há algo a mais em jogo na narrativa elaborada pelo cineasta chileno no esforço de acompanhar os movimentos políticos e particulares da ex-primeira-dama para lidar com a tragédia que cerca ela e seus filhos.

A mera menção à presença de ações da viúva que envolvam o Estado no momento de transição ao qual ele (e também ela, claro) é forçado a se submeter já é um indício do quão envolvido a cinebiografia está com o estilo do diretor, que repete no filme sua conhecida metodologia de análise de imagem e poder sob os espectro de uma realidade fantástica. Esta lógica do cineasta, porém, ganha agora contornos muito mais ambiciosos graças à mudança de enfoque inerente: Se em trabalhos anteriores Larraín estava atento ao Chile e (inevitavelmente) à ditadura passada pelo país em tempos recentes, com esta cinebiografia ele tem pela primeira vez a oportunidade de enfocar os Estados Unidos e seu processo histórico.

É a maneira como se encara o país e sua História que potencializa os propósitos do filme, cuja temática central reside justamente na aflição de indivíduos para deixar sua marca para a posterioridade - algo exposto sem muita elegância por Bobby Kennedy (Peter Sarsgaard) em determinado momento da narrativa. Como no recente Neruda, Larraín trabalha os eventos históricos de Jackie sob a dualidade do que é feito e o que é contado, mas agora também traz à pauta a noção do espetáculo em seu teor mais mórbido para trabalhar a figura de Jackie (Natalie Portman), protagonista consciente do próprio papel histórico da vez, em sua saída do poder. Atormentada pela morte do amado, a ex-primeira-dama tem no longa a difícil tarefa de legitimar a posição histórica do marido pela realização de um trajeto fúnebre grandioso, e para isso acontecer ela precisa enfrentar pessoas que buscam fazer da natural transição política um evento pequeno e sem maior alarde.

Estes dois conflitos - tanto o interior da viúva para solucionar a questão em mãos quanto da protagonista contra aqueles que a cercam - conduzem o filme pelo meio político, e conforme estes se aproximam de suas resoluções o diretor revela uma concepção do governo do país que ambiciona a forma palaciana. Isso não apenas surge na recorrência da canção final do musical Camelot (aqui convenientemente apresentada como música favorita do falecido) mas também na do programa televisivo no qual Jackie abre a Casa Branca à população: nestes momentos, o longa ensaia uma transformação da família Kennedy em uma realeza que a sociedade americana sempre almejou mas nunca possuiu, um legado que torna a protagonista e seu marido eternos no imaginário do país - o plano final do longa, inclusive, serve para reforçar esta posição da produção.

O que enfraquece os anseios de Larraín com os Kennedy, porém, é que neste processo de emancipar o casal como dono de um reinado posto em decadência de forma súbita ele acaba por deixar de lado o drama de luto ao qual sua protagonista passa. Se Portman realiza uma performance ímpar de humanização sobre Jacqueline ao incorporar seus trejeitos e a dor sentida pela perda do marido - um campo no qual a atriz é mestre já há algum tempo, como prova a cena em que sua personagem lava no chuveiro o sangue do marido do próprio corpo - o diretor por sua vez não consegue encontrar outra forma de canalizar este sofrimento que não seja pela exposição constante, reduzindo estes momentos a situações particulares - o passeio da protagonista pelos salões da residência presidencial, a conversa com um padre (John Hurt) - e quase isolados para não obstruir sua análise política.

Assim, cria-se em Jackie uma sensação de eterna artificialidade, no qual os personagens soam irreais na hora de atuar como humanos - quando a protagonista está no avião prestes a desembarcar com o corpo, por exemplo, sua preocupação maior é com o vestido que usa, com a aparência que exibirá frente ao público ao passar com o corpo de JFK. Larraín tem no filme todos os elementos para tornar real o seu registro particular de um dos momentos mais frágeis de uma das nações mais poderosas do mundo, mas o retrato de uma nobreza em formação que tanto ambiciona acaba suprimido pela ausência de um drama palaciano que justifique sua existência.

Nota: 6/10

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Crítica: De Amor e Trevas

Natalie Portman estreia na direção com filme que se beneficia de mistério indecifrável.

Por Pedro Strazza.

Já não é novidade no meio cinematográfico, mas nunca deixa de ser interessante quando um ator ou atriz tem a oportunidade de assumir a direção de um filme. Quase um movimento de virada na vida destes profissionais, que os permitem abandonar sua posição de submissão para ter maior controle criativo, esta mudança funciona também como um momento de descoberta para o espectador, cuja imagem formada sobre o cineasta tende a ser aprofundada conforme ganha-se maior contato com o que este vê e pensa a realidade à sua volta. Dessa forma, a escolha do projeto tem grande importância na maneira como tal processo se dará, e no caso de Natalie Portman essa questão fica ainda mais evidente.

Com a carreira estabelecida em Hollywood desde a infância, a atriz israelense meio que recorre às origens em seu debute na função em longas, optando por dirigir a adaptação de Uma História de Amor e Trevas, livro autobiográfico do celebrado autor e seu conterrâneo Amós Oz, como forma de abordar o conflito entre Israel e Palestina sob seu ponto de vista mais distante dos fatos. Portman, que também é autora do roteiro e atua no filme como Fania, a mãe de Oz (Amir Tessler), demonstra ter bastante consciência desta distância, e sabe usar esta desvantagem a favor de seus próprios objetivos com a produção.

Mas o que a diretora busca com De Amor e Trevas, afinal? De início, o filme dá sinais de interesse pela posição de Oz como testemunha dos fatos históricos que ele e sua família presenciam na Jerusalém da pós-Segunda Guerra e dos primeiros passos na tensão entre judeus e árabes na região. A questão da Palestina, porém, logo deixa de ser protagonista na narrativa e volta a ser parte do contexto, que nas mãos da cineasta torna-se por sua vez em cenário para explorar as relações do autor-protagonista com a mãe, cuja figura enigmática serve à obra de meio, ponto de partida e de chegada.

A obra conscientemente mantém em segredo os porquês de Fania se sentir tão aflita e depressiva, criando entre espectador e personagens uma distância que acaba por esfriar a narrativa e a impede de ter maior impacto (as duas cenas que mostram vítimas do fogo cruzado dos confrontos, por exemplo, soam esvaziadas de qualquer significado na paleta fria de cores da fotografia de Slawomir Idziak). Portman parece entender a indecifrabilidade da mãe como motor do desenvolvimento profissional e humano de Amós - e, por consequência, do fascínio que o longa exerce sobre o espectador -, e faz disso tanto um norte para seu trabalho de atriz (os seus gestos e reações sempre dão a entender mais de uma coisa) quanto de diretora, que encontra nas sequências de sonho e histórias contadas pela mãe alguns momentos tocantes de lirismo.

Falta a Portman nessa estreia, porém, um melhor grau de separação entre esses dois pólos de seu lado artístico, até porque um prejudica o outro de maneira bastante visível. Se a diretora parece trabalhar a história em cima da atriz apenas para se dar maior liberdade e assim favorecer sua própria atuação, a atriz soa como se bloqueasse o caminho narrativo em grande parte da história, restringindo a direção de um maior aprofundamento em outras temáticas sugeridas. Não há uma consonância discernível entre as duas partes, que terminam por travar De Amor e Trevas naquilo que o é mais importante: a relação materna e primordial entre Amos e Fania.

Como filme de início de carreira, entretanto, o lado diretor de Portman também traz soluções funcionais ao retrato que busca realizar, mesmo quando envolto em suas próprias indecisões. O trabalho que realiza em cima do mistério, que pode muito bem vir a calhar como tema recorrente de seus próximos projetos, se basta para ferramenta de atração, capaz de fazer o público compreender o enigma oferecido por ela sem contudo decifrá-lo plenamente.

Nota: 6/10