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sábado, 5 de agosto de 2017

Crítica: Planeta dos Macacos - A Guerra

Fim da jornada de César se consuma em épico bíblico masculinizante de macacos.

Por Pedro Strazza.

[Esta crítica aborda reviravoltas da trama. Se você ainda não assistiu o filme, leia por sua própria conta e risco]

Desfecho de uma trilogia iniciada sob olhar de desconfiança e que provou seu valor em meio a uma miríade de tentativas dos estúdios de reinserir sucessos do passado sob uma nova roupagem contemporânea, Planeta dos Macacos - A Guerra é um filme que desde os seus primeiros momentos sabe muito bem da existência da carga dramática ao seu redor. Seja a gravidade adquirida no conflito entre humanos e macacos, o futuro previamente determinado que cada vez mais está próximo de sua realidade ou o próprio teor de capítulo final que no geral domina os terceiros episódios das séries cinematográficas, o longa de Matt Reeves parece enfim reconhecer o peso das múltiplas tragédias dos outros capítulos e usa disso como uma força motora primária, abandonando o teor de experimento controlado para abarcar o tom do épico antes apenas insinuado.

É uma mudança radical para a franquia se considerar que os antecessores adotavam certa desambição em suas histórias, preferindo tramas intimistas para depois refleti-las em uma escala maior. O truque está no roteiro: se os dois primeiros filmes tinham autoria de Rick Jaffa e Amanda Silver, A Guerra é escrito (além de Mark Bomback) pelo próprio diretor, que já havia exibido em O Confronto uma vontade muito explícita de levar o status da jornada do macaco César (Andy Serkis) a maiores alturas e aqui tem maior liberdade de materializar isso na tela. No longa, essa ambição se inaugura com velocidade na abertura, que acompanha uma operação de ataque de tropas militares humanas contra os símios sob referências da Guerra do Vietnã e de conflitos da exploração da América, colocando sob contraste o armamento e figurino de guerra dos soldados do Coronel de Woody Harrelson com a fortaleza de troncos e os arco-e-flecha dos macacos.

O Vietnã em si permanece uma diretriz constante na produção, mas o que a narrativa desenvolvida por Reeves persegue mesmo é o tom grandioso dos épicos bíblicos, uma opção possível graças à semelhança do arco de liderança do protagonista com o da figura de Moisés. Neste terceiro capítulo, essas similaridades são tratadas como núcleo central da obra - ele não hesita em tratar os macacos sob a ótica dos judeus e seu sofrimento para chegar à Canaã - na mesma intensidade com que o longa se comporta como o típico filme masculino, algo bastante evidente na trama de vingança percorrida por César e o uso das poucas personagens femininas de alívio e esperança às tormentas da realidade. É uma combinação forte e bem trabalhada pelo diretor, que faz a história atravessar por diferentes subgêneros (o faroeste, o pós-apocalíptico e mesmo o de guerra, todos acenados na trilha sonora de Michael Giacchino) sem nunca perder de vista esta estrutura maior.

O que o novo Planeta dos Macacos não percebe neste processo - e que mina a intensidade de suas maiores qualidades - é o quão segmentado o seu roteiro fica nesta abordagem, ainda mais porque o longa insiste em manter certa individualidade no arco de seu protagonista no épico que lidera. Além da obra dar a sensação constante de ser pautada por cenários independentes (a floresta, o esconderijo, a vila abandonada, a fortaleza) ao invés de acontecer o contrário, a cruzada de César para encontrar e matar o Coronel separa o seu sofrimento do vivido por seu povo, cujas mortes são retratadas na tela com toda a violência possível para uma classificação indicativa baixa. A produção faz isso com um objetivo preciso - sumarizado na tocante cena das jaulas e do reencontro de César com sua missão graças à jovem humana Nova (Amiah Miller) -, mas a ação termina por redirecionar grande parte da escala buscada por A Guerra a fins intimistas sem possuir qualquer intenção nesta troca.

A medida provoca um efeito curioso na franquia, pois se nos outros dois o problema era o filme ter ambições maiores que a história permitia aqui ocorre justo o reverso, com o diretor optando por decisões acanhadas dentro de uma trama extremamente ambiciosa. Em outras situações isso seria um erro fatal - César ao longo dos outros dois capítulos foi construído sob a figura de líder e neste desfecho ele trai esta lógica por completo -, mas Reeves é capaz de fabricar desta aparente inoperância uma variedade de passagens recompensadoras, beneficiado ainda pelos efeitos visuais responsáveis pela animação dos macacos estarem afiadíssimos. Embora se comporte no fundo como uma grande amálgama de sets pieces distintas e perca o ritmo à partir da situação no quartel dos militares, o terceiro episódio consegue se passar como uma obra mais uniforme pelo sentimentalismo que reproduz nos pequenos momentos de alívio dentro de todo o sofrimento imposto, seja nos macacos prisioneiros conseguindo alimentação ou em cenas inocentes como a de uma criança interagindo com um gorila - até mesmo o Bad Ape, claro alívio cômico vivido por Steve Zahn, ocupa certa responsabilidade aí.

Isso porque A Guerra, assim como A Origem e O Confronto, perpetua em seus melhores momentos a noção da dor causada pela perda da inocência, um elemento que se nos outros dois capítulos era capaz de redimir o protagonista frente ao ódio dos homens neste terceiro se torna enfim em sua condenação. Se na Bíblia Moisés não podia entrar na terra prometida por ter sido infiel a Deus, à César a entrada no Planeta dos Macacos não é permitida por todo o seu ódio criado e usado para salvar e dar segurança ao seu povo, uma atitude que como seu semelhante religioso o restringe a apenas contemplar os feitos e entrar para a História antes do último suspiro.

Nota: 7/10

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Crítica: O Destino de Júpiter

Ópera espacial dos irmãos Wachowski é prejudicada por exposição excessiva.

Por Pedro Strazza.

Criatividade é uma palavra que define muito bem a obra dos irmãos Wachowski. Consagrados no cinema com Matrix (apenas seu segundo trabalho na direção!), Andy e Lana possuem a capacidade única de conceber mundos extremamente fantasiosos que em nenhum momento soem artificiais para seu público. Com seus respectivos erros e acertos, foi assim que eles fizeram com Speed Racer e sua velocidade hiper-colorida (dotado também de uma narrativa revolucionária, mas pouco reconhecida), A Viagem e suas conexões humanas entre tempos e, claro, a trilogia Matrix e sua crítica social latente.
Não é surpresa, portanto, que O Destino de Júpiter, o sétimo filme da dupla na direção, tenha como ponto forte sua mitologia. Pela primeira vez arquitetos de um universo inteiro, os Wachowski mais uma vez demonstram seu maior talento e elaboram uma gama de mundos e personagens deslumbrantes, criados na fusão de características animalescas - as naves similares a aquários, o design de som dos tiros das armas que lembram latidos e pios, as próprias feições dos mutantes, a lista continua - com a fascinação do homem com o espaço e os mitos criados por ele a partir disso - os sinais em milharais tornam-se locais de decolagem de naves, a reconstrução rápida de cidades (indireta ao destrutivo O Homem de Aço de Zack Snyder, talvez?) ocorre depois de grandiosos conflitos, etc.
É perceptível o cuidado dos dois diretores na invenção visual de seu universo, mas parece equivocado a maneira como eles o apresentam ao público. Por mais belo e interessante que seja, o cosmos de O Destino de Júpiter não ganha muitos espaços para falar por si só, pois seus conceitos e características são constantemente introduzidos por meio de diálogos expositivos, encadeados em sequência a ponto de exaustão. A ferramenta em si não é o problema (de que outra maneira saberíamos o que é um licomutante?), mas seu uso é desproporcional ao aceitável.
E esse não é o único erro infeliz do roteiro escrito por Andy e Lana. Talvez para embasar ainda mais o caráter crítico do filme à indústria do rejuvenescimento (um dos grandes temas da produção), talvez querendo deixar mais claro sua aceitação como space opera, a dupla força em seus personagens já planos e de única função um lado caricato, ao qual seu elenco segue com facilidade. E se em alguns atores a canastrice não afeta (Sean Bean sabe muito bem lidar com ela para compor seu Stinger), em outros ela prejudica de maneira definitiva, como é o caso do vilanesco Balem, interpretado por Eddie Redmayne com toques e timbres exagerados.
Mesmo construindo algo tão único, O Destino de Júpiter peca por querer explicar demais algo que poderia ser traduzido pela imagem, um terreno tão familiar aos Wachowski - e que ainda dominam bem, como as bem trabalhadas cenas de ação evidenciam - mas pouco usado aqui. Falta ao roteiro explorar mais o fantástico desconhecido com os olhos da protagonista Jupiter (Mila Kunis), e todos os outros aspectos do longa (principalmente a trilha sonora orquestrada pelo sempre sintonizado Michael Giacchino) parecem concordar com isso.

Nota: 6/10

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