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segunda-feira, 1 de maio de 2017

Crítica: Guardiões da Galáxia Vol. 2

Continuação percorre caminhos diferentes do original para fundamentar sua fórmula.

Por Pedro Strazza.

[Esta crítica aborda reviravoltas da trama. Se você ainda não assistiu o filme, leia por sua própria conta e risco]

Os filmes da Marvel Studios carregam de uma maneira ou de outra o tom juvenil em suas histórias pelo menos desde o primeiro Vingadores, longa onde a fórmula das produções do estúdio foi sacramentada como um misto de evocação dos quadrinhos da editora (em seus múltiplos arcos de personagem que são muito parecidos entre si) com toda a grandiloquência possível proporcionada pelos efeitos visuais. Embora mantenha esta estrutura em mente, Guardiões da Galáxia Vol. 2 encontra-se muito mais investido no viés adolescente que seus antecessores, tornando o que era até então um flerte tímido e sincero no meio condutor central de sua narrativa.

Esta decisão é de certa forma a raiz de todas as forças e problemas da continuação, que abandona o viés de subversão bem intencionada do original (uma espécie de fortalecimento da fórmula pela piada com esta) para assumir com maior propriedade suas origens nos quadrinhos. De volta à cadeira de diretor e roteirista, James Gunn faz aqui uma aventura espacial que parece saída dos gibis da editora nos anos 60 e 70 em seus cenários pautados por cores berrantes e trama rocambolesca nas reviravoltas e revelações - o vilão da vez, Ego (Kurt Russell), tem motivações dignas dos antagonistas atormentados e enlouquecidos dessa época, só que em nível divino -, apostando muito mais nas relações entre seus personagens que na ação propriamente dita.

A decisão chega a ser uma surpresa se considerar o modelo de produção até então em vigor no estúdio (mesmo os mais despirocados no visual não buscavam esse nível de verossimilhança), mas não é estranha ao pensar nas maneiras como o cinema de Gunn atua. Cineasta acostumado a imprimir as influências pop de sua formação em suas obras e que nunca mostrou interesse pela ação filmada em cena, o diretor busca em Guardiões 2 substituir o segundo pelo primeiro como maior atrativo de seu filme, tentando pautar as aventuras do grupo de desajustados pelo jogo de referências nostálgicas aos anos 80 (e agora também aos quadrinhos, como bem prova as múltiplas aparições de personagens obscuros do segmento cósmico da Marvel) que se tornara o principal atrativo do primeiro capítulo. É uma medida que é escancarada logo nos créditos iniciais - no qual vemos Baby Groot (Vin Diesel) dançando ao som de Mr. Blue Sky do Electric Light Orchestra enquanto passeia pelo mesmo cenário onde seus colegas lutam até a morte contra um monstro alienígena gigante - e que se confirma ao longo da narrativa nos jeitos inusitados encontrados pelo diretor para relegar as grandes batalhas ao cenário ou torná-las parte da gag (destas, a referência visual a Asteroids no primeiro embate com os Soberanos é minha favorita).

Tal abordagem tem lá suas vantagens para acrescentar humor extra à produção, mas ao mesmo tempo ela também desacelera a história nos momentos em que esta deveria fazer o contrário. Este é um piripaque curioso de se analisar, ainda mais porque Gunn realiza neste Vol. 2 o que é o típico filme de moleque, centralizando a trama em cima de relações tipicamente masculinas - o pai e filho de Peter Quill (Chris Pratt) com Ego, a amizade de Rocket (Bradley Cooper) e Yondu (Michael Rooker) que prescinde a desconstrução da figura de homem durão, mesmo o conflito fraternal entre Gamora (Zoe Saldana) e Nebula (Karen Gillan) passa por questões do tipo - e restringindo as personagens femininas ao papel de figura séria (Gamora, Nebula, a Ayesha de Elizabeth Debicki) ou de esculacho - Mantis (Pom Klementieff) vira escada para o humor pouco sutil de Drax (Dave Bautista), que neste capítulo abandona qualquer pretensão dramática para ser o alívio cômico máximo - enquanto os homens ficam à cargo do humor mais direto. As próprias presenças de Sylvester Stallone e Russell no elenco, inclusive, já são indícios dessa assimilação buscada pelo longa.

Outros trabalhos do diretor, como Seres Rastejantes e o próprio Guardiões da Galáxia, já apresentavam este viés, mas é aqui que ele efetivamente passa a trabalhar isto como princípio fundamental de sua obra. O problema, porém, é que filmes deste segmento tendem ao dinamismo da ação para funcionar, e a ausência deste elemento na narrativa proposta por Gunn torna o longa suscetível ao desgaste progressivo. Não à toa, Guardiões da Galáxia 2 parece sofrer com os atos esticados, com o clímax demorando tanto a acontecer (e terminar) em meio à sua gigantesca colagem de cultura pop que o público fica sujeito ao cansaço.

É uma contradição aparente (longa de ação cheio de movimento e ao mesmo tempo com problemas de ritmo visíveis) que às vezes dá a entender ser parte da maior carga emocional do roteiro, mas estas duas esferas na verdade nunca chegam a se chocar neste sentido. O drama, inclusive, é o que suporta o Vol. 2 nestes momentos de maior arrasto da trama, mesmo com o Quill de Pratt dando sinais de não comportar a aspiração ao protagonismo deste novelão, como na cena involuntariamente cômica na qual ele joga bola com Ego. Gunn pelo menos entende bem das relações elaboradas por ele no roteiro, e talvez seja isso o que baste para fundamentar esta fórmula pautada pela referência e a nostalgia que se constrói na série.

Nota: 7/10

domingo, 4 de dezembro de 2016

Guardiões da Galáxia Vol. 2 na CCXP

Painel do filme deixa claro abordagem visual mais estilizada e colorida.

Por Pedro Strazza.

Se havia alguma dúvida de que Guardiões da Galáxia Vol. 2 é um dos filmes mais esperados pelo público brasileiro em 2017, ela foi dissipada no último painel de sábado do auditório Cinemark da Comic Con Experience 2016. A recepção das 3.500 pessoas presentes no salão ao diretor do filme James Gunn e aos trechos mostrados do filme foram de longe as mais explosivas da programação do auditório, fazendo o chão chegar a tremer em determinados momentos do painel dedicado à sequência da space opera super-heroica da Marvel Studios. Um fato que não passou despercebido por Gunn, que na sua conta no Instagram definiu o painel como um dos "grandes momentos de sua vida".

A animação do público presente não foi à toa. Além da divulgação do segundo trailer oficial (que você pode conferir logo abaixo), a apresentação de Guardiões da Galáxia Vol. 2 na CCXP contou com dois materiais inéditos, ambos provindos da Comic-Con de San Diego: Um trailer estendido, que mostra mais detalhes da produção e revela o visual dos papéis de Elizabeth Debicki, Sylvester Stallone e Kurt Russell; e uma cena, que parece combinar dois momentos da narrativa e mostra a fuga de Yondu (Michael Rooker), Rocket Raccoon (Bradley Cooper) e Baby Groot (Vin Diesel) da prisão dos Ravagers, grupo de mercenários antes liderados pelo primeiro e um dos vilões da história.

Nos três vídeos, o que impera são o humor e um visual estilizado, muito mais berrante na paleta em relação ao já colorido original. Como bem indica o topete tecnonógico protuberante de Yondu (que pelo trailer acentua seu controle sobre sua flecha dourada, agora muito mais rápida e letal), Gunn parece ter assumido aqui um cinema de poses para seu grupo de heróis desfuncionais, que com seus trajes tornam-se verdadeiras estrelas do rock. Isso fica claro não somente pelas silhuetas de Peter Quill (Chris Pratt), Gamora (Zoe Saldana) e Drax (Dave Bautista) em ação no início do trailer divulgado mas também na fuga de Rocket, Yondu e Baby Groot: o slow motion é uma constante na cena, tanto para mostrar a ação da arma do antigo líder dos Ravagers como no momento em que os corpos dos bandidos caem enquanto o trio caminha em uma plataforma, em um daqueles planos definidores dos personagens como objetos cool.

A comédia, porém, ainda deve ser o elemento fundamental para que tudo funcione na história da equipe. Pelo menos nas imagens divulgadas, Groot, Rocket e Drax continuam sendo os pilares de sustentação para os momentos de desarme cômico da trama, ao passo que as novas adições ao elenco carregarão o humor em seus perfis. Gunn prometeu no painel que o personagem de Stallone, cuja identidade ainda é desconhecida, será protagonista de várias piadas no longa, enquanto o Ego de Russell e a Mantis de Pom Klementieff prometem divertir por perfis bastante distintos.

Ainda sobre Kurt Russell, é válido mencionar que seu papel de planeta vivo incorporado em um corpo humano deve proporcionar ao novo Guardiões da Galáxia oportunidades de se desenvolver tanto no drama quanto na comédia. Pai de Quill, o personagem protagoniza uma das cenas mais engraçadas do trailer da Comic-Con de San Diego, quando ao explicar para o grupo como seu receptáculo humano foi feito ele é interrompido por Drax com a pergunta sobre ele ter ou não ter um pinto. A resposta divertida de Ego ("Eu tenho um pinto, e dos mais respeitáveis vale dizer") e a vergonha de Quill com o teor da questão são elementos que evidenciam o potencial do Vol. 2 dentro dos futuros lançamentos da Marvel Studios e o porquê deste grupo ter ganhado tanto destaque entre o público.