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segunda-feira, 2 de março de 2015

Não Perda!: Fevereiro/2015

Por Pedro Strazza.

O mês acabou, e está na hora de ver aqueles lançamentos legais que ninguém viu (mas deveria ver) porque "Não deu tempo..." ou "Não quis arriscar minha grana suada com isso!". No Não Perda! de fevereiro de 2015 temos:

Embora tenha sido Sniper Americano que arrecadou milhões nas bilheterias e que ganhou várias nomeações na temporada de prêmios, o filme de guerra que deveria ter mesmo recebido todas essas honrarias foi Corações de Ferro. O longa dirigido por David Ayer (responsável futuramente pela adaptação do Esquadrão Suicida para as telonas) possui não só pontos técnicos excelentes - o design e a mixagem de som foram esnobados sem justiça no Oscar - como também traz uma narrativa excelente, capaz de tornar a história de um tanque e seus soldados em um faroeste de guerra quase claustrofóbico.

São muitas as ressalvas que podem ser feitas a essa ópera espacial dos irmãos Wachowski, mas não se pode negar sua criatividade visual encantadora. Assim como em A Viagem, Speed Racer e na trilogia Matrix (o primeiro sendo o ápice precoce dos cineastas), a dupla de diretores concebe em O Destino de Júpiter um universo e mitologia fascinantes, cuja complexidade tornou-se um dos principais motivos para o filme fracassar (com certo merecimento) como produto e obra. O que é uma pena, vide a originalidade única de Andy e Lana.

  • Nick Cave - 20.000 Dias na Terra

Normalmente, um documentário sobre uma personalidade tende a afastar sua produção do protagonista para poder desconstruir sua figura e fazer seu retrato. É quase uma lei não escrita esta metodologia, e Nick Cave a quebra junto dos diretores Iain Forsyth e Jane Pollard para refletir sobre sua própria existência e a maneira como a música o atinge no documentário centrado em sua pessoa. Nick Cave - 20.000 Dias na Terra é acima de tudo um filme denso formado em sensações, poderoso por trazer a reflexão egocêntrica do músico para o espectador.

Não Perda!: Janeiro/2015

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Crítica: Corações de Ferro

Faroeste de desumanização.

Por Pedro Strazza.

Em um terreno baldio e sem vida, o vulto de um homem montado em um cavalo surge no horizonte esfumaçado. Cambaleante, mas buscando manter a postura de oficial, o cavaleiro faz seu animal andar em uma marcha lenta, como se quisesse encontrar alguma coisa no local. Ele dá uma guinada à direita e logo entra em uma espécie de cemitério metálico, onde corpos se acumulam em proporção semelhante a de máquinas de combate destruídos, formando juntos um silêncio interrompido somente pelo estalar das labaredas de fogo. E quando o cavaleiro julga estar sozinho nesse sepulcro, eis que um soldado pula de uma das tumbas de metal para assassiná-lo de surpresa.

Descrito acima, o plano que abre Corações de Ferro apresenta ao espectador de imediato duas características importantes do filme: sua brutalidade e seu quê de faroeste. Em seu décimo trabalho como diretor, David Ayer refaz os passos de longas como O Resgate do Soldado Ryan e Bastardos Inglórios e usa os violentos dias finais da Segunda Guerra Mundial para ambientar uma história que remete às aventuras de cowboys no Velho Oeste cinematográfico de John Wayne.

Escrita por Ayer, a trama acompanha o tanque Fury e seus cinco tripulantes, que além de morarem dentro do blindado vivem uma rotina diária de pequenos embates cheios de tensão dentro do território alemão. Com uma baixa do último conflito, Don (Brad Pitt), Bible (Shia LaBeouf), Gordo (Michael Peña) e Coon-Ass (Jon Bernthal) recebem como reposição o inexperiente Norman (Logan Lerman) e em seguida são mandados com soldados remanescentes de outras tropas para combater o inimigo em outro campo de batalha.

Usando da claustrofobia presente dentro do tanque para criar a atmosfera do longa ("só existe na vida a próxima batalha" diz um dos soldados em certo momento), Ayer aproveita o cenário de desolação para homenagear os bangue-bangues clássicos. De seus personagens, cujos apelidos resumem seus perfis e fazem referência direta a figuras típicas, à fotografia de Roman Vasyanov, que feita em película conta com todos os enquadramentos vistos em praticamente todos os longas do gênero, Corações de Ferro é uma elegia ao faroeste, feita em uma época onde não há heróis ou sequer humanos para enfrentar os vilões em decadência.

A desumanização inclusive tem grande participação na guerra propiciada pelo filme. A grandiosidade mórbida das máquinas de guerra e a violência fria batem ponto na narrativa constantemente, quase como se avisassem que o que vemos ali em cena não são pessoas, mas sim animais prontos para matar o inimigo a todo custo. A bestialidade humana, porém, é combatida por alguns com a procura da normalidade nos poucos momentos de alívio, e Ayer busca retratar isso com a maior amplitude possível - não à toa, a cena protagonizada por Norman e Don (o John Wayne concebido pelo diretor com o que tem em mãos) no apartamento de uma família alemã ganha um destaque maior para atender a esses fins.

É de sujeira, sangue e tensão que Corações de Ferro é feito, e Ayer não nega essa realidade a ele. O mundo da guerra nunca foi ou será um lugar bonito, e é capaz de tornar o homem (mesmo o mais inofensivo deles) numa verdadeira máquina sem alma. Assim como a trajetória de Norman, essa jornada não é inédita no cinema, mas ganhou aqui toques interessantes na visão de seu cineasta.

Nota: 8/10

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